Países ampliam hostilidades após Trump anunciar retomada de bloqueio naval aos portos iranianos e pedágio sobre embarcações que cruzarem a hidrovia Imagem mostra ataque de drone americano contra uma instalação de manutenção de submarinos e navios em Bandar Abbas, no Irã — Foto: Comando Central dos EUA via Reuters Os Estados Unidos e o Irã trocaram novos ataques nesta terça-feira, dando sequência a uma nova batalha pelo controle do Estreito de Ormuz após o presidente americano, Donald Trump, ter afirmado que retomaria hoje um bloqueio naval aos portos iranianos e estabeleceria um pedágio sobre os navios que transitarem pela hidrovia. A nova rodada de ataques, que começou no fim de semana, aumenta os riscos de uma guerra aberta entre os dois países, piorando as perspectivas para a economia global. Os preços do petróleo Brent, referência mundial, avançavam mais de 4% na manhã desta terça-feira, com o barril sendo negociado a US$ 87,18, após uma alta de 10% ontem. Nos mais recentes ataques do conflito ampliado, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou que uma base aérea americana na Jordânia foi alvo de mísseis balísticos e pediu ao país para fechar a instalação dos EUA. As Forças Armadas jordanianas disseram ter interceptado e derrubado quatro mísseis que entraram no espaço aéreo do país vindos do território iraniano, segundo a agência estatal de notícias. Já os EUA atacaram alvos iranianos durante cinco horas ao longo da noite - o terceiro dia consecutivo de intensos ataques ao país. A mídia iraniana informou que os bombardeios americanos atingiram diversas cidades e que quatro pessoas ficaram feridas, enquanto operações de resgate ainda estavam em andamento. As hostilidades aumentam as dúvidas de que o acordo provisório firmado no mês passado, decretado como "acabado" por Trump, levará a uma interrupção permanente da guerra, que já dura mais de quatro meses. A retomada dos ataques - a consequente alta no petróleo - também eleva os temores de uma aceleração da inflação em todo o mundo. Trump reinstala bloqueio ao Irã e diz que cobrará taxas em Ormuz — Foto: Imagem Valor Econômico Analistas regionais afirmam que, por enquanto, os ataques ainda não configuram uma guerra de larga escala, com os dois lados buscando ganhar poder de barganha para uma eventual retomada das negociações. No entanto, há o risco de o conflito sair do controle. "Duvido que os dois lados retomem uma guerra em larga escala, sobretudo porque Trump pagará um preço por isso — embora também exista uma possibilidade concreta de que os iranianos exagerem na reação. O mesmo vale para Trump, é claro", disse Yezid Sayigh, pesquisador do Carnegie Middle East Center. A guerra tem se mostrado impopular nos Estados Unidos, onde os preços da gasolina subiram desde o início do conflito, enquanto as eleições para o Congresso se aproximam, em novembro. A intensidade dos ataques vem crescendo desde sábado, quando o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, após disparar um tiro de advertência que atingiu uma embarcação que, segundo Teerã, navegava por uma rota não autorizada. Trump afirmou na segunda-feira, na Truth Social, que o estreito estava aberto e permaneceria aberto, com ou sem o Irã. "Estamos restabelecendo o bloqueio ao Irã", escreveu ele, anunciando que os EUA cobrariam uma taxa de 20% sobre toda carga transportada pela hidrovia. Mais tarde, Trump enviou ao Congresso uma notificação formal informando que as hostilidades contra o Irã foram retomadas em 7 de junho - uma carta que seu governo considera como o início de um novo prazo de 60 dias para o uso de forças militares na região sem a necessidade de aprovação do Congresso. As declarações do presidente americano, porém, levantaram duas grandes questões. A primeira é como os EUA conseguirão conter ataques do Irã a embarcações que tentem passar por uma via de tráfego ao alcance de qualquer míssil ou drone disparado de seu território. A outra é como os EUA poderiam viabilizar a cobrança de uma taxa de escolta - apesar da posição de seu próprio governo de que tal pedágio violaria o direito internacional. O Irã também busca estabelecer o controle sobre o estreito e criar um sistema de cobrança de taxas, advertindo as embarcações a não navegarem sem autorização iraniana. Em uma postagem no X, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, ironizou Trump, dizendo que Teerã é a "guardiã do estreito" - termo usado pelo presidente americano ao anunciar o pedágio. "[Uma taxa de] 20%, naturalmente, é um valor alto demais. Seremos justos", disse ele. A agência de navegação das Nações Unidas afirmou que se opõe à cobrança de taxas em estreitos utilizados para navegação internacional e que não existe base legal para a introdução de pedágios obrigatórios para a travessia desses estreitos. Antes do início do conflito, em fevereiro, cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás passava diariamente por Ormuz, transportando mais de 15 milhões de barris de combustíveis para os mercados globais, com valor superior a US$ 1,2 bilhão por dia. Caso os Estados Unidos imponham uma taxa de 20%, a arrecadação poderia chegar a cerca de US$ 240 milhões por dia.