Durante anos, a vida de Thor Björgólfsson no Reino Unido reunia todos os elementos característicos da elite internacional há muito atraída pelos encantos do país. Havia a empresa de investimentos em Mayfair, uma propriedade discreta escondida no interior dos condados vizinhos a Londres, filhos matriculados em um prestigiado internato e iniciativas de conservação, incluindo a restauração de uma mansão da era jacobina em Hampshire. Mais recentemente, porém, o investidor islandês, que já foi apontado como o primeiro bilionário da Islândia, teve de enfrentar decisões difíceis sobre seu futuro depois que o Reino Unido encerrou um regime tributário especial destinado aos residentes sem domicílio fiscal ("non-doms"). Diante da perspectiva de pagar impostos mais altos sobre seu patrimônio no exterior, Björgólfsson juntou-se a diversos outros empresários e indivíduos de alta renda que deixaram o país. No último ano, ele transferiu sua residência fiscal para a Itália e mudou sua empresa de investimentos, a Novator, para Zurique, o que resultou na eliminação de cerca de 20 postos de trabalho em Londres. Sua experiência, relatada em entrevista à Bloomberg, oferece um raro retrato pessoal da transformação em curso no país após a decisão de acabar com um benefício fiscal que existia desde os tempos coloniais. Em particular, suas ações reforçam os argumentos de que o fim do regime dos "non-doms", há pouco mais de um ano, pode ter consequências econômicas mais amplas do que o governo previa. O Partido Trabalhista, atualmente no poder, aposta que as mudanças nesse regime centenário — que permitia a investidores internacionais e empreendedores evitar a tributação sobre rendimentos obtidos fora do Reino Unido — gerarão cerca de £ 33 bilhões (US$ 44 bilhões) em arrecadação adicional nos próximos anos. No entanto, uma série de centros de pesquisa (think tanks) do Reino Unido contesta essas estimativas, alertando para os riscos à geração de empregos e ao crescimento econômico. Grande parte do debate tem se concentrado em um ponto fundamental: se mais de um em cada quatro integrantes da população típica de non-doms deixar o país, a política começará a produzir o efeito contrário ao desejado. Embora ainda seja difícil obter números confiáveis sobre o total exato de pessoas que partiram — e o governo britânico tenha afirmado que só espera divulgar dados consolidados no próximo ano —, Björgólfsson é categórico em sua avaliação. Thor Björgólfsson em sua casa em Reykjavik, construída por seu bisavô — Foto: Heida Helgadottir/Bloomberg — É um êxodo, não foi apenas exagero ou alarde. É impressionante a rapidez com que isso aconteceu. Os danos colaterais estão se multiplicando em outras áreas — afirma . Na avaliação de Björgólfsson, o Reino Unido deveria ter considerado substituir o regime dos non-doms por um sistema de imposto de valor fixo (flat-rate tax), que estabelece um teto para o montante devido, nos moldes do adotado por alguns outros países, como a Itália. Isso porque o país disputa, em âmbito internacional, a atração de investidores de alto patrimônio e de outras pessoas de grande poder aquisitivo. Segundo ele, se tivesse adotado esse modelo, indivíduos ricos poderiam ter pago antecipadamente o equivalente a cerca de três anos de impostos, proporcionando ao governo britânico uma entrada imediata de bilhões de libras em receitas. — O que me preocupa é que o governo meio que cometeu um erro e percebeu que havia cometido um erro — afirmou, referindo-se a uma reunião que teve com um assessor de Keir Starmer, então primeiro-ministro do Reino Unido, que agora está deixando o cargo. Também participaram do encontro outros expatriados ricos residentes no Reino Unido que, segundo Björgólfsson, tinham um perfil semelhante ao seu. O Reino Unido introduziu desde então um sistema menos vantajoso, que isenta novos residentes do pagamento de impostos sobre rendimentos e ganhos obtidos no exterior durante quatro anos. Em uma tentativa de recuperar sua atratividade global, o país também avalia criar um novo visto que concederia três anos de residência a indivíduos de alto patrimônio que invistam pelo menos £ 5 milhões (US$ 6,7 milhões), de acordo com documentos obtidos pela Bloomberg. "Se você faz do Reino Unido o seu lar, então também deve pagar seus impostos aqui. Foi por isso que abolimos o status tributário de non-dom”, afirmou um representante do Tesouro britânico em comunicado enviado por e-mail. “O Reino Unido continua sendo um lugar altamente atraente para viver e investir. Nossa principal alíquota de imposto sobre ganhos de capital é inferior à de qualquer outro país europeu do G7, e o novo regime baseado na residência é mais simples do que o anterior, além de corrigir desigualdades no sistema tributário”, acrescentou. Björgólfsson, cuja trajetória empresarial o levou da São Petersburgo pós-soviética ao colapso do sistema bancário de sua Islândia natal, é particularmente crítico ao aumento do imposto sobre heranças introduzido pelas reformas do regime dos non-doms. Segundo ele, as novas regras ignoram a dificuldade de avaliar participações em empresas privadas de baixa liquidez, cujo valor no papel pode oscilar fortemente antes de uma eventual venda. A recente turbulência política que atingiu o Partido Trabalhista britânico também tende a aumentar a preocupação entre a elite de alta renda do país. Andy Burnham, que deverá suceder Keir Starmer como primeiro-ministro nos próximos dias, já declarou no passado que acredita que a riqueza no Reino Unido deveria ser mais tributada. Candidatos à sucessão de Rachel Reeves no cargo de chanceler do Tesouro (Chancellor of the Exchequer) também defenderam elevar o imposto sobre ganhos de capital para equipará-lo ao imposto de renda, cuja alíquota máxima chega a 45% — quase o dobro do nível atual. As mudanças promovidas pelo Reino Unido para os non-doms — grupo que inclui desde executivos da City de Londres até empresários de grande patrimônio, como Björgólfsson — entraram em vigor no ano passado. O governo de Keir Starmer ampliou as reformas inicialmente propostas no começo de 2024 pelo então governo do Partido Conservador, ao passar a sujeitar ao imposto britânico sobre heranças os ativos mantidos no exterior por estrangeiros ricos. Em seu segundo orçamento, apresentado em novembro, Rachel Reeves tentou reduzir o impacto dessa medida, estabelecendo um limite de £ 5 milhões por década para o montante sujeito à tributação para os antigos non-doms. —É um pouco tarde demais quando as pessoas já compraram imóveis no exterior — disse Björgólfsson, que se estabeleceu em Milão. Björgólfsson acredita que o Reino Unido deveria ter considerado substituir o regime "non-dom" por um sistema de tributação com alíquota fixa — Foto: Heida Helgadottir/Bloomberg A mudança para a Itália também teria atraído o cofundador da CVC Capital Partners, Rolly van Rappard, e o veterano do Goldman Sachs, Richard Gnodde. Entre outros nomes de destaque que deixaram o Reino Unido estão o bilionário egípcio Nassef Sawiris e Guillaume Pousaz, fundador da Checkout.com. Para Björgólfsson, a mudança para a Itália — e a necessidade de viajar constantemente entre os dois países para cumprir as regras de residência fiscal — é apenas o capítulo mais recente de uma carreira que o levou de sua Islândia natal para Nova York e, depois, para a Rússia, onde construiu uma empresa de engarrafamento e produção de cerveja que mais tarde vendeu para a Heineken. O sucesso conquistado no exterior acabou levando-o de volta à Islândia. Seus investimentos nos setores farmacêutico e bancário elevaram seu perfil público em um país onde seu pai já era uma figura amplamente conhecida. — Meu pai sempre dizia: não seja um peixe grande em um lago pequeno. Seja um peixe pequeno em um lago grande — contou. Os anos que se seguiram colocaram essa filosofia à prova. Björgólfsson era o maior acionista do Landsbankinn, um dos três bancos comerciais da Islândia. Quando o sistema bancário do país entrou em colapso, em 2008, ele se viu no centro de uma das piores crises financeiras da história islandesa. Giorgio Armani não deixou filhos, mas tem herdeiros: Veja quem são e como devem dirigir o império de luxo O Icesave, braço de poupança on-line do banco, havia acumulado depósitos no Reino Unido e na Holanda equivalentes a uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) da Islândia. Isso desencadeou uma disputa sobre a compensação aos depositantes, que resultou em uma longa batalha judicial entre a Islândia e o Reino Unido. O colapso também alimentou a indignação popular contra a elite empresarial islandesa, e Björgólfsson tornou-se um dos principais alvos dessa reação. Sua casa em Reykjavik foi atacada com bombas de tinta, e ameaças de morte foram pichadas em suas paredes. Posteriormente, ele publicou um pedido público de desculpas em um jornal por seu papel na “bolha de ativos e de endividamento que levou ao colapso do sistema bancário islandês” e quitou todas as suas dívidas em 2014. Ele não foi o primeiro membro da família a enfrentar dificuldades. Seu bisavô, Thor Jensen, um imigrante dinamarquês, superou uma falência no início da vida para construir o que se tornaria a maior empresa pesqueira da Islândia e uma das maiores fortunas do país. Já seu pai, Bjorgolfur Gudmundsson, ex-proprietário do clube de futebol inglês West Ham United, viu a empresa de navegação Hafskip falir na década de 1980. Mais tarde, respondeu a acusações criminais e recebeu uma pena de um ano de prisão condicional. Björgólfsson descreve esse episódio como o momento em que sentiu que “precisava amadurecer da noite para o dia” para ajudar a restaurar a reputação da família. Seu revés mais recente ocorreu bem longe de casa. Por meio da Novator, Björgólfsson passou anos desenvolvendo a WOM, uma empresa de telecomunicações chilena que mais tarde expandiu suas operações para a Colômbia. Em 2024, a companhia recorreu ao Chapter 11, mecanismo de recuperação judicial previsto na legislação dos Estados Unidos, depois de não conseguir refinanciar uma dívida de US$ 348 milhões. Segundo ele, o colapso foi resultado da combinação entre os elevados custos da implantação da tecnologia 5G, os impactos da pandemia e mudanças políticas nos dois países. — No fim das contas, tudo se resume ao financiamento. Os recursos simplesmente secaram no meio desses projetos — afirmou. A recuperação judicial, que ocorreu depois de a WOM acumular cerca de US$ 1,8 bilhão em passivos, representou o maior revés de sua carreira como investidor desde o colapso do sistema bancário islandês. Hoje, ele praticamente deixou o setor de telecomunicações e afirma não acreditar mais na viabilidade econômica desse mercado, acrescentando que “todo o fluxo de caixa está indo para o Vale do Silício”. Atualmente, o portfólio da Novator inclui empresas como a Nord Security, de cibersegurança; a Sidekick Health, especializada em terapias digitais; o estúdio de efeitos visuais DNEG; e a Touchlight, empresa britânica de biotecnologia que desenvolve DNA sintético. A revista Forbes incluiu Björgólfsson entre as pessoas mais ricas do mundo em 2005, descrevendo-o como o primeiro bilionário da Islândia. As estimativas atuais ainda apontam seu patrimônio em torno de US$ 1 bilhão. Nos últimos anos, ele tem voltado sua atenção cada vez mais para a Índia, onde diz preferir investir em empresas já listadas em bolsa e em oportunidades pré-IPO, em vez de criar negócios do zero. Seu apetite por risco, contudo, parece ser menor do que já foi. No início deste ano, Björgólfsson orientou sua equipe a interromper novos investimentos, convencido de que o entusiasmo em torno da inteligência artificial elevou excessivamente as avaliações de mercado, criando uma situação que, em sua visão, lembra a bolha das empresas de tecnologia ("bolha da internet") que antecedeu a virada do milênio. — Não vamos investir em nada novo até que haja algum tipo de correção neste mercado — afirmou. Björgólfsson também não pretende estabelecer um plano formal de sucessão. Segundo ele, não pretende pressionar seus filhos a ingressarem nos negócios da família e prefere que eles primeiro construam suas próprias carreiras em outras empresas. O conselho que recebeu de seu pai ainda permanece vivo em sua memória: os jovens, de preferência, devem cometer seus primeiros erros nos negócios trabalhando para outra pessoa.
'Primeiro bilionário' da Islândia junta-se à debandada de residentes sem domicílio fiscal, os 'non-doms'
Diante da perspectiva de pagar impostos mais altos sobre seu patrimônio no exterior, Thor Björgólfsson juntou-se a diversos outros empresários e indivíduos de alta renda que deixaram o Reino Unido







