Gerando resumo“Hoje estamos vendo um despertar em toda a região, onde a esquerda segue recuando. Primeiro perdeu no Chile, na semana passada perdeu na Colômbia, já sabemos que perdeu no Peru e espero que em outubro perca no Brasil”. Assim celebrou o presidente Javier Milei o que ele chama de “maré azul” na América do Sul.PUBLICIDADEO argentino comemorava as eleições recentes de Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru, que terminaram de pintar o mapa ideológico da região de azul, simbolizando a direita, contra o vermelho geralmente associado à esquerda. De la Espriella substituirá o colombiano de esquerda Gustavo Petro, e Keiko assumirá um país que primeiro elegeu o esquerdista Pedro Castillo e depois viveu mais uma novela de instabilidade institucional, com três presidentes em menos de um ano.PublicidadeOs dois se somam a Milei na Argentina, Santiago Peña no Paraguai, José Antonio Kast no Chile, Rodrigo Paz na Bolívia e Daniel Noboa no Equador.A guinada do pêndulo chama atenção por correr exatamente para o oposto do ciclo eleitoral anterior, quando foram eleitos Alberto Fernández na Argentina, Gabriel Boric no Chile, Luis Arce na Bolívia, Pedro Castillo no Peru, Gustavo Petro na Colômbia e Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil.A exceção aqui foi o Uruguai, que mudou da direita de Luis Lacalle Pou para a esquerda de Yamandú Orsi.PublicidadeOnda azul?Especialistas consultados pelo Estadão, porém, não cravam uma “maré azul” como diz Milei, pelo mesmo motivo que não cravaram uma nova “onda rosa” no ciclo eleitoral anterior. A alternância entre lados opostos do espectro político representam muito mais uma insatisfação com os governos incumbentes do que uma decisão ideológica.“Se por ‘onda’ entendermos um número considerável de líderes de direita e ultradireita chegando ao poder em um período muito curto, então é claramente uma onda. Agora, isso não significa que o eleitorado latino-americano tenha se tornado mais conservador, porque os dados não corroboram essa hipótese”, alerta Lisa Zanotti, cientista política baseada na Universidade da Europa Central em Budapeste, e pesquisadora do Laboratório de Estudos da Ultradireita no Chile.O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella Foto: JUAN BARRETO/AFPSe o eleitorado não está mais conservador, então porque a escolha de candidatos da direita? Pela tempestade perfeita do contexto. Primeiro, há esta insatisfação com os governantes de turno, que já vem desde a pandemia e se traduz em baixos níveis de aprovação; segundo, há o tema da insegurança pública, que tem pautado as últimas eleições e é abraçado com mais afinco pela direita; por último, o endosso de Donald Trump.PublicidadeUm voto ideológico?Pesquisas de opinião, na realidade, mostram uma América Latina muito heterogênea em temas considerados clássicos da direita e da esquerda. Se no campo dos costumes, as opiniões contra o direito ao aborto são majoritárias nos países, por outro o apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo segue em alta. Também não existe consenso em termos econômicos. Os sul-americanos concordam com livre-mercado e liberalismo, mas também defende um estado de bem estar socialNão se trata de votar unicamente com base em ideologia. As pessoas votam por uma série de outros motivos muito mais contingentes, como, por exemplo, segurança.Lisa Zanotti, cientista política baseada na Universidade da Europa Central em BudapesteO sinal claro disso é que vários desses líderes atuais receberam poucos votos em seus primeiros turnos – alguns até perderam, como Milei e Kast. Mas conseguem no segundo turno aglutinar a insatisfação com o governo de turno.PublicidadePUBLICIDADE“Por que Javier Milei se saiu tão bem no segundo turno? No primeiro ele obteve 30% dos votos e, no segundo, conseguiu mobilizar 55%. Não é que esses 55% dos argentinos sejam de ultradireita, é que eles se viram diante de duas opções: votar em Javier Milei ou votar no então Ministro da Economia, que representava o incumbente, em um país com inflação de 100%. E o que os argentinos disseram foi: ‘Eu não quero isso, portanto, vou votar na alternativa’”, explica Cristóbal Rovira Kaltwasser, diretor do Laboratório de Estudos da Ultradireita no Chile.Diferentes tons de azulChamar de maré ou onda azul também é reducionista, argumentam os analistas, pois acaba considerando a direita como uma ideologia só, sem nuances. Seria como dizer que Javier Milei e Santiago Peña compartilham exatamente as mesmas ideias. Na verdade, cada um representa duas pontas que têm entrado em choque. Milei é a nova direita, mais radical e linha-dura na segurança; enquanto Peña representa a direita convencional, que está em declínio.PublicidadeA presidente eleita do Peru Keiko Fujimori Foto: Bruno Elias/AP“Precisamos enxergar todos esses líderes como primos, não como irmãos”, explica Kaltwasser. “O que quero dizer com isso? Se eu for a uma reunião de família onde há muitos primos, vou notar que eles se parecem, mas não são idênticos”.O que os difere? Segundo a ciência política, a relação com a democracia. A direita tradicional também é conservadora nos costumes e liberal na economia, contudo, suas propostas e seu governo atuam dentro das instituições democráticas. Já a direita radical, assim como a esquerda radical, entra em constante conflito com os demais Poderes e são resistentes a entregar o poder.Por este motivo, a “onda de direita” de agora não pode ser comparada com seus homólogos da onda anterior, de meados de 2015, quando eram presidentes Mauricio Macri na Argentina, Sebastián Piñera no Chile e Horacio Cartez e Mario Abdo Benítez no Paraguai, todos representantes da direita tradicional. PublicidadeAté hoje, Donald Trump não aceitou que perdeu a eleição presidencial. Bolsonaro tentou um golpe porque se recusou a deixar o poder. E isso nos mostra precisamente o que distingue esses atores da ultradireita daqueles da direita convencional.Cristóbal Rovira Kaltwasser, diretor do Laboratório de Estudos da Ultradireita no ChileA segurança e as direitas mais radicaisZanotti já trouxe em sua resposta o assunto que mais tem mobilizado o eleitorado latino-americano: a segurança. Um levantamento de 2025 do Banco Mundial mostrou que a insegurança é considerado o problema mais grave em grande parte da América Latina, mais até que a economia. É o caso de Equador, Peru, Chile e Colômbia. Brasil e Argentina são as exceções.Esta é uma temática que não só mobiliza mais a direita, como dá fôlego aos nomes mais radicais deste espectro político. “Os cidadãos latino-americanos geralmente concordam que a segurança pública é o problema mais importante e desejam políticas de tolerância zero ao crime, independentemente de serem de esquerda ou de direita. E essa é precisamente uma das bandeiras erguidas por atores de ultradireita, prometendo que serão eles que de fato implementarão políticas de tolerância zero ao crime”, afirma Kaltwasser.O maior expoente dessa corrente linha-dura vem da América Central, com Nayib Bukele em El Salvador. Sua política de encarceramento em massa e a redução nos números de homicídios no país – que suspeita-se que tenham sido obtidos por meio de acordo com as gangues – inspiram políticos do sul. O candidato vencedor da Colômbia chega a se inspirar em Bukele até esteticamente.Publicidade“A direita historicamente tem sido vista como muito mais capaz de enfrentar e resolver problemas como segurança pública”, argumenta Lisa Zanotti.O presidente argentino Javier Milei e o senador Flávio Bolsonaro