Segundo investigação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), 20,6 mil menores foram levados à força para a Rússia e 1,6 milhão vivem sob ocupação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Balanços abandonados em parque de Kherson, na Ucrânia — Foto: David Guttenfelder/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 18:10 Relatório da OSCE denuncia sequestro de 20 mil crianças ucranianas pela Rússia Um relatório da OSCE denuncia que 20,6 mil crianças ucranianas foram levadas à força para a Rússia desde a invasão de 2022. A Rússia é acusada de apagar a identidade ucraniana e forçá-las a lutar contra seus compatriotas. Além disso, 1,6 milhão de menores vivem sob ocupação russa, enfrentando a imposição de um currículo russo e a proibição do uso do idioma ucraniano. A situação prejudica o futuro de uma geração inteira, com impactos na demografia, saúde mental e educação da Ucrânia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um relatório divulgado nesta quinta-feira revelou que 20,6 mil crianças ucranianas foram levadas à força para a Federação Russa desde fevereiro de 2022, quando o governo do presidente Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia. O documento, apresentado pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), acusa o Estado russo de manter uma política de apagamento da identidade nacional dos menores e até forçá-los a combater seus compatriotas no campo de batalha. Segundo a investigação, conduzida por uma comissão independente da OSCE, 20.610 menores ucranianos foram levados sem o consentimento de responsáveis ou contra a própria vontade para a Rússia. Ali, sujeitos às leis locais e da posse compulsória da cidadania russa, foram encaminhados para orfanatos ou famílias adotivas, sem direito à reunificação com as famílias. Apenas 2.368 retornaram para suas casas em território controlado pela Ucrânia. Em todo o país, 715 crianças morreram e 2.652 ficaram feridas desde fevereiro de 2022, segundo números da ONG Children of War. — O impacto é devastador porque a guerra passou a fazer parte do cotidiano das crianças — relata Maksym Maksymov, chefe de Projetos da Bring Kids Back, iniciativa ligada à Presidência da Ucrânia, ao GLOBO. — Isso afeta a demografia, a saúde mental e a educação da Ucrânia, bem como o futuro de toda uma geração. Kira, de 11 anos, por pouco não se tornou uma dessas jovens. Em depoimento à Bring the Kids Back, ela conta que ficou ferida em um ataque em Mariupol, no sul, e ouviu dos soldados russos que, se ninguém fosse buscá-la no hospital, seria enviada para adoção. Pouco antes, vira o pai morrer na sua frente. — Estava tão chocada com tudo que aconteceu que levei algumas semanas até lembrar que tinha um telefone. Eventualmente, eu o encontrei e liguei para meu avô — conta, acrescentando que ele foi resgatá-la na unidade médica. — Os russos tiraram minha infância, minha cidade e meu pai de mim. A Batalha de Mariupol, vivida por Kira, foi um dos símbolos dos primeiros momentos da guerra, pela tenacidade da resistência ucraniana, especialmente no cerco à metalúrgica Azovstal, e pela forma como foi apresentada como um dos modelos da ocupação russa pós-2022. Práticas já testadas na Crimeia, sob domínio da Rússia desde 2014, foram impostas em massa, incluindo a política da passaportização, pela qual apenas pessoas com documentos russos e cidadania russa teriam acessos a serviços básicos, desde a educação até empregos. Soldados russos no teatro de Mariupol, fortemente bombardeado em março de 2022 — Foto: NEMENOV / AFP A imposição dos sistemas jurídico, político e econômico ampliou o poder de Moscou sobre as populações nas regiões ocupadas — hoje, estima-se que 20% do território ucraniano, com base nas fronteiras de 1991, estejam sob controle russo. Para os 1,6 milhão de menores ucranianos nestas áreas, isso também significou mudanças bruscas em suas vidas. Responsáveis são forçados a mandar suas crianças para as escolas russificadas, sob risco de prisão. Professores que se recusam a seguir o currículo são ameaçados, e os menores são proibidos de falar ucraniano em público ou de expressar sentimentos favoráveis a Kiev. — A Rússia tenta implementar isso em todos os territórios recém-ocupados. Quanto mais tempo dura a ocupação, mais se rompem os vínculos das crianças com a Ucrânia livre, com seus familiares, o idioma, documentos, escolas e comunidades — afirma Maksymov. — Sua mobilidade é restringida, sua dependência de instituições russas aumenta e seu futuro é cada vez mais direcionado para uma vida dentro do sistema russo, o que frequentemente inclui o setor militar. Em seus 26 anos no poder, Vladimir Vladimirovich Putin jamais demonstrou apreço pela Ucrânia, seus habitantes ou sua História. Ele foi acusado de interferir em ao menos dois processos eleitorais, fomentou a insurreição no leste que serviu de embrião para a atual guerra e, em 2021, publicou um longo artigo no qual questionava a soberania do país vizinho. No ano seguinte, ordenou que seus tanques cruzassem a fronteira e fez da russificação uma prioridade. Para a missão da OSCE, uma violação das Convenções de Haia de 1907, que são claras ao estabelecer que “é proibido obrigar os habitantes de territórios ocupados a jurar fidelidade à potência hostil”. No caso das crianças, além de tentar mudar identidades nacionais, o objetivo também é conseguir mais recrutas. Disciplinas escolares que são uma forma de treinamento militar se tornaram obrigatórias em 2023, e aos 13 anos os alunos já recebem instrução sobre o uso de armas e drones. — Rapazes são incentivados ou pressionados a ingressar no serviço militar, inclusive por meio de promessas de benefícios, acesso à universidade, status social e funções técnicas consideradas "seguras", como a operação de drones— diz Maksymov. — As meninas também são alvo. Não apenas da ideologia militarista, mas também da propaganda que promove a maternidade precoce e a dependência do Estado. Animais de pelúcia simbolizando crianças ucranianas em cativeiro são exibidos em Washington — Foto: Anna Moneymaker/AFP Aos 16 anos, detalha a investigação da OSCE, jovens de áreas ocupadas recebem avisos de que poderão ser convocados para a guerra quando atingirem a maioridade — pela Quarta Convenção de Genebra, a força de ocupação “não pode obrigar pessoas protegidas a servir em suas Forças Armadas ou auxiliares”. A Rússia alega que age dentro das normas internacionais. “Embora as notificações fossem geralmente enviadas a todos os jovens do sexo masculino antes de completarem 18 anos, um padrão consistente parece indicar que os jovens ucranianos são alvo específico dessas notificações ‘antecipadas’ e da exigência de se apresentarem ao escritório de recrutamento”, afirma o relatório. — Os mandados são suficientes para trazer as crianças de volta? Não. O TPI não pode ir a Moscou e prender Putin. E ainda não existe um mecanismo internacional capaz de obrigar a Rússia a fornecer listas completas das crianças, revelar seu paradeiro, restaurar suas identidades e devolvê-las — explica Maksymov, que torce pela adesão brasileira à Coalizão Internacional para o Retorno de Crianças Ucranianas, hoje com 50 membros. — O Brasil é um ator regional e global importante, e sua liderança faria a diferença.
Após quatro anos e meio de guerra, Moscou amplia política de 'russificação' da infância ucraniana, aponta relatório
Segundo investigação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), 20,6 mil menores foram levados à força para a Rússia e 1,6 milhão vivem sob ocupação










