Segundo a petição, a situação seria semelhante à do ex-juiz e senador Sérgio Moro (PL), cuja transferência de domicílio eleitoral do Paraná para São Paulo foi anulada pelo TRE-SP em 2022 Deputado Ricardo Salles (Novo-SP) — Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados O deputado federal e pré-candidato ao Senado por São Paulo Ricardo Salles (Novo) ingressou com uma notícia de fato no Ministério Público Eleitoral (MPE) questionando a regularidade da transferência do domicílio eleitoral da também pré-candidata ao Senado Simone Tebet (PSB), de Mato Grosso do Sul para São Paulo. O documento, protocolado na segunda-feira (13), pede a apuração dos vínculos de Tebet com o Estado e sustenta que há indícios de irregularidade no procedimento. Leia mais Na petição, Salles afirma que há "sérios indícios de possível irregularidade" na transferência do domicílio eleitoral da ex-ministra do Planejamento e Orçamento do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sustenta que o procedimento pode não ter observado os requisitos previstos na legislação eleitoral para a comprovação de vínculo com a região. Como fundamento do pedido, Salles se baseia na trajetória política de Tebet, que foi construída no Mato Grosso do Sul. Natural de Três Lagoas (MS), ela foi prefeita na cidade, e também deputada estadual, vice-governadora e senadora pelo Estado. O deputado também colocou na representação uma entrevista concedida por Tebet em agosto de 2025. Na ocasião, ao ser questionada sobre uma possível candidatura ao Senado por São Paulo, a ex-ministra descartou a hipótese. "Temos temas mais importantes para conversar neste momento, pautas de interesse do Congresso, cuidado com o orçamento. Só pretendo falar sobre eleição em 2026, mas faço questão de lembrar: o meu Estado chama-se Mato Grosso do Sul", afirmou na ocasião. A petição cita declarações públicas da Tebet segundo as quais ela passou a ser incentivada por aliados do governo a disputar uma vaga ao Senado por São Paulo. Em 12 de março, Tebet confirmou publicamente sua pré-candidatura ao Senado em São Paulo, transferindo seu domicílio eleitoral de Mato Grosso do Sul para o Estado paulista. Salles sustentou que a mudança de domicílio eleitoral decorreu de uma articulação política para viabilizar a candidatura da ex-ministra em São Paulo e afirma que as justificativas públicas apresentadas por ela seriam de natureza "exclusivamente político-eleitoral", sem demonstrar vínculo pessoal ou territorial preexistente com o Estado. O ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro também faz um paralelo com o caso do senador Sergio Moro (União Brasil). Segundo a petição, a situação seria semelhante à enfrentada pelo ex-juiz, cuja transferência de domicílio eleitoral do Paraná para São Paulo foi anulada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) em 2022 por insuficiência de provas do vínculo exigido pela legislação eleitoral. Na ocasião, o diretório municipal do PT questionou a mudança de domicílio do então pré-candidato, alegando ausência de vínculo efetivo com a capital paulista. Moro sustentou que São Paulo havia se tornado seu principal centro de deslocamentos pelo país e informou que utilizava um hotel na região da Avenida Paulista como residência e base política. Ao analisar o caso, porém, o TRE-SP entendeu que as provas apresentadas não eram suficientes para demonstrar o vínculo mínimo exigido pela Resolução nº 23.659/2021 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e cancelou a transferência. Após a decisão, Moro optou por não recorrer ao TSE. Posteriormente, transferiu sua candidatura para o Paraná, onde disputou uma vaga ao Senado e foi eleito. Pedidos ao Ministério Público Eleitoral Na notícia de fato, Salles pede que o Ministério Público Eleitoral instaure procedimento para apurar a regularidade da transferência do domicílio eleitoral de Tebet. Entre as providências solicitadas estão o envio, pelo cartório eleitoral responsável, da íntegra do processo administrativo de transferência do título eleitoral da ministra, incluindo os documentos apresentados para comprovar o vínculo com São Paulo e a decisão que deferiu o pedido. A representação também requer que o Ministério Público obtenha documentos que possam comprovar eventual vínculo da ministra com o Estado antes da transferência do título, como matrícula de imóvel, declarações de imposto de renda, comprovantes de IPTU e outros registros patrimoniais, fiscais ou contratuais. O deputado ainda solicita a realização de oitivas, caso consideradas necessárias, para apurar a efetiva residência, atividade profissional, vínculos familiares e participação comunitária de Tebet em São Paulo antes da transferência do domicílio eleitoral, além da tramitação prioritária da investigação em razão da proximidade do calendário eleitoral. Procurada pelo Valor, Tebet não se manifestou até a publicação desta reportagem. Interlocutores da pré-campanha, entretanto, afirmam que estão "juridicamente tranquilos", pois Tebet cumpriu todos os requisitos para a transferência do domicílio eleitoral. Em entrevista concedida à BBC News Brasil no início de junho, ao ser questionada sobre as diferenças entre seu caso e o de Moro, a ministra afirmou ter vínculos antigos com São Paulo. "Minha história com São Paulo não começou ontem. (...) Meu marido é de Birigui, minhas filhas estão há dez anos em São Paulo, eu fiz mestrado em São Paulo. Tenho residência há mais de dez anos em São Paulo, no Guarujá", afirmou. Na ocasião, ela disse que, esses vínculos lhe dão "legitimidade" para disputar uma vaga ao Senado pelo Estado. Tarcísio Na semana passada, Tebet foi alvo de críticas do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) pelo mesmo motivo. Ao comentar a disputa pelo Senado em evento, Tarcísio afirmou que Tebet e a também pré-candidata ao Senado Marina Silva (Rede) "não começaram a fazer política em São Paulo, não elegeram esse Estado para servir" e que ambas "levaram cartão vermelho" em seus Estados de origem. "Sou corintiana, não flamenguista, e pago imposto em São Paulo há 10 anos. Não precisei dar endereço alheio para me candidatar", afirmou Tebet à CNN Brasil. Ao responder às críticas, a ex-ministra também fez referência à própria eleição de Tarcísio em 2022. Naquele ano, o então candidato ao governo paulista — natural do Rio de Janeiro e que, mudou o domicílio eleitoral de Brasília para o Estado de São Paulo no ano da eleição— teve o registro de candidatura questionado pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB), em que a sigla alegava que o governador não tinha comprovação de domicílio eleitoral no Estado. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), no entanto, rejeitou a impugnação por unanimidade. Na decisão, a Corte entendeu que o conceito de domicílio eleitoral é mais amplo do que o de domicílio civil e concluiu que Tarcísio havia demonstrado vínculos suficientes com o Estado para concorrer ao governo paulista.