Com missas em latim, padre de costas para os fiéis e adoção pelos adeptos de vestuário sóbrio, com véu e saia abaixo do joelho para mulheres e terno para homens, fraternidade superconservadora teve cinco sacertodes excomungados este mês pelo Papa; um dos padres excluídos de Roma é brasileiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Igreja de Pendotiba, em Niterói, segue liturgia tridentina da missa, com o padre de costas para os fiéis e celebrando em latim — Foto: Marina Calderon RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/07/2026 - 22:16 FSSPX: Cisma com Vaticano Aprofunda-se Após Excomunhões no Brasil A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo ultratradicionalista católico presente em 11 estados do Brasil, está em cisma com o Vaticano após a excomunhão de cinco sacerdotes, incluindo o brasileiro Françoá Costa. Conhecida por suas missas em latim e ritos pré-Concílio Vaticano II, a FSSPX contesta as reformas conciliares, mantendo práticas tradicionais como a Missa Tridentina e uma visão crítica ao ecumenismo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O sino toca 15 minutos antes da missa. Enquanto crianças brincam no pátio da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, Niterói (RJ), homens de camisa social e mulheres com véus sobre os cabelos ocupam os bancos de madeira. Quando o padre entra, todos se levantam. Voltado para o altar — e de costas para os fiéis — ele inicia a celebração em latim. O rito, abandonado pela Igreja Católica após o Concílio Vaticano II (reforma realizada de 1962 a 1965) segue vivo nas comunidades da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo tradicionalista que voltou ao centro do debate após o Vaticano excomungar cinco sacerdotes e reconhecer como cismática (rompida com Roma) uma de suas comunidades no Brasil na sexta-feira. Roma endureceu o discurso de cisma após a Fraternidade ter consagrado bispos sem autorização papal; ainda assim, o movimento diz permanecer fiel à Igreja Católica. Presente em 37 países, com 637 sacerdotes e cerca de 600 mil fiéis, mantém capelas e missões em 11 estados brasileiros e no Distrito Federal. Embora minoritário, o movimento ganhou visibilidade nos últimos anos, impulsionado pelas redes e por influenciadores ligados ao tradicionalismo católico. Em Pendotiba, a missa acompanhada pelo GLOBO, voltada ao sacerdócio, reuniu 16 pessoas. Mas aos domingos, o cenário muda. Segundo a comunidade, a capela reúne cerca de 800 fiéis, muitos chegando mais de uma hora antes da celebração para conseguir lugar. Situação semelhante é relatada em outras unidades, como no Ceará e em Santa Maria (RS), onde parte do público acompanha a missa do lado de fora quando a igreja lota. — As redes sociais facilitaram o acesso a conteúdos de influenciadores e comunidades tradicionalistas, aproximando jovens e famílias dessas propostas. Esses grupos ganharam visibilidade pela busca de maior segurança doutrinária e valorização da identidade católica — diz o doutor em Teologia Luciano Santos. Quem vai à missa da FSSPX encontra uma liturgia diferente da celebrada na maior parte das igrejas católicas. O padre permanece voltado para o altar durante quase toda a celebração, enquanto os fiéis acompanham o rito por um missal em latim e português. Homens usam roupas sociais; mulheres vestem saias ou vestidos abaixo dos joelhos. Segundo o padre Dom Lourenço Fleichman, de Niterói, a posição do sacerdote diante do altar expressa a compreensão de que a missa renova sacramentalmente o sacrifício de Cristo: FSSPX: Missal para acompanhar a Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, Niterói (RJ) — Foto: Esther Gama | Marina Calderon/Agência O Globo FSSPX: Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, Niterói (RJ) — Foto: Marina Calderon/Agência O Globo — Celebramos voltados para o Oriente, como sempre foi feito. O sacerdote conduz esse sacrifício em nome de Cristo. A Fraternidade preserva o chamado rito tridentino, substituído como forma ordinária de celebração após o Concílio Vaticano II. Além da liturgia, mantém escola própria em Pendotiba, onde 150 alunos aprendem latim desde cedo. A valorização da tradição também está no perfil dos frequentadores. Alberto Fernandes, de 47 anos, conheceu a Fraternidade após assistir a um documentário sobre Dom Marcel Lefebvre, fundador do movimento. Convertido ao catolicismo após ter sido criado em família protestante, Fernandes deixou o emprego para trabalhar na capela. FSSPX: Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, Niterói (RJ) — Foto: Marina Calderon/Agência O Globo — Depois que me compreendi aqui, minha vida mudou. Deixei a empresa onde trabalhava para servir à comunidade. Acreditamos que esta é a verdadeira Igreja. Segundo ele, muitas famílias se mudaram para viver perto da capela. — Aos domingos fica lotado. Tem gente de São Paulo, Goiás, Pernambuco, Ceará e outras partes do Rio. Muitos assistem à missa do lado de fora. A Arquidiocese de Brasília não tem levantamento sobre o número de fiéis no país e diz não ser possível confirmar crescimento, embora comunidades consultadas pelo GLOBO relatem aumento da procura pelas celebrações. FSSPX: Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, Niterói (RJ) — Foto: Marina Calderon/Agência O Globo Celebração do VII domingo depois de Pentecostes, na Capela São Pio X do Priorado Padre Anchieta (SP) — Foto: Reprodução Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) Confronto com Vaticano A defesa da tradição levou a Fraternidade ao mais recente confronto com o Vaticano. Em 2 de julho, a Santa Sé confirmou a excomunhão de quatro bispos ligados à FSSPX, um dia após terem sido consagrados na Suíça sem autorização do Papa Leão XIV. Para Roma, a decisão configura ato de desobediência. No Brasil, a medida teve reflexo direto na Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF). Em carta pastoral, a Arquidiocese de Brasília informou que o padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa está fora da comunhão da Igreja e orientou os fiéis a não participarem das celebrações do local, pois seus atos ministeriais, como matrimônios, são considerados ilícitos e inválidos. Após a divulgação da decisão, Françoá Costa publicou nas redes um vídeo intitulado “Resposta aos inimigos”, no qual afirma que continuará celebrando missas e classifica a punição como “inválida”. A posição acompanha a da própria Fraternidade, que apresentou recurso ao Vaticano pedindo a revisão da excomunhão e sustenta que a consagração dos bispos foi necessária para garantir a continuidade de suas atividades. Dom Lourenço Fleichman rejeita a classificação de cisma e afirma que a Fraternidade continua reconhecendo a autoridade do Papa. Segundo ele, o grupo enviou dois pedidos ao Vaticano solicitando autorização para as nomeações, mas, sem resposta, decidiu realizar as consagrações. Para o doutor em Teologia Luciano Santos, porém, a decisão reforça a distinção entre comunidades tradicionalistas que permanecem em comunhão com Roma e aquelas que desafiam a autoridade papal. A origem A origem desse conflito remonta a 1970, quando a Fraternidade foi fundada pelo arcebispo francês Dom Marcel Lefebvre em reação às mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II. Entre as principais reformas estavam a celebração das missas nos idiomas locais, maior participação dos fiéis e uma aproximação da sociedade contemporânea. — O Concílio não criou novos dogmas, mas promoveu mudanças profundas na liturgia, fortaleceu a participação dos leigos e incentivou o diálogo ecumênico. Suas decisões marcaram a vida da Igreja nas décadas seguintes — explica o historiador Lucca Hipólito. Para o mestre em História Sérgio Roberto Scheffer, a ruptura está na relação com a autoridade papal. — Um grupo tradicionalista em comunhão com Roma reconhece plenamente a autoridade do Papa e atua com autorização da Igreja. Já um grupo cismático rompe essa comunhão ou atua sem o reconhecimento oficial da Santa Sé. A Fraternidade contesta essa interpretação. Em seu site, afirma manter fidelidade à autoridade do Papa, mas rejeita as reformas da Igreja por considerá-las um afastamento da tradição. Principais divergências O principal desentendimento da FSSPX com o Vaticano diz respeito ao Concílio Vaticano II, que promoveu uma reforma da Igreja Católica entre 1962 e 1965. A Fraternidade argumenta que isso enfraqueceu a tradição católica, enquanto o Vaticano sustenta que as reformas são legítimas e um marco importante de renovação da Igreja. Confira as mudanças às quais a Fraternidade se opõe e outras divergências entre Roma e o movimento: Liturgia e missa: A FSSPX defende a Missa Tridentina (rito anterior ao Concílio), celebrada em latim. O Vaticano permite a missa tradicional em algumas circunstâncias, mas a forma ordinária é a missa reformada, normalmente celebrada na língua local. Celebração voltada para o altar: Nas missas da FSSPX, o sacerdote celebra voltado para o altar ("ad orientem"), e não de frente para os fiéis. A Fraternidade enfatiza a missa como renovação do sacrifício de Cristo. Após o Concílio, tornou-se comum a celebração voltada para a assembleia, simbolizando a comunhão com os fiéis.Ecumenismo e diálogo inter-religioso: A FSSPX vê com reservas o diálogo com outras religiões e denominações cristãs. O Vaticano considera o ecumenismo e o diálogo inter-religioso elementos importantes da missão da Igreja.Relação com o mundo moderno: A Fraternidade critica a abertura da Igreja a aspectos da modernidade promovida após o Concílio, como a aceitação de roupas???. O Vaticano defende o diálogo com a sociedade contemporânea sem abandonar a doutrina católica.Autoridade do Papa: A FSSPX afirma reconhecer o Papa como legítima autoridade da Igreja. Entretanto, entrou em conflito com Roma ao realizar ordenações e consagrações episcopais sem autorização papal. O Vaticano considera que essas ações ferem a unidade da Igreja.Consagração de bispos sem autorização: Este é o principal motivo do conflito atual. A Fraternidade ordenou novos bispos sem o consentimento do Papa Leão XIV. O Vaticano declarou que o ato configura ruptura da comunhão e aplicou excomunhões. Igrejas ultraconservadoras: veja templos espalhados pelo Brasil 1 de 4 FSSPX: Priorado do Imaculado Coração de Maria (RS) — Foto: Reprodução FSSPX 2 de 4 FSSPX: Priorado Padre Anchieta – Capela São Pio X (SP) — Foto: Reprodução FSSPX X de 4 Publicidade 4 fotos 3 de 4 FSSPX: Capela Imaculada Conceição (SP) — Foto: Reprodução FSSPX 4 de 4 FSSPX: Priorado São Sebastião — Foto: Reprodução FSSPX X de 4 Publicidade A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) mantém sedes regionais, capelas, missões e centros de missas em 11 estados (*Estagiária sob supervisão de Daniela Dariano)