Na provável última Copa do argentino, a camisa 10 virou relíquia, troféu e objeto de desejo em disputa que começa depois do apito final 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 De Baggio a Vozinha, quem pediu e quem ganhou as camisas que Messi usou na Copa — Foto: Editoria de Arte RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/07/2026 - 12:47 Camisas de Messi viram relíquias na sua provável última Copa Na provável última Copa de Lionel Messi, suas camisas se tornam relíquias cobiçadas por adversários. A tradição de troca de camisas, que já foi motivo de controvérsia no passado, agora simboliza respeito e admiração. Jogadores como Marcel Sabitzer e Ehsan Haddad tentaram levar uma lembrança do craque, enquanto até lendas como Roberto Baggio receberam o presente. Em meio a disputas acirradas, conseguir a camisa de Messi é uma conquista que vai além do futebol. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em 1966, depois de Inglaterra x Argentina, Alf Ramsey entrou em campo para impedir que seus jogadores trocassem camisas com os argentinos. O jogo tinha sido quente, e o técnico inglês achou melhor transformar o uniforme em fronteira. Não era dia de abraço, foto, lembrança guardada no armário. Quase 60 anos depois, Argentina e Inglaterra voltam a se encontrar numa Copa, e é difícil imaginar cena mais oposta: se Messi terminar o jogo de pé, inteiro, classificado ou não, haverá inglês criando coragem e escolhendo o melhor momento para perguntar se ainda dá tempo de levar a 10. Há um segundo jogo dentro de todo jogo da Argentina nesta Copa. Começa quando o árbitro apita o fim, quando os jogadores ainda estão suados, tristes, felizes, meio sem saber para onde correr. A bola já parou, mas Lionel Messi ainda não. Precisa cumprimentar adversários, falar com companheiros, ouvir uma pergunta, dar uma resposta curta, ser Messi por mais alguns minutos. E, no meio desse trânsito, aparece sempre alguém com um sonho emocionado, quase infantil: “Leo, me dá sua camisa?” Jogador de futebol, em geral, é um adulto treinado para esconder encantamento. Não pode parecer fã. Mas basta Messi passar por perto com a 10 da Argentina no corpo para todo o profissionalismo virar recreio. O sujeito volta a ter 12 anos. Aponta, sorri sem jeito, pede baixinho, combina para depois, faz cara de quem está negociando um imóvel. A camisa de Messi é uma escritura afetiva do Mundial. Todos querem. Poucos conquistam. Contra a Áustria, Marcel Sabitzer se aproximou de Messi depois da vitória argentina. Não se ouviu a conversa, mas a leitura da transmissão da BBC foi de que o austríaco pedia a camisa. Messi gesticulou, Sabitzer sorriu, os dois se separaram, e o argentino foi embora ainda vestido com ela. Era uma noite de recorde: Messi havia se tornado o maior artilheiro da história das Copas. Até a etiqueta da gola parecia ter virado peça de colecionador. Sabitzer, que já enfrentou estádio grande e Champions League, saiu com a expressão universal de quem ouviu: “Hoje não, amigo.” Contra a Jordânia, houve final feliz. Ehsan Haddad, capitão, ficou com a camisa de Messi e publicou a lembrança nas redes. A imagem dele caminhando para o vestiário com a 10 argentina tem algo de fim de excursão escolar: perdeu o jogo, mas voltou para casa com a melhor recordação possível. Para um país que vive uma experiência histórica, enfrentar Messi já é suficiente; sair com a camisa dele é levar um pedaço do torneio na mala. Depois veio Cabo Verde, que talvez tenha entendido melhor do que ninguém o espírito da coisa. Não entrou em campo para pedir autógrafo. Entrou para bater de frente, assustar, levar a Argentina ao limite. Vozinha, aos 40 anos, virou personagem mundial. No fim, aproximou-se de Messi e nem teve tempo de falar muito. Messi o abraçou, elogiou sua atuação e disse que seu povo devia estar orgulhoso dele. Vozinha agradeceu e pediu a camisa. A resposta teria sido: “Claro. Te dou no túnel.” A cena já era bonita antes mesmo da posse definitiva da relíquia. Que nunca veio. O goleiro levou só as palavras para casa. Há um detalhe maravilhoso no caso de Cabo Verde: durante 120 minutos, eles tentaram eliminar Messi; depois do jogo, queriam uma foto com ele. Messi percebeu a contradição e brincou, na zona mista, que os adversários pediam camiseta, short, tudo, embora dentro de campo não parassem de lhe dar pancada. Primeiro você tenta arrancar o sujeito da Copa. Se não consegue, pede uma lembrança. Poucas relações humanas me parecem mais honestas em tempos de Copa. Contra o Egito, a camisa mudou de função. Não apareceu, até aqui, um egípcio confirmado como destinatário ou pretendente da 10 de Messi. A eliminação dramática produziu vídeos de torcedores queimando camisas da Argentina e de Messi, ou usando-as como pano e tapete. Quando você perde, às vezes não quer guardar nada do algoz. Quer se livrar do símbolo. A camisa de Messi parece importar tanto que até destruí-la vira mensagem. Aí veio a Suíça, e a pauta ganhou dois capítulos de luxo. Johan Manzambi, lesionado, fora do jogo por um problema no joelho, não conseguiu enfrentar Messi em campo, mas saiu com uma das camisas do argentino. Uma pequena vitória paralela. O outro é Roberto Baggio. Aí a brincadeira muda de patamar. Messi deu outra camisa usada contra a Suíça ao italiano, Bola de Ouro de 1993, gênio trágico, rabo de cavalo mais famoso do futebol, homem que carrega até hoje um pênalti perdido como se fosse personagem de literatura russa. Baggio publicou a foto, agradeceu o presente e chamou Messi de amigo. Tem quem peça a camisa porque quer falar com Messi. Baggio recebe porque pertence ao mesmo idioma. A camisa de Messi virou, nesta Copa, uma coleção de pequenas cenas humanas. Não é só o tecido que ele usa para jogar futebol. É o recibo de que alguém esteve perto dele no fim. Perto o bastante para pedir. Perto o bastante para sair do estádio com uma história melhor do que a de muitos gols. Malvinas, gol de mão, semifinal de Copa. Argentina x Inglaterra tem um jogo antes, e terá outro depois da partida. Em 1966, a camisa separou. Agora, aproxima. Bellingham, Kane, Rice, qualquer um deles pode passar 90 ou 120 minutos tentando acabar com a última Copa de Messi. Mas, quando o árbitro apitar, será difícil resistir. Cada camisa trocada em uma Copa parece dizer: este jogo aconteceu, eu estava nele, ele passou por mim, sobrevivi a isso. A diferença é que, com Messi, até a lembrança tem concorrência. Em campo, é difícil tomar a bola do 10. Depois do apito final, também não é simples levar um pedaço dele pra casa.