Dados de operadoras estimam que cerca de 45% das residências já não tenham cobertura das principais empresas. Enquanto moradores relatam falta de opções e até mudança de endereço, polícia e prefeitura afirmam que realizam operações para combater o problema 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Levantamento de operadoras mostra áreas da cidade onde técnicos de empresas legalizadas sofrem ameaças — Foto: Editoria de Arte RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/07/2026 - 19:22 Grupos criminosos em Niterói limitam acesso à internet em 45% das casas A atuação de grupos criminosos em Niterói tem restringido a oferta de internet, afetando cerca de 45% das residências que já não contam com cobertura das principais operadoras. As organizações impedem a atuação de empresas legalizadas para favorecer provedores locais, levando moradores a mudarem de endereço. Polícia e prefeitura realizam operações para combater o problema, mas o cenário piorou nos últimos meses, expandindo-se para várias regiões da cidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O comunicado feito no início deste mês por uma operadora de internet a cerca de 600 clientes da Região Oceânica alertando para o risco de interrupção dos serviços após sucessivas ameaças a técnicos expôs um problema que, segundo representantes do setor de telecomunicações, vem crescendo silenciosamente na cidade nos últimos anos. De acordo com empresários, organizações criminosas passaram a restringir a atuação de operadoras legalizadas em diferentes bairros para favorecer provedores ligados aos grupos que controlam os territórios. Eles afirmam que o cenário piorou consideravelmente nos últimos meses. Embora os episódios mais recentes tenham ocorrido na Região Oceânica, empresários afirmam que o cenário já se estende para outras regiões da cidade. Bairros como Engenho do Mato, Maravista, Rio do Ouro, Várzea das Moças e parte de Itaipu estão entre os locais apontados pelas empresas. Na Zona Norte, o Fonseca é citado como uma das áreas mais afetadas. Segundo representantes do setor, cerca de 45% do território de Niterói não contam mais com cobertura das principais operadoras de internet fixa. A expansão ocorreu de forma gradual, como O GLOBO-Niterói já mostrou em diversas reportagens nos últimos anos. Há cerca de um ano, a instalação de redes por provedores oriundos de São Gonçalo em bairros da Região Oceânica começou a ganhar força. Desde então, relatos de ameaças a funcionários, sabotagem de cabos, furtos de equipamentos e impedimento da realização de novos atendimentos passaram a se tornar frequentes. Operadoras deixaram de expandir suas redes em áreas consideradas de risco e algumas reduziram ou encerraram as atividades em determinados bairros. Uma das empresas que atuavam no Engenho do Mato, por exemplo, deixou recentemente de prestar serviços na região, e outra está com um número de clientes bem menor no bairro. Grandes operadoras nacionais também deixaram de realizar novas instalações em diversas localidades da cidade. — Hoje não é mais um problema localizado. O que começou em áreas pontuais foi se espalhando e agora afeta diferentes regiões da cidade. Em muitos lugares, o morador simplesmente perdeu o direito de escolher qual empresa quer contratar. Técnicos passaram a esconder uniformes, retirar escadas dos veículos antes de voltar para casa e trabalhar com carros descaracterizados para não serem identificados. Há profissionais que deixaram a atividade depois das ameaças — afirma um representante do setor que pediu para não ser identificado por receio de represálias. Empresários afirmam ainda que reuniões sobre o avanço dessas restrições vêm sendo realizadas há meses com autoridades estaduais e municipais. Segundo eles, o setor já apresentou às forças de segurança um mapeamento das áreas afetadas e cobra ações para garantir a livre concorrência e a segurança dos trabalhadores. Os impactos das restrições à atuação das operadoras já alteram a rotina nos bairros. Um morador de Serra Grande, em Itaipu, que pediu para não ser identificado por questões de segurança, contou que decidiu deixar a casa onde vivia depois de enfrentar dois episódios relacionados à prestação do serviço de internet. Operações O primeiro ocorreu em dezembro do ano passado, quando técnicos de uma operadora realizavam um reparo na Rua Santos Anjos, antiga Rua 22. Durante o atendimento, o veículo da empresa foi atingido por disparos de arma de fogo. Ninguém ficou ferido. Meses depois, ao solicitar assistência técnica após uma falha na conexão, foi informado que a empresa não realizava mais reparos nem novas ativações na rua por questões de segurança. O contrato acabou sendo encerrado. Sem conseguir contratar outra operadora regular, ele decidiu procurar outro imóvel: — Procurei outros provedores, mas todos diziam que não conseguiam atender àquela região. Cheguei a saber de uma empresa que fazia instalações sem essas restrições, mas não encontrei informações suficientes para comprovar que era uma empresa regular e preferi não contratar. No fim, a falta de opções acabou me levando a mudar de casa. Segundo ele, na ocasião, vizinhos chegaram a denunciar à polícia um homem que fazia instalações na região após suspeitas de que cabos de outras operadoras estariam sendo cortados para favorecer apenas um fornecedor. Nas redes sociais também circulam relatos de restrições ao uso de antenas de internet via satélite em áreas dominadas por criminosos, que teriam mandado um morador retirar uma antena. O GLOBO-Niterói não conseguiu contato com a pessoa que passou por isso na cidade, mas confirmou um caso idêntico em São Gonçalo, no Rio do Ouro, na divisa com Niterói. Segundo a Polícia Militar, criminosos tentam se estabelecer na região utilizando barreiras improvisadas para dificultar a atuação das forças de segurança. Em repostas aos questionamentos feitos antes da operação, a PM informou que intensificou o patrulhamento e as ações de inteligência para combater grupos criminosos que ameaçam técnicos, danificam redes de telecomunicações e tentam impor o fornecimento clandestino de internet em determinadas localidades. A corporação afirmou ainda que mantém troca de informações com empresas regularmente autorizadas do setor e que segue monitorando as áreas onde há denúncias desse tipo de crime. Equipamentos de internet clandestina foram apreendidos em Niterói — Foto: Divulgação/Segurança Presente A Polícia Civil informou que a investigação sobre os episódios registrados na Região Oceânica segue em andamento na 81ª DP (Itaipu), responsável pelas diligências do caso. Segundo a corporação, um inquérito sobre esse tipo de crime foi concluído e remetido à Justiça em setembro do ano passado, enquanto outras investigações permanecem em andamento. Em nota, a instituição afirmou que atua de forma permanente no enfrentamento às organizações criminosas por meio de ações de inteligência voltadas à identificação, ao mapeamento e à desarticulação desses grupos e destacou que o trabalho é realizado de forma integrada com a Polícia Militar. Integração Já a prefeitura informou que atua em apoio às forças de segurança por meio de tecnologia, inteligência e integração de ações, apesar de a segurança pública ser uma atribuição constitucional do estado. Segundo o município, operações coordenadas pelo Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM) nos últimos 30 dias resultaram em duas prisões, na apreensão de quatro veículos e no recolhimento de materiais usados em instalações clandestinas. “A prefeitura, por meio da Seconser, da Seop e do GGIM, realiza reuniões periódicas com as operadoras para alinhar o fluxo de informações e traçar estratégias de proteção ao serviço”, diz a nota. A prefeitura afirmou ainda que empresas devem solicitar autorização prévia para intervenções em vias públicas e manter seus cadastros técnicos atualizados. O município ressaltou que não tem competência para fiscalizar a instalação ou operação da fiação nos postes, que são estruturas vinculadas à concessão federal da Enel, cabendo à administração municipal o ordenamento e o uso do espaço público.
Avanço de grupos criminosos restringe a oferta de internet em Niterói
Dados de operadoras estimam que cerca de 45% das residências já não tenham cobertura das principais empresas. Enquanto moradores relatam falta de opções e até mudança de endereço, polícia e prefeitura afirmam que realizam operações para combater o problema







