Governador interino propõe enxugar máquina, sanear finanças e impor regras fiscais próprias 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O governador em exercício do Rio, Ricardo Couto — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo/08/07/2026 São sensatas e bem-vindas as medidas de austeridade defendidas pelo governador interino do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, em entrevista ao GLOBO. O estado, frequentador assíduo de programas de recuperação fiscal, aderiu recentemente ao Propag, socorro federal a entes endividados. Certamente isso trará alívio necessário às contas estaduais. Mas a situação hoje é crítica. O Orçamento deste ano prevê um rombo de R$ 19,5 bilhões. É questão de bom senso o saneamento das finanças e o enxugamento da máquina pública promovidos por Couto. Presidente do Tribunal de Justiça do Rio, ele assumiu o governo depois da renúncia do então governador Cláudio Castro (PL), ante as vacâncias do vice-governador Thiago Pampolha (nomeado para o Tribunal de Contas do Estado) e do então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, afastado (depois preso) sob acusação de ligação com o crime organizado. Enquanto a intrincada sucessão no Rio está sob análise do Supremo Tribunal Federal, que ainda decidirá sobre o mandato-tampão até a posse do novo governador eleito em outubro, Couto faz bem em agir. Não há tempo a perder diante das mazelas do estado. A meta é cortar R$ 5 bilhões em despesas até o fim do ano. Ele também defende, por sugestão do secretário de Fazenda, Guilherme Mercês, a instauração de uma norma de responsabilidade fiscal própria para o Rio, como já fazem outros estados. É positiva também a ideia de rever contratos onerosos. Couto diz ter ficado estarrecido com os gastos. Cita a restauração do teleférico do Morro do Alemão, sob investigação, o fretamento da aeronave para uso exclusivo do governador e a contratação de 220 mil câmeras de segurança. A redução da máquina pública é fundamental diante do descontrole. Couto diz que seu projeto é ficar com 22 ou 23 secretarias, em vez das atuais 35. É evidente o inchaço no serviço público fluminense. Uma auditoria na folha do funcionalismo constatou situações inaceitáveis. Em todos os órgãos da administração foram detectados funcionários que recebiam sem trabalhar, os proverbiais funcionários fantasmas. Até o momento foram exonerados 4.283 em cargos de comissão, ou 30% do total de 14.340. As exonerações deverão, segundo ele, chegar a 6 mil. As secretarias funcionavam como feudos de políticos. “A visão precisa ser técnica, com menos politização”, diz Couto. “É preciso trazer servidores sem concurso público apenas quando há necessidade efetiva, sem comprometer a ideia de estado prestacional — e retirando a lógica de nomear quem não presta serviço.” A profusão de secretarias, para acomodar aliados, não tem se refletido em serviço melhor para a população. Ao contrário. Chama a atenção que o Rio, segundo PIB da Federação, fique tão mal colocado em rankings nacionais. No último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ocupava o penúltimo lugar, à frente apenas do Rio Grande do Norte. Em vez de melhorar a qualidade do ensino, optou por facilitar a aprovação, na esperança de aumentar artificialmente a nota. O percentual de alunos do ensino médio em tempo integral também decepciona: o Rio ocupa o 20º lugar entre os 27 estados. A situação da educação se espelha também em áreas como transportes, saúde ou segurança. Para obter recursos e investir no que é necessário, é fundamental acabar com o desperdício.