Trabalho com 4,5 mil pessoas foi conduzido por mais de 100 cientistas internacionais e liderado por um pesquisador brasileiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 TOC: estudo inédito, com 4,5 mil pessoas, aponta mecanismos do cérebro envolvidos na origem da doença. — Foto: Magnific RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/07/2026 - 20:25 Descobertas Cerebrais no TOC Podem Revolucionar Tratamentos Futuro Um estudo inédito liderado por cientistas internacionais, incluindo brasileiros, revelou alterações cerebrais associadas ao TOC. Publicado na Nature Communications, a pesquisa analisou neuroimagens de 4.519 pessoas, destacando mudanças no córtex cerebral e genes relacionados. O estudo pode abrir caminho para novos tratamentos, já que o TOC atualmente é tratado por tentativa e erro, sem medicamentos específicos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um estudo conduzido por mais de cem cientistas internacionais e liderado por um pesquisador brasileiro identificou diversas alterações cerebrais associadas ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). O trabalho, o mais amplo já feito sobre o tema, foi publicado na revista científica Nature Communications e aponta um caminho para a identificação das bases biológicas do transtorno. — Os transtornos mentais têm uma base neurobiológica ainda a ser descoberta. Fazemos o diagnóstico hoje basicamente pelo conjunto de sintomas. Diferentemente de outras áreas da medicina, não temos exames para validá-los. Então existe um esforço muito grande para entender quais características biológicas podem ser relacionadas com a clínica, não só para melhores diagnósticos, como para sugerir caminhos terapêuticos — diz Euripedes Constantino Miguel, coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), que participou do estudo. O autor principal da pesquisa, Leonardo Saraiva, doutor em Psiquiatria pela USP, onde é pesquisador do grupo Gen_TOC, e pós-doutorando em Psiquiatria na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, explica por que essa descoberta é relevante: os tratamentos psiquiátricos atuais ainda enfrentam muitas limitações. — Se entendermos melhor a biologia subjacente, poderemos desenvolver medicações com alvos cada vez melhores. Isso é extremamente importante porque a maioria dos tratamentos psiquiátricos hoje são tentativa e erro, vemos se o paciente responde, trocamos, e isso pode demorar muito para a pessoa apresentar uma melhora, quando apresenta. Com o TOC, não existe nenhum medicamento desenvolvido especificamente para o transtorno, todos foram feitos para outras condições que acabaram se mostrando úteis para o TOC. O novo estudo analisou exames de neuroimagem de 4.519 participantes: 2.255 pacientes com TOC e 2.264 sem o transtorno, acompanhados para comparação. De forma inédita, os pesquisadores observaram 13 parâmetros: nove características do córtex, a camada mais externa do cérebro, como espessura, volume e curvatura, e quatro subcorticais. Além disso, avaliaram similaridades estruturais em diferentes regiões do órgão. Entre os pacientes com TOC, os cientistas descobriram que havia principalmente alterações na curvatura do córtex em duas regiões específicas: a rede do modo padrão, que é ativada quando a mente está "descansando", funcionando como um piloto automático do cérebro, e na rede frontoparietal, que é ligada à atenção e à tomada de decisões. Os pesquisadores também encontraram uma maior similaridade nas áreas sensoriomotoras, que integram informações dos sentidos e controlam os movimentos, nos cérebros dos pacientes com TOC quando comparados aos de pessoas sem o transtorno. Além disso, descobriram que alguns genes com atividade reduzida nos pacientes estavam relacionados às alterações observadas, e que isso levou também a uma desregulação de neurônios excitatórios, células cerebrais que estimulam as outras. Outro ponto encontrado na pesquisa foram alterações cerebrais mais significativas nas medidas analisadas entre pacientes que faziam uso de medicação para o TOC, explica Saraiva: — Mas isso não quer dizer que a medicação esteja causando essas modificações. O que acreditamos é que o uso dos remédios delineia um perfil de pacientes mais graves, que possivelmente já têm alterações cerebrais mais severas. O pesquisador conta ainda que, com técnicas de machine learning, foi possível constatar que diferentes medidas estruturais conseguem prever características clínicas dos pacientes com TOC. Constantino Miguel acrescenta que algumas alterações em certas dobras corticais foram observadas muito precocemente no cérebro, o que sugere um forte componente de neurodesenvolvimento no transtorno. Embora acreditem que algumas dessas alterações possam refletir processos fisiopatológicos fundamentais no TOC, os cientistas destacam que ainda são necessários mais estudos para confirmar esses achados e identificar o que, de fato, pode ser usado como biomarcador do transtorno. As diferenças observadas em regiões distintas do cérebro reforçam a ideia de que o transtorno não está ligado a uma única área específica. — As alterações e predições que encontramos ainda não têm um tamanho de efeito suficiente para isso. Os resultados mostram que, em média, os pacientes com TOC apresentam essas alterações como grupo, mas para extrapolá-las ao nível individual ainda precisamos de mais pesquisa. O campo da psiquiatria tem se esforçado muito para chegar lá, mas até agora os resultados individuais têm sido bastante heterogêneos. Isso é desafiador, mas de certa forma esperado, porque as manifestações clínicas dos pacientes psiquiátricos variam muito entre si — diz Saraiva. No estudo, os cientistas analisaram exames de neuroimagem e a atividade de genes em tecidos cerebrais coletados dos participantes durante neurocirurgias. Foram incluídos 47 conjuntos de dados demográficos, clínicos e de neuroimagem estrutural, provenientes de 26 centros de pesquisa internacionais diferentes. Um trabalho dessa magnitude só foi possível graças a uma colaboração internacional articulada pelo consórcio científico ENIGMA-OCD (Enhancing NeuroImaging Genetics through Meta-Analysis – Obsessive-Compulsive Disorder), o maior consórcio de pesquisa em neuroimagem sobre TOC no mundo. No Brasil, os pacientes integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC, na sigla em inglês), um dos maiores estudos do mundo sobre o desenvolvimento do cérebro, vinculado ao Cism, centro de pesquisa ligado ao Departamento e ao Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da USP. Esses esforços têm gerado reconhecimento para a ciência brasileira. Em 2025, Saraiva recebeu um dos prêmios mais prestigiados da área de saúde mental, o "Michael A. Jenike Young Investigator Award", concedido pela Fundação Internacional para o TOC (IOCDF, na sigla em inglês), a maior organização do mundo dedicada ao transtorno. O que é o TOC e como ele é tratado hoje De acordo com a IOCDF, estima-se que 1 a cada 40 adultos tenha ou desenvolva o transtorno em algum momento da vida. Geralmente, o TOC surge entre os 7 e 12 anos ou no final da adolescência e início da fase adulta, por volta dos 20 anos. No Brasil, a prevalência estimada é de 2% a 3% da população geral. — O TOC é caracterizado por pensamentos de obsessão e compulsão. Ao experimentar essas sensações, o indivíduo sente uma necessidade imediata de buscar alívio — é um desconforto enorme ou o medo de que algo vá acontecer. Diante disso, ele se engaja em comportamentos repetitivos, as compulsões, como lavar as mãos diversas vezes — explica Constantino Miguel. Hoje, o tratamento de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que ajuda o indivíduo a lidar com esses pensamentos sem reproduzir os padrões compulsivos. Quando medicamentos são indicados, os mais utilizados são os inibidores seletivos da recaptura de serotonina, que ajudam a reduzir o desconforto e os comportamentos repetitivos. Segundo o professor da USP, as terapias ajudam mais de 60% dos pacientes, mas ainda há um grande grupo que não apresenta melhora. Nesses casos, combina-se a TCC com medicações, buscam-se outras drogas ou, mais recentemente, recorre-se a técnicas de neuromodulação, como a estimulação magnética transcraniana. Em última instância, existe também uma alternativa cirúrgica, que beneficia menos de 1% dos pacientes. São usadas técnicas de ablação, que lesam partes do cérebro ligadas ao TOC, ou estratégias que instalam eletrodos para estimular o órgão e ativar ou inibir determinadas redes cerebrais.
TOC: estudo inédito revela mecanismos do cérebro envolvidos na origem da doença, abrindo caminho para novos tratamentos
Trabalho com 4,5 mil pessoas foi conduzido por mais de 100 cientistas internacionais e liderado por um pesquisador brasileiro







