Gerando resumoO Grupo Edge, gigante da indústria de armamentos com sede em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta quinta-feira, 16, a compra de mais uma empresa da base industrial de defesa do Brasil, a terceira desde 2023. Desta vez, a aquisição envolve 100% da Akaer, especializada em engenharia aeroespacial, que participou dos projetos do caça Gripen, da Saab, e do cargueiro militar KC-390, da Embraer. O valor da operação não foi divulgado.A Akaer é uma empresa estratégica de defesa, portanto, a operação de venda tem de ser autorizada pelo governo brasileiro. Mas a direção do Grupo Edge acredita que não haverá problema em razão da situação financeira da empresa — representantes das Forças Armadas e do Ministério da Defesa foram consultados. O CEO do Grupo Edge, Hamad Al Marar, afirmou que a Akaer deve agregar “uma sólida expertise em engenharia à Edge”.Fábrica da Akaer, em São José dos Campos; empresa tem 450 funcionários e é a terceira adquirida pelo Grupo Edge no Brasil Foto: Akaer/Grupo Edge/Divulgação“Trata-se de uma equipe altamente especializada, com três décadas de experiência na execução de programas aeroespaciais complexos; esse conhecimento reforça a nossa oferta em todo o grupo. Nossa prioridade é garantir a continuidade — para os colaboradores, os programas e os clientes da Akaer —, ao mesmo tempo em que construímos as bases para o crescimento a longo prazo”, disse.PublicidadeLeia tambémSetor aeroespacial brasileiro tenta atrair a Faria Lima, na esteira da SpaceXEmpresa aeroespacial Rocket Lab adquire Iridium por US$ 8 bi em tentativa de desafiar SpaceXEmpresa sul-coreana fecha contrato para lançar foguete a partir da Base de AlcântaraPUBLICIDADECriada há 30 anos com sede em São José dos Campos (SP), a Akaer tem 450 funcionários e atravessa uma crise que levou ao atraso de salário e à coleção de um passivo trabalhista milionário. No ano passado, ela faturou US$ 30 milhões. Com sua compra, os investimentos do grupo Edge no Brasil chegam a US$ 700 milhões em três anos. “Ninguém investiu mais em defesa nesse período no Brasil do que nós”, afirmou Rodrigo Torres, diretor financeiro do Grupo Edge. A direção da empresa deve permanecer com executivos brasileiros e sua base será mantida no país.O blindado Cascavel modernizado durante testes no Rio de Janeiro no segundo semestre de 2024: novo motor e armas como o míssil 1.2 Max Foto: Exército Brasileiro/DivulgaçãoO principal contrato da empresa com as Forças Armadas Brasileiras envolve a modernização dos blindados Cascavel, fabricados pela Engesa nos anos 1970 a 1980. A Akaer e o Grupo Edge mantêm ainda conversas com as Forças Aérea e Terrestre para a venda de drones. Atualmente, cerca de 40% das receitas da Akaer são provenientes de contratos com o Grupo Edge.Publicidade“Ela já presta serviço de engenharia para os drones da Edge e outros serviços. Então, sinergia existe já antes da aquisição”, afirmou Torres. Segundo ele, a intenção do grupo não é colocar a Akaer 100% em engenharia aeroespacial e drones, principais áreas de interesse na aquisição. “Nós vamos continuar servindo o Exército no Cascavel e em outros programas”, disse o CFO.A ideia dos novos proprietários é tentar preservar as parcerias já existentes da empresa — atualmente ela mantém projetos com empresas da Alemanha, Portugal e Turquia. Deve ser revisto, no entanto, os planos que levaram no passado a Akaer a se tornar uma construtora, deixando de ser uma empresa focada na engenharia. Mas as áreas prioritárias devem ser a espacial e os drones.O 5.º lançamento do míssil antinavio brasileiro Mansup, feito em 2023, a partir da fragata Liberal; arma é fabricada pela SIATT, empresa do Grupo Edge Foto: Marinha do Brasil/DivulgaçãoNo comunicado oficial das empresas, a Edge informou que a Akaer lhe proporcionará “uma base de engenharia consolidada no Brasil e uma equipe multidisciplinar altamente qualificada, abrangendo todo o ciclo de vida do produto, desde o projeto conceitual até a industrialização”. Ainda segundo a nota, a operação “reforçaria a capacidade da Edge de cumprir os cronogramas de industrialização em programas estratégicos de VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados) e ampliaria as competências do grupo nas áreas de optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos, bem como tecnologias espaciais”.PublicidadeConversas começaram em abrilAs conversas entre a Akaer e o Grupo Edge começaram em abril, na Laad, feira de defesa, realizada em São Paulo, quando Hamad Al Marar revelou ao Estadão em abril a intenção do grupo de produzir drones no Brasil. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva deu o aval à negociação como forma de evitar a paralisação do programa de modernização do Cascavel. “Conversamos com todos os credores e estamos conseguindo renegociar o passivo”, afirmou Torres.Além dos drones e do projeto de um foguete microlançador de satélites, a Akaer tem ainda produtos ópticos e baterias. “A ideia é a gente investir na empresa aqui para decolar e ajudar a gente nas parcerias e contratos globais. Ela deve se interligar a outros projetos de outras empresas do grupo, mas também a novos contratos com o governo.”Por enquanto, as empresas do grupo no Brasil — a SIATT e a Condor — já foram orientadas a examinar todos os contratos de engenharia para redirecioná-los à Akaer. “Estamos também olhando as 50 empresas do grupo e redirecionando.” Esse movimento deve levar à Akaer dois contratos — um na área espacial de US$ 100 milhões e outro para o desenvolvimento de drones de US$ 40 milhões. A empresa pretende ainda usar a experiência da modernização do Cascavel para modernizar uma frota de até 500 carros de combate na Europa com sistemas antidrone e de consciência situacional da guarnição dos veículos, além de baterias e outros itens.Publicidade