Estratégia do Planalto é de evitar iniciativas de aproximação, restringir as respostas do presidente e manter as negociações no campo técnico 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Malásia — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/07/2026 - 20:37 Tarifa dos EUA esfria relação Lula-Trump; Brasil avalia retaliação A relação entre Lula e Trump esfria após os EUA imporem uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O Planalto opta por uma postura cautelosa, evitando iniciativas de aproximação e mantendo negociações no campo técnico. Pequim apoia o Brasil contra o protecionismo. O governo brasileiro considera retaliações e a perspectiva de diálogo é incerta, com foco nas eleições e possível gestão de direita no Brasil. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros inaugura um novo momento na relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Após meses de negociações sem avanços, o Palácio do Planalto decidiu adotar uma postura mais cautelosa diante da Casa Branca: evitar iniciativas de aproximação, fazer com que o presidente brasileiro responda apenas a críticas feitas diretamente pelo líder americano e manter as conversas concentradas na equipe técnica, enquanto avalia que Washington tende a postergar um acordo comercial até as eleições brasileiras. Depois de uma surpreendente “química” e de encontros presenciais, Lula não conseguiu evitar reveses, como a classificação de facções brasileiras como terroristas e a nova tarifa. Do lado brasileiro, a tendência também é não dar prioridade à análise da indicação do novo embaixador americano em Brasília. Auxiliares do presidente afirmam que, no Planalto, prevalece a avaliação de que Washington deve “sentar em cima” das negociações sobre a tarifa até as eleições, na expectativa de estabelecer uma interlocução mais favorável com um eventual governo de direita. As negociações com o governo americano contaram com cinco reuniões de alto nível entre ministros de Lula e auxiliares de Trump. Nas conversas, os americanos exigiram contrapartidas consideradas “indignas” pelo governo Lula, como tarifa zero para bens industriais, máquinas e equipamentos, indústria química, setor espacial e automotivo, além de zerar tarifa do etanol e não regulamentar plataformas digitais. Agora, auxiliares de Lula buscam medir os próximos passos da relação entre os presidentes. Lula não deve poupar críticas em temas como guerras, mas a tendência é também tentar não escalar as tensões e responder caso Trump faça críticas diretas. Nenhum telefonema ou encontro com Trump deve ser sugerido pelo governo, considerando também que a prioridade do presidente americano agora é o conflito no Oriente Médio. Em evento no Rio de Janeiro na última sexta-feira, Lula deu o tom do discurso que deve ser adotado: — Vou deixar para falar do tarifaço quando o Trump falar. Enquanto ele não falar, eu não falarei. O tom adotado na reação da nova taxação deve ditar como Lula tratará o tema às vésperas da eleição. Desde o ano passado, o tarifaço se tornou uma pauta importante para a popularidade do presidente, principalmente com o envolvimento da família Bolsonaro com o governo de Trump pelas tarifas. O governo brasileiro chegou a afirmar, inclusive, que acionaria a Lei da Reciprocidade, que permite ao Brasil impor tarifas adicionais, suspender acordos ou barrar patentes em retaliação a medidas como o tarifaço. Porém, o tom nos bastidores é de cautela, com a avaliação de que é melhor esperar antes de adotar uma medida concreta. A sobretaxa de 25% deve atingir cerca de R$ 11 bilhões em exportações do agro e da indústria, segundo a Câmara do Comércio Americana (Amcham Brasil). Para o ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, a eleição brasileira tem sido um elemento importante para o governo americano, que tem interesse em uma gestão mais à direita no Brasil. — Isso seguramente está sendo considerado ao colocar mais barreiras contra o Brasil — diz o consultor da BMJ, que destaca que o uso da lei da reciprocidade é parte da negociação: — É natural que o Brasil adote reciprocidade. Os EUA já têm um superávit gigantesco que tem aumentado esse ano por conta das barreiras que eles impuseram, então é natural que o Brasil também reaja até para obrigar uma negociação. Professor da Universidade Internacional da Flórida, Guilherme Casarões destaca que mesmo com as tarifas e gestos recentes contra o Brasil, o governo Trump tem opiniões divididas em como conduzir as relações. — Dentro da própria Casa Branca, não há consenso a respeito de como lidar com o Brasil. Trump percebeu instintivamente que o Lula era uma figura com quem ele poderia conversar. Mas há figuras mais ideológicas que conturbaram a relação, como Marco Rubio, que faz uma série de críticas ao governo brasileiro — diz o cientista político. Para o professor do Insper Leandro Cosentino, Lula pode adotar uma postura resguardada em discursos internacionais, mas o tema pode ser um ativo da campanha. — Acho difícil que Lula lance mão de uma narrativa para de alguma forma capitalizar com discurso da soberania. O governo deve manter os canais abertos, claro, mas muito dificilmente deve avançar em algo com Trump.
‘Química’ entre Lula e Trump esfria após novo tarifaço dos EUA
Estratégia do Planalto é de evitar iniciativas de aproximação, restringir as respostas do presidente e manter as negociações no campo técnico






