O desafio de quem conduz a CBF é construir um sistema capaz de ligar as 'águas', para que elas possam correr por todo o país. Hoje, esses caminhos seguem fragmentados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Brasil foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo pela Noruega, ficando em 11º lugar — Foto: Odd Andersen/AFP/5-7-2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/07/2026 - 18:34 "Revitalização do Futebol Brasileiro: A Responsabilidade da CBF" O artigo usa a metáfora de um rio para discutir o estado do futebol brasileiro e a responsabilidade da CBF em integrar e revitalizar o sistema esportivo do país. Destaca que, assim como um rio não se recupera pela foz, o futebol deve ser fortalecido desde as bases, incluindo a rua, várzea, futsal e clubes formadores. Aponta a fragmentação atual e a necessidade de unir essas "águas" para reavivar a confiança e a força da seleção nacional. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Velho Chico, Dizem que o sertão espera pela chuva. Espera. Mas é com o rio que aprende a viver. E rio nenhum chega sozinho. Certa vez, vi uma canoa amarrada numa margem barrenta e um homem velho que dizia que rio bom não é o que passa depressa. É o que volta todo ano. Naquele dia entendi, sem entender direito, que a água era só a parte do rio que os olhos alcançavam. Depois disso, nunca mais estranhei um sertão inteiro viver à espera do mesmo rio. Quando o rio parece grande demais, o homem esquece de cuidar da nascente. Chico, herdaste um rio que já não corre como antes. Encontraste barragens que não construíste, erguidas por homens que trataram a água como propriedade e a nascente como despesa. Não escolheste o rio que recebeste. Escolherás o rio que deixarás. Rio não seca de uma vez. Primeiro adoecem as margens. Depois rareiam os peixes. A corrente parece a mesma. A vida já mudou faz tempo. Não será na foz que decidirão teu destino. Será na nascente. Rio nunca corre sozinho. Corre com a mata, com os peixes e com o barro. Quando um adoece, o outro sente. Houve um tempo em que bastava nascer perto deste rio para acreditar que água e vida jamais faltariam. O homem foi bebendo do rio até esquecer que o rio também tem sede. O rio foi ficando magro. As margens perderam o verde. A canoa continuava amarrada no barro. O velho, à espera dos peixes. Água ainda tinha. Vida, cada vez menos. Não é preciso odiar o rio para represá-lo. Às vezes basta ter medo de perder o controle da água. Represas armazenam poder. Rios distribuem vida. Com o tempo, ninguém mais estranha a represa. Algumas margens recebem água suficiente para continuar dependendo, sem precisarem aprender a cavar. Outras recebem tanto que esquecem a existência da seca. E chamam isso de equilíbrio. Dirão que certas curvas não podem ser desfeitas. Que determinadas pedras não podem ser removidas do leito porque fazem parte da paisagem. Que sempre foi assim. Convém lembrar que toda pedra no meio do rio já foi apenas pedra. Foi a imobilidade que lhe deu prestígio. Não a utilidade. Rio nenhum bebe da própria água. Tudo o que carregam pertence aos outros. Talvez essa seja tua maior responsabilidade. Não porque tenhas criado este rio, mas porque recebeste, por algum tempo, a tarefa de conduzi-lo. E rio não existe para si. Existe para tudo aquilo que toca. Para aquela canoa esquecida na margem, para a lavoura distante, para o menino que aprende a nadar. Para que ele não precise conhecer a grandeza deste rio apenas pelas histórias dos mais velhos. Que possa voltar a reconhecer nele um pedaço de si. Não te peço enchentes, Chico. Elas impressionam durante uma estação. Peço correnteza. Porque só a correnteza muda a geografia sem precisar fazer barulho. Um dia dirão que este rio esteve em tuas mãos. Nem por isso era teu. Tu nunca foste dono da água. Ninguém é. Foste apenas o próximo homem encarregado de fazê-la correr. O sertão continuará aqui quando este tempo passar. Tu também continuarás, de um jeito ou de outro. Resta saber se serás lembrado pela água que acumulaste… …ou pelas margens que voltaram a florescer. P.S. Talvez essa carta mereça uma explicação. O rio desta carta é o sistema que sustenta o futebol brasileiro. As nascentes e os afluentes são a rua, a várzea, o futsal, as famílias, o futebol feminino, os clubes formadores e os ecossistemas regionais. Hoje, esses caminhos seguem fragmentados, cada qual correndo por seu próprio leito. As represas e as pedras representam estruturas e práticas que, durante décadas, concentraram poder e naturalizaram a imobilidade. O desafio de quem conduz a CBF é construir um sistema capaz de ligar essas “águas”, para que elas possam correr por todo o país. Nenhum rio recupera suas margens começando pela foz. A força da seleção será consequência. A confiança do povo também.