Na vitória do Brasil sobre o Japão, nesta Copa do Mundo, 21 milhões de aparelhos exibiam a mesma transmissão no YouTube ao mesmo tempo — a maior audiência simultânea da história da plataforma e o quarto recorde consecutivo quebrado pelo canal no torneio, numa escalada que começou com 12,7 milhões na estreia da Seleção. A cada marca batida, a explicação circulava pronta: a CazéTV tinha batido a Globo. O streamer com seu jeito espontâneo de narrar derrubava a emissora que transmitia a Copa no Brasil desde 1970. É uma boa história, mas ela aponta para o lado errado.

A CazéTV é a soma de três partes. Casimiro entrega o rosto, a voz e o público. A LiveMode compra e administra os direitos de transmissão. E o YouTube entrega o que faz tudo funcionar: os servidores, o sistema de recomendação, a venda de anúncios e a presença nas TVs, nos celulares e nos computadores. Sem o YouTube, não existe transmissão para 21 milhões de aparelhos ao mesmo tempo, não existe recorde e não existe negócio. A peça mais importante dessa engrenagem é a estrutura que distribui o vídeo, e ela pertence ao Google.

Vale olhar para a parte que parece o lado nacional da história. Desde novembro de 2025, a LiveMode é dona de 100% da CazéTV, depois de comprar os 49% que eram de Casimiro — operação que ainda depende de aprovação do Cade. A holding que controla o grupo fica sediada nas Ilhas Cayman e tem como sócia a americana General Atlantic, que, junto com o braço de private equity da XP, colocou cerca de 440 milhões de reais na empresa por mais de 20% dela. Por trás da imagem do garoto que venceu o gigante existem fundos de investimento, executivos do mercado financeiro e uma estrutura de direitos bem montada: a mesma LiveMode que negocia os direitos como representante da FIFA também os compra como dona do canal que vai exibi-los.