Para quem associa uma academia de luta a um ambiente de competitividade exacerbada, infestado por “pitboys” que admiram os próprios músculos diante do espelho, a cena encontrada no terceiro andar do Centro Cultural A Casa do Povo, no Bom Retiro, região central de São Paulo, pode causar algum estranhamento. No lugar de paredes cobertas por anúncios de suplementos ou frases motivacionais sobre superação individual, há um retrato de Teófilo Stevenson, o lendário boxeador cubano que recusou propostas milionárias para lutar profissionalmente nos EUA e permaneceu em sua resistente ilha caribenha. Ao lado do ringue, bandeiras de Cuba, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Palestina dividem espaço com luvas, sacos de pancada e equipamentos de treino.
Mais do que um local para aprender a golpear forte, o Boxe Autônomo entende o esporte como um direito social, que não pode ser reduzido à lógica do mercado, e como uma ferramenta de formação política horizontal, baseada no combate ao racismo, ao machismo e a outras formas de discriminação. Na academia abertamente “antifascista”, a imagem de um sorridente Stevenson, ao lado de um orgulhoso Fidel Castro com o charuto em riste, convive com um cartaz da lendária batalha travada entre Muhammad Ali e George Foreman em 1974, no Zaire, atual República Democrática do Congo. “A Luta do Século”, como entrou para a história, terminou com a vitória de Ali, que denunciou incansavelmente o racismo nos EUA e se recusou a servir no Exército durante a Guerra do Vietnã. Do outro lado do ringue estava Foreman, um nocauteador implacável, acostumado a derrubar adversários nos primeiros rounds, mas que, naquele período, mantinha uma relação mais distante com o ativismo negro norte-americano.










