Reconheço a garra dos hermanos. Mas não perdoo o racismo explícito. Nem o desprezo pelo Brasil penta 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Argentinos chamam o Brasil de 'morto', mas ficaram mortos na Copa durante 36 anos — Foto: Reprodução Torci pelo Egito. Os egípcios anularam Messi no primeiro tempo com a marcação cerrada. O craque argentino tremeu e perdeu um pênalti. O goleiro Shobeir parecia uma pirâmide inexpugnável. Os contra-ataques árabes eram dignos de faraós. Egito fez três gols, um deles anulado. Nos últimos 15 minutos, eu me rendi à garra e à genialidade Messiânica. Foi sim uma virada épica, apesar de lances de arbitragem discutíveis, basta rever em detalhe o compilado. Mas não pulei. Não gritei gol. Não comemorei. Admirei a tenacidade do time, ao lutar até o fim. Mas continuarei a torcer contra. E aí me perguntam. Como não torcer por um time sul-americano? O único que restou? Como não torcer pelos hermanos, nossos vizinhos? É inveja pelo futebol deles? É rivalidade extremada? Mudei. Escrevi na revista Epoca, em 2010, antes da Copa na África do Sul, um texto com o título: “Por que eu não torço contra os argentinos”. Eu dizia: “Los hermanos jogam um belíssimo futebol. Como nós, brasileiros, sempre jogamos, antes da era retranqueira de Dunga e Parreira (mal imaginava eu um tal Ancelotti). Sonho com mais alegria, drible, criatividade e talento. Mas não é só pela bola no pé que não torço contra os argentinos. O cinema e a literatura deles são melhores. Tenho amigos portenhos. E me comove sua dramaticidade”. Publiquei outra coluna, em 2013, “O que eles têm que nós não temos?”. Elogiando a carne macia, o papa Francisco etecetera. “Os argentinos têm cinco prêmios Nobel. Os brasileiros, nenhum. Os argentinos têm dois Oscar. Nós, nenhum”. (Foi antes de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles). Ainda dizia: “Os argentinos têm vários deuses no futebol. Nós também. Sou muito mais Messi que Neymar. O moleque de 21 anos precisa comer muito feijão com arroz para chegar à consistência do argentino. Messi só pensa na bola e na equipe. Neymar entrou na roda-viva de festas, boates, publicidade, brinquinhos de diamante, penteados. Ficou até as 4 da madruga com Bruna Marquezine. Discutiu com fotógrafos. Seis horas depois, foi treinar no Santos. Imagina na Copa”. Isso, eu escrevi há 13 anos. Hoje, enquanto Messi comanda uma vitória de virada após um pênalti perdido, o lesionado Neymar provoca infantilmente o goleiro norueguês ao bater um pênalti, ganha grana com bets e leva relógios de luxo para a Copa. O Brasil não merece. Mas por que eu passei a torcer contra a Argentina, se reconheço tantos méritos deles? Um motivo é o racismo da torcida. Imitam macacos. Mas não só nos estádios. Volta e meia um turista argentino, homem ou mulher, é detido no Brasil por ofensa racista. Numa coluna recente sobre a invasão argentina em Búzios, uma leitora me respondeu nas redes com a figurinha de um chimpanzé. Não se pode generalizar. O racismo não existe só na Argentina. O mundo branco é racista, o Brasil não é exceção. Mas me incomoda não ver negros em Buenos Aires. E me incomodaram muito as cenas de racismo explícito de argentinos na torcida, ao final do jogo contra o Egito. Jogaram lixo, gritaram ofensas, fizeram gestos nojentos. Comemorando uma vitória! E ainda por cima, eles torcem contra nós. Gritaram, antes do jogo contra o Egito, “a favela está chorando, o Brasil está morto”. Pode ser despeito. Os argentinos ficaram mortos, sem ganhar a Copa, por 36 anos, até o tri em 2022. Nós estamos em jejum há 24. Somos penta, dois títulos a mais. Nunca vi Brasil cantando, com musiquinha, que a seleção deles estava morta. Argentinos são italianos que falam espanhol e pensam que são ingleses. Do lado de cá, não há soberba. Muitos brasileiros, decepcionados com nossa covarde seleção, torcem pela VARgentina de Messi nesta Copa. Eu tô fora.