O líder, que comandou um período de modernização do país, chegou ao poder em 1995 e rompeu com a tradição ao transferi-lo para o filho 18 anos depois O xeque e ex-emir (governante) do Catar Hamad bin Khalifa Al-Thani morreu hoje, aos 74 anos. O líder, que comandou um período de modernização do país, chegou ao poder em 1995 e rompeu com a tradição ao transferi-lo para o filho 18 anos depois. A causa da morte, informada na manhã deste domingo (12) não foi divulgada. O Catar herdado pelo atual emir, Tamim bin Hamad Al-Thani, já estava em pleno processo de transformação conduzido por seu pai. Hamad comandou um dos períodos mais marcantes da história do país, promovendo uma rápida mudança no pequeno Estado desértico que mudou sua economia, ampliou sua projeção internacional e elevou suas ambições políticas. Conhecido pela personalidade firme e independente, Hamad afirmou, em discurso por ocasião de sua abdicação em 2013, que desejava passar o comando para uma nova geração, “com suas ideias inovadoras e energias ativas”. O ex-emir foi o principal responsável pelo desenvolvimento da infraestrutura de gás natural liquefeito (GNL) do Catar, permitindo que as vastas reservas de gás do país chegassem aos mercados globais. A estratégia transformou o Catar em um dos maiores exportadores mundiais da commodity e lançou as bases de sua enorme riqueza. Também criou a rede de televisão Al Jazeera, que deu ao Catar uma influência desproporcional na política do mundo árabe e projetou o país muito além da região do Golfo. Hamad ainda supervisionou a candidatura bem-sucedida do Catar para sediar a Copa do Mundo de 2022, iniciativa que colocou o país definitivamente no cenário internacional e impulsionou uma década de investimentos em infraestrutura que transformou a capital, Doha. Papel do Catar como mediador A política externa conduzida pelo ex-emir consolidou o Catar como mediador em conflitos internacionais, promovendo negociações em crises no Líbano, Iêmen e Darfur, ao mesmo tempo em que manteve relações tanto com os Estados Unidos — que abrigam no país o Comando Central das Forças Armadas americanas — quanto com o Irã e grupos alinhados a Teerã. Essa estratégia de equilíbrio lançou as bases para o atual papel do Catar nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã e nos esforços para tentar encerrar a guerra na Faixa de Gaza. O Catar também desempenhou um papel de destaque, e controverso, durante as revoltas da Primavera Árabe de 2011, utilizando seus recursos e influência para apoiar movimentos revolucionários e grupos islâmicos em diferentes países da região. Enquanto Doha apresentava essa política como apoio às demandas populares por mudanças políticas, críticos acusavam o governo e o próprio Hamad de favorecer seletivamente grupos alinhados aos interesses do país, especialmente organizações ligadas à Irmandade Muçulmana. Essa postura provocou atritos com outras monarquias do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que viam muitos desses movimentos como uma ameaça à estabilidade regional e à continuidade dos regimes monárquicos. O ativismo elevou o protagonismo regional do Catar, mas também aprofundou tensões com os países vizinhos e deixou um legado que continua influenciando a política do Golfo. Golpe e sucessão A abdicação de Hamad foi planejada para assegurar uma sucessão tranquila e reduzir disputas dentro da família governante, historicamente marcada por intrigas palacianas. O próprio Hamad assumiu o poder ao depor seu pai em um golpe sem derramamento de sangue, em 1995. No ano seguinte, sobreviveu a uma tentativa de contragolpe que analistas atribuíram ao próprio pai, que também havia chegado ao poder de maneira semelhante em 1972, ao destituir um primo. Uma das principais parceiras de Hamad no processo de modernização do Catar foi uma de suas esposas, xeica Moza bint Nasser, que construiu uma projeção pública incomum para a esposa de um governante do Golfo. A influência da xeica cresceu paralelamente aos esforços do marido para reposicionar o Catar no cenário doméstico e internacional. Enquanto Hamad promovia reformas políticas e econômicas que redefiniram o rumo do país, ela liderava iniciativas nas áreas de educação, pesquisa e desenvolvimento social. Quando chegou ao poder, Hamad tinha 44 anos e era o líder mais jovem da região. Era visto como menos distante do que outros governantes árabes do Golfo e frequentemente podia ser encontrado em seu café favorito no souq (mercado tradicional árabe) de Doha, conversando com os frequentadores. O xeque e ex-emir do Catar Hamad bin Khalifa Al-Thani — Foto: B Mathur/File Photo/Reuters