Ao longo dos anos, milhares de foguetes e mísseis foram lançados do Complexo de Woomera, uma vasta área no sul da Austrália maior que a Coreia do Norte. No entanto, o teste realizado em abril com o Sistema de Foguetes de Lançamento Múltiplo Guiado (GMLRS) trouxe um orgulho especial: foi o primeiro lançamento de um projétil fabricado em solo australiano em décadas. "Este teste bem-sucedido é um marco para a nossa capacidade soberana de armas guiadas, mostrando um avanço concreto para a nossa autossuficiência e para um futuro de defesa feito na Austrália", declarou Pat Conroy, ministro da Indústria de Defesa, na ocasião. "A Austrália é agora o único país fora dos Estados Unidos a fabricar o míssil GMLRS." O lançamento não significa que o país esteja agindo de forma totalmente independente: os mísseis são montados em uma fábrica sul-australiana da Lockheed Martin, a empreiteira de defesa americana que desenvolveu o armamento. Contudo, diante do temor generalizado na Austrália e em outros aliados de Washington na Ásia quanto aos atrasos na entrega de sistemas encomendados aos EUA, o projeto do GMLRS reflete um movimento regional para produzir mais mísseis localmente — seja em parceria com empresas americanas ou de forma autônoma. As fábricas de armas nos EUA não têm conseguido cumprir suas metas de produção. O descompasso foi agravado pelo uso intenso de armamentos de precisão em campanhas militares recentes, sobretudo nas ações de Washington contra o Irã e os Houthis no Iêmen, além do desvio de suprimentos para apoiar Israel e a Ucrânia. "Os próximos dois a três anos se tornaram muito mais perigosos porque não há uma solução industrial de curto prazo para os problemas estratégicos e operacionais que enfrentamos na Ásia", afirmou Tom Corben, pesquisador de defesa no Centro de Estudos dos Estados Unidos da Universidade de Sydney. "Não temos uma fonte alternativa de armas de ataque de longo alcance ou de interceptação para nós ou para qualquer outra grande força militar na Ásia que faria parte de uma coalizão contra a China, caso algo estoure em Taiwan ou no Mar do Sul da China." Em entrevista ao Nikkei Asia, o ministro Pat Conroy evitou confirmar atrasos nas encomendas. "Não vou entrar em detalhes sobre isso, não é de interesse nacional", disse. "O que posso dizer é que as entregas continuam." Ele acrescentou: "É óbvio que o complexo industrial dos EUA está sob imensa pressão. Eles gastaram estoques significativos no Oriente Médio e estão recompondo as reservas, algo em que todos estão focados." A entrega de mísseis de cruzeiro de ataque terrestre de longo alcance Tomahawk está sob forte análise. Washington já disparou mais de 1 mil unidades contra o Irã, enquanto os EUA produzem apenas cerca de 90 por ano, segundo dados do Centro de Estudos dos Estados Unidos. A Austrália aguarda o envio de 220 Tomahawks, e o Japão tem 400 encomendados. Tóquio esperava receber os primeiros mísseis até março, mas o lote ainda não chegou. Em maio, o Financial Times informou que o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, alertou seu homólogo japonês, Shinjiro Koizumi, sobre "sérios atrasos". Embora Koizumi tenha negado o diálogo, ele afirmou ao "Nikkei Asia" no mês seguinte que "fortalecer as capacidades de defesa do Japão é prioridade máxima". "Nenhum país consegue dar conta das demandas de defesa atuais, que evoluem rapidamente, sozinho — nem mesmo os Estados Unidos", ressaltou Koizumi. Gargalos na produção Assim como a Austrália, o Japão tem investido pesado na produção doméstica em cooperação com os americanos. Em alguns casos, empresas japonesas fabricam mísseis projetados pelos EUA sob licença, como os interceptadores Patriot. Em outros, empresas como a Mitsubishi Heavy Industries desenvolvem novas tecnologias em conjunto com parceiros americanos, a exemplo do Interceptador de Fase de Planeio (GPI), desenhado para abater mísseis hipersônicos. A fabricação local, porém, enfrenta gargalos. A produção de interceptadores Patriot pela Mitsubishi Heavy, por exemplo, tem sido limitada pela falta de componentes do sistema de guia fornecidos pela Boeing. Hirohito Ogi, ex-oficial de planejamento de defesa e inteligência do Japão e hoje no Instituto de Geoeconomia em Tóquio, prevê novos entraves caso os EUA não flexibilizem as regras de transferência de tecnologia. "Para garantir suprimentos adequados, o Japão precisará de uma indústria nacional mais forte e de importações confiáveis dos EUA", avaliou. Paralelamente às parcerias, os aliados dos EUA desenvolvem projetos 100% nativos, geralmente liderados por laboratórios estatais: a Agência de Aquisição, Tecnologia e Logística (Atla) no Japão; a Agência para o Desenvolvimento da Defesa na Coreia do Sul; e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Chung-Shan em Taiwan. Após os testes, os modelos são repassados a fabricantes locais — no caso de Taiwan, o próprio instituto Chung-Shan assume a produção. Tóquio já começou a implantar uma versão atualizada do míssil antinavio Type-12, produzido pela Mitsubishi Heavy, com alcance de até 1.000 quilômetros — cinco vezes maior que o modelo anterior. Em Taiwan, o instituto Chung-Shan mantém diversas linhas ativas, incluindo o míssil de cruzeiro de alcance estendido Hsiung Sheng, projetado para destruir bunkers. Autoridades taiwanesas veem esses programas como complementares às compras feitas nos EUA. "Quero enfatizar que as aquisições externas são um canal, e os esforços para promover a defesa indígena são outro", disse o presidente Lai Ching-te no mês passado. "Ambos são igualmente importantes. O ritmo de Taiwan para fortalecer sua própria defesa não pode retroceder nem desacelerar." A Coreia do Sul segue caminho semelhante, buscando reduzir a dependência de importações americanas e impulsionar suas próprias exportações de armas. A Hanwha Aerospace iniciou a produção de um novo míssil de defesa aérea de longo alcance para o exército sul-coreano no fim do ano passado e já promove o sistema para mercados na Europa e no Oriente Médio. "A grande lição é que a capacidade industrial dos EUA hoje não permite a entrega imediata de algumas remessas de mísseis destinadas à Coreia do Sul", apontou Mason Richey, professor de política na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, em Seul. Plano bilionário A Austrália não possui o mesmo ecossistema industrial de defesa de Japão, Coreia do Sul ou Taiwan, mas corre para reconstruir suas capacidades diante do avanço militar da China no Pacífico Sul — onde Pequim testou um míssil balístico a partir de um submarino nuclear nesta semana. Com um orçamento de 36 bilhões de dólares australianos (US$ 24,9 bilhões), a iniciativa de Armas Guiadas e Explosivos prevê a abertura de três fábricas de mísseis até 2029 e uma linha de motores de foguete até 2033. A Lockheed ativou a primeira dessas unidades em Port Wakefield, no sul do país, em dezembro. A empresa americana também gerenciará uma segunda planta para a montagem dos sistemas GMLRS. A terceira fábrica será operada pela norueguesa Kongsberg em Newcastle, Nova Gales do Sul, com foco em mísseis de ataque para navios e caças a partir do ano que vem. O avanço, contudo, esbarra no rígido controle de Washington sobre a transferência de tecnologia militar, o que dificultou a produção local de componentes. Em maio, o governo australiano fechou um acordo de AU$ 120 milhões com a Lockheed para que empresas em Melbourne passem a fornecer aletas e sistemas de controle para os GMLRS. James Heading, diretor da Lockheed na Austrália, explicou que o acordo cria a base para transferências tecnológicas futuras de componentes mais avançados. "Estamos saindo da fase de engatinhar. Sinto que já começamos a andar firme." O ministro Pat Conroy recorreu a outra metáfora para justificar a escolha do armamento: "Fomos criticados por começar com o GMLRS, que é um míssil relativamente simples, mas estamos usando o projeto para desentupir os canos do sistema", afirmou. Segundo ele, o programa abre caminho para a importação de peças, aprovações de patentes nos EUA e, eventualmente, para a fabricação de sistemas complexos, como mísseis balísticos de precisão. Analistas locais apontam que a transferência de tecnologia fluiu melhor com a norueguesa Kongsberg. "A lição para o Ministério da Defesa da Austrália foi que lidar com a Noruega é muito mais fácil do que enfrentar as leis americanas, o Pentágono e suas corporações", comentou Peter Dean, chefe de estudos militares do Colégio de Defesa Australiano. Essa experiência pode abrir portas para que a Austrália colabore diretamente com o Japão ou outros aliados na região. Os laços entre Canberra e Tóquio estão se estreitando, vide a decisão australiana de comprar três fragatas da classe Mogami em um acordo de AU$ 20 bilhões assinado em abril. "Existe um potencial natural de cooperação, pois agora ambos os países estão desenvolvendo mísseis", concluiu Osamu Nishiwaki, diretor de comércio e segurança econômica do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, durante comitiva à Austrália.
Aliados dos EUA investem em produção própria de mísseis na Ásia-Pacífico
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