Pesquisadores encontraram partículas em pessoas que fumavam ou estavam expostas a poluição 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cigarro pode ajudar microplásticos a atravessar os alvéolos pulmonares — Foto: Ana Branco RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/07/2026 - 14:12 Microplásticos no sangue: cigarro como vetor de poluentes ambientais Um estudo publicado no European Heart Journal revela que microplásticos podem alcançar a circulação do coração através da fumaça do cigarro. Pesquisadores italianos descobriram que fumantes têm seis vezes mais chances de ter microplásticos no sangue em comparação a não fumantes. A hipótese sugere que os microplásticos "pegam carona" na fumaça, atingindo a corrente sanguínea. O estudo levanta preocupações sobre o cigarro como vetor potencial de poluentes ambientais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os microplásticos são um dos grandes problemas ambientais da atualidade. Eles já foram encontrados nos oceanos, na água potável, em frutos do mar, no ar que respiramos e, cada vez mais, em diferentes partes do corpo humano, da placenta ao cérebro. Agora, um novo estudo realizado por pesquisadores italianos e publicado no European Heart Journal acrescenta mais um órgão a essa lista: a circulação sanguínea do próprio coração. Mas, embora a descoberta de microplásticos no sangue das artérias coronárias seja preocupante, o aspecto mais interessante do estudo talvez não seja a presença dessas partículas em si, e sim a forma como elas podem estar chegando até lá. Os pesquisadores descobriram que fumantes tinham seis vezes mais probabilidade de apresentar micro e nanoplásticos detectáveis no sangue que irriga o coração do que pessoas que não fumavam. Mais impressionante ainda: todos os fumantes que também estavam expostos a níveis elevados de poluição do ar apresentaram partículas plásticas no sangue, enquanto isso ocorreu em apenas 12,5% dos participantes que não fumavam nem estavam sujeitos a altos níveis de poluição. Trata-se de uma diferença expressiva, mesmo em um estudo com um número reduzido de participantes. Mais do que simplesmente confirmar mais um efeito nocivo do cigarro, os resultados levantam uma hipótese intrigante: o cigarro pode funcionar como um eficiente sistema de transporte de partículas microscópicas de plástico. Há décadas se sabe por que fumar prejudica o coração e os vasos sanguíneos. A fumaça do tabaco contém milhares de substâncias químicas capazes de provocar inflamação, lesionar os vasos, favorecer a formação de coágulos e acelerar o acúmulo de gordura nas artérias. A nova pesquisa sugere que outro mecanismo pode estar atuando em conjunto com esses riscos já bem estabelecidos. A fumaça do cigarro contém enormes quantidades de partículas ultrafinas que penetram profundamente nos pulmões. Os pesquisadores propõem que micro e nanoplásticos inalados possam "pegar carona" nessas partículas, atravessando os alvéolos pulmonares — as delicadas estruturas responsáveis pelas trocas gasosas — e alcançando a corrente sanguínea com muito mais facilidade do que se imaginava. A poluição atmosférica pode favorecer um processo semelhante. Isso não significa necessariamente que as partículas detectadas tenham origem no próprio cigarro, embora a maioria dos filtros seja produzida com acetato de celulose, um tipo de plástico que pode contribuir para essa exposição. Na realidade, fumantes respiram um ar que já contém partículas microscópicas de plástico provenientes de fibras de roupas sintéticas, desgaste de pneus, embalagens degradadas e inúmeras outras fontes ambientais. O ato de fumar pode simplesmente facilitar a passagem dessas partículas dos pulmões para a circulação sanguínea. Pesquisa Os pesquisadores analisaram 61 pacientes submetidos a um exame chamado angiografia coronária. Eles compararam três grupos: pessoas que haviam sofrido um infarto, pacientes com doença arterial coronariana estável e indivíduos com artérias coronárias normais. Micro e nanoplásticos foram detectados em 84% dos pacientes que haviam sofrido infarto, contra 40% daqueles com doença coronariana crônica e 32% dos participantes com artérias coronárias normais. Os pacientes que sofreram infarto também apresentavam uma maior diversidade de polímeros plásticos, sendo o polietileno — amplamente utilizado em embalagens — o material encontrado com mais frequência. Outro achado importante foi a presença de níveis mais elevados de marcadores inflamatórios entre os pacientes que apresentavam partículas plásticas detectáveis. Como a inflamação desempenha um papel central na ruptura das placas de gordura nas artérias e no desencadeamento de infartos, essa associação biológica merece ser investigada com maior profundidade. Causa e efeito Apesar dos resultados, o estudo não demonstra que os microplásticos provoquem infartos. A pesquisa envolveu um número pequeno de participantes e teve caráter observacional. Isso significa que os cientistas identificaram associações, mas não podem concluir que um fator tenha causado o outro. Pessoas que fumam costumam estar mais expostas à poluição ambiental e podem apresentar diversos outros fatores de estilo de vida que influenciam o risco cardiovascular. Além disso, pacientes tratados por infarto recebem líquidos intravenosos e entram em contato com dispositivos médicos que, por si só, podem introduzir pequenas partículas plásticas nas amostras de sangue. Essa cautela é importante. Os microplásticos se tornaram um tema que desperta grande atenção pública, e é tentador interpretar cada nova descoberta como uma prova definitiva de seus efeitos nocivos. Mas a ciência raramente funciona dessa maneira. Cada estudo acrescenta apenas mais uma peça a um quebra-cabeça muito maior. Independentemente de os microplásticos virem ou não a ser confirmados como uma causa direta de doenças cardiovasculares, a pesquisa reforça uma mensagem mais ampla, que se torna cada vez mais evidente: a saúde do coração depende não apenas da genética e das escolhas individuais, mas também dos ambientes em que vivemos. Fatores ambientais A poluição do ar já é reconhecida como um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares em todo o mundo. O tabagismo continua sendo uma das maiores causas evitáveis de morte prematura. Se ambas as exposições também facilitarem a entrada de partículas plásticas na corrente sanguínea, talvez representem riscos que atuam em conjunto, e não de forma independente. Essa ideia está em sintonia com um conceito cada vez mais estudado na ciência, conhecido como exposoma: o conjunto de todas as exposições ambientais às quais uma pessoa é submetida ao longo da vida. Em vez de analisar separadamente a fumaça do cigarro, a poluição do ar e a poluição por plásticos, os pesquisadores começam a investigar como esses fatores interagem entre si. Esses resultados não diminuem a importância das razões já conhecidas para abandonar o cigarro. Fumar continua aumentando de forma expressiva o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), câncer e doenças pulmonares crônicas. Mas, se pesquisas futuras confirmarem que o tabagismo também funciona como uma porta de entrada para partículas microscópicas de plástico na corrente sanguínea, esse será mais um mecanismo pelo qual o cigarro prejudica a saúde. O dado que provavelmente mais chama atenção é também o mais simples: neste estudo, todos os participantes que fumavam e estavam expostos a altos níveis de poluição atmosférica apresentaram plásticos detectáveis no sangue. Entre aqueles que não fumavam nem viviam sob alta exposição à poluição, isso ocorreu em apenas uma em cada oito pessoas. Embora esse pequeno estudo não demonstre que os plásticos tenham causado as doenças cardíacas observadas, ele reforça uma ideia importante: o cigarro não é apenas uma fonte de substâncias tóxicas. Ele também pode estar ajudando a transportar outro poluente moderno para regiões do organismo onde jamais se imaginava encontrá-lo. * David C. Gaze é professor sênior de Patologia Química na Universidade de Westminster, na Inglaterra