O medo nos protege. A coragem nos habilita a agir. A covardia é fraqueza moral. Não chorei por ti. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Recuar o time inteiro, tentando frear a Argentina, é mais do que erro tático. É falta de hombridade — Foto: Reprodução Instagram A semifinal de Inglaterra x Argentina me indignou mais que a derrota de um Brasil chocho e apático. Nunca acreditei nessa seleção – fiquei feliz com o fim da era Neymarketing. O que ninguém esperava é que surgiria um técnico mais covarde que Ancelotti. Tuchel, o técnico alemão da Inglaterra, foi protagonista desse jogo. Pela capitulação. O que vimos não foi uma disputa normal entre seleções mundiais favoritas, com craques de lado a lado. Foi uma guerra, em que um lado se rendeu muito antes do tempo regulamentar. Quanto mais o jogo durasse, mais gols a Argentina faria, com a desconcertante assistência de Messi. E a Inglaterra sofreria uma goleada histórica. O placar só não foi maior porque a trave, o goleiro e a sorte pareciam bafejar os ingleses. Nos últimos 35 minutos, os soldados da rainha estavam perdidos no campo de batalha, ansiosos por depor as armas, bater em retirada. E evitar o massacre. Foi humilhante. Todo mundo viu um primeiro tempo em que o futebol virou rugby. Ninguém conseguia jogar, era agarrado, atacado, travado. Argentina deveria ter tomado uns cinco cartões amarelos por cotoveladas, empurrões, pontapés, carrinhos – mas o primeiro a ser punido pelo árbitro foi um zagueiro inglês. Muito feio, Fifa. O mundo está vendo. A Inglaterra mantinha a coragem e surpreendia nos contra-ataques. No segundo tempo, um gol de Gordon preparou os ingleses para o impensável: a chance de jogar a primeira final em 60 anos! Desde 1966, quando sediou e ganhou seu único título em Copa do Mundo, a Inglaterra não sonhava com nada parecido. E aí, o que fez o técnico Tuchel? Substituiu atacantes – entre eles o que fez 1 a 0 – por zagueiros. Se Nelson Rodrigues fosse vivo, diria que o Sobrenatural de Almeida, fantasma responsável por tudo de ruim para os tricolores, teria reencarnado em Tuchel. O carrasco dos ingleses não foi o juiz e nem mesmo Messi. Foi o próprio treinador. “No regrets”, disse Tuchel. Nenhum arrependimento. Nem mesmo de manter no banco craques como Saka, ponta-direita do Arsenal. Jovem, 24 anos, ascendência nigeriana. Há imagens dessa virada que ficarão para a História. E não são os gols argentinos – porque, vamos combinar, estava na cara. A imagem inacreditável é a que abre esta coluna: 10 jogadores ingleses na linha da grande área defensiva. Para quem não entende de futebol, isso significa um time inteiro tentando frear os ataques junto a seu gol. Numa meia hora interminável. E contra a Argentina! Nunca vi nada igual. É muito mais que um erro tático. É falha de caráter. De hombridade. De coragem. Porque podemos recuar estrategicamente na vida, no trabalho, no amor, e até no futebol. É válido. Mas entregar os pontos, a alma, o coração, sem brigar, sem lutar...aí é covardia. E foi o que a Inglaterra fez. Quem me lê sabe bem por que torço contra a Argentina. Escrevi aqui semana passada. E sabe bem por que torci pela Inglaterra. Por ser meu segundo país, uma terra que adotei. Onde vivi, trabalhei, estudei, amei. Onde tenho minha irmã e sobrinhos. Era o máximo torcer embalada por Wonderwall, da banda Oasis, e de Hey Jude, dos Beatles. Bonito demais. Mas a covardia substituiu a coragem. Não desprezo o medo. O medo me ajuda a não saltar de uma ponte sem cordas. O medo me ajuda a não confiar de maneira suicida nos outros. O medo me protege da imprudência. O medo pode nos ajudar a agir. O medo é natural contra a seleção argentina. Aí entram duas possibilidades de reação: a coragem ou a covardia. A covardia, descrita por Aristóteles e Montaigne, é uma fraqueza moral. Quando nos omitimos em momentos decisivos. Por isso, não senti tristeza. Não chorei por ti, Inglaterra. ¡Vamos España!
A Inglaterra na Copa: um ensaio sobre a covardia
O medo nos protege. A coragem nos habilita a agir. A covardia é fraqueza moral. Não chorei por ti.












