"Minha biblioteca é meu manual de vida", diz Mendel Uminer 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mendel Uminer, cercado por livros, no estúdio que está deixando no Upper East Side, em Manhattan — Foto: James Estrin/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Mendel Uminer, de 31 anos, foi despejado de seu apartamento de 55 metros quadrados em Nova York após a administração do edifício alegar que seu acervo de dez mil livros representava risco de incêndio. Uminer, que usava o espaço como sede de sua revista literária, defendeu-se das acusações afirmando: "Não me considero um acumulador compulsivo, mas acho que o pessoal do meu prédio pensava diferente". CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Para um jovem estudioso e escritor judeu chamado Mendel Uminer, os livros são a fonte do esclarecimento. Por isso, quando conseguiu um apartamento tipo estúdio a apenas um quarteirão do Central Park, no Upper East Side de Manhattan, há um ano, ele levou seus livros consigo — todos os dez mil exemplares. O que se seguiu, pelo menos por um breve período, foi uma vida encantadora em seu templo do conhecimento de 55 metros quadrados. Ao seu redor, pilhas de obras sobre o judaísmo, cinema, ópera, peças de teatro e poesia — e Uminer dormia em um colchão no chão. Acordando por volta do meio-dia, passava as tardes em sua chaise longue, devorando obras e nutrindo a mente enquanto a cidade fervilhava lá fora. — Estou sempre lendo — disse Uminer, de 31 anos. — Leio para extrair conhecimento. Preciso de cada livro que possuo. Minha biblioteca é meu manual de vida. Ele trabalhava como tradutor de hebraico freelance e usava o apartamento como sede de sua recém-criada revista literária, a Notarikon Review, organizando festas que ganharam fama entre certos círculos da cena literária de Nova York. E as pilhas continuavam a crescer. — Não me considero um acumulador compulsivo, mas acho que o pessoal do meu prédio pensava diferente — disse. No início do ano, ele recebeu uma notificação da administração do edifício: “Você está violando uma obrigação fundamental do seu contrato de locação. Você está mantendo o imóvel em um estado de excessiva desordem; permitindo o acúmulo excessivo de livros no local; e criando risco de incêndio devido ao acúmulo excessivo de livros inflamáveis no imóvel”, dizia. — Eles alegavam que meus livros representavam risco de incêndio e eu teria de sair se não me livrasse deles — recordou Uminer. Como não atendeu ao aviso, o processo de despejo foi iniciado. — É, talvez eu seja um pouco diferente. E sei que minha biblioteca pode parecer exagerada para alguns. Mas não é tão exagerada quanto as pessoas imaginam. Em um lar rabínico, ninguém estranharia uma biblioteca como a minha. A leitura faz parte da minha cultura. Estudioso Precoce Criado em um enclave hassídico no Brooklyn, Uminer cresceu falando iídiche com os avós. Seu pai, Isaac, adorava estudar a Torá com ele. Mas o menino ansiava por literatura. Aos 12 anos, já lia Dostoiévski. Na adolescência, Uminer frequentou um seminário rabínico, onde se dedicou aos estudos talmúdicos. As aulas começavam às 7h e terminavam com noites de debates acalorados com os rabinos, regados a vodca. No início da casa dos 20 anos, passou a frequentar mais a livraria Strand do que os empórios de artigos judaicos do Brooklyn. Um ano antes de sua ordenação, abandonou o caminho que haviam traçado para ele. — Decidi que deveria simplesmente fazer o que queria: ingressar na sociedade cultural liberal e moderna de Nova York. Depois de guardar seu quipá, Uminer matriculou-se na Universidade de Columbia para estudar cinema e filosofia. Após se formar, aos 27 anos, conheceu uma jovem de Paris. Aventurou-se a ir para a cidade dela, onde o romance chegou ao fim. — Lá havia as melhores revistas de política e publicações literárias. Paris me transformou — disse ele, que passava horas nas bancas de livros ao longo do rio Sena. Lendo publicações como a Nouvelle Revue Française e a Connaissance des Arts, descobriu sua vocação: — A escrita deles demonstra uma familiaridade com a controvérsia, uma precisão argumentativa e um senso de consciência histórica de que precisamos mais — disse ele. De volta a Nova York, Uminer decidiu lançar sua própria publicação, a Notarikon Review, revista eclética que vai “publicar pessoas que não concordam em tudo”, como afirmou. Alguns dos escritores que ele recrutou são antigos adversários das redes sociais. A edição impressa está prevista para sair este ano. Hora de dar tchau Recentemente, Uminer esteve na livraria Mizrahi, no Brooklyn. Foi calorosamente saudado pelo proprietário, Israel Mizrahi. — Acho que os judeus têm uma relação quase mística com os livros e o conhecimento. Estamos sempre revivendo nosso passado, cultivando uma sede de conhecimento; é por isso que um lar judaico precisa de uma biblioteca. Mas a curiosidade insaciável de Mendel se destaca entre todos os meus clientes. O amigo estava a par do problema de Uminer com o apartamento: — De todos os vícios, acho que os livros são os menos perigosos — disse Mizrahi. Após meses de disputa jurídica, Uminer se resignou a deixar o imóvel: — Não quero ficar aqui se não sou bem-vindo. Amigos foram ajudar Uminer na mudança. — Existe uma Nova York atual, voltada para o profissionalismo e a uniformidade, que olha para um sujeito como ele e acha que há algo de errado. Há um aspecto na cidade de hoje que é hostil à vida intelectual e à excentricidade que pode gerá-la — disse Julian Cosma, cineasta. O apartamento pertence à Hakim Organization, empresa do magnata do setor imobiliário Kamran Hakim. A empresa e a administradora do prédio não responderam aos pedidos de entrevista.
A história do escritor despejado em Nova York por guardar dez mil livros em casa
"Minha biblioteca é meu manual de vida", diz Mendel Uminer








