Em artigo, companhia comparou funcionamento da IA com componente da teoria da consciência humana, mas analogia não é bem recebida por comunidade científica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pesquisadores da Anthropic descobrem estrutura interna do Claude, mas compração não agrada — Foto: Jason Henry/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/07/2026 - 19:04 Anthropic sugere "consciência" em IA Claude e gera polêmica A Anthropic afirmou ter identificado no Claude, seu modelo de IA, um "espaço de raciocínio silencioso" similar à consciência humana, o que gerou controvérsias. O estudo, que frequentemente menciona a palavra "consciência", sugere que o modelo pode acessar informações de forma "consciente" e "inconsciente". Apesar de tecnicamente relevante, a comparação com a neurociência foi criticada como exagero de marketing. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Anthropic publicou um artigo no domingo (5) no qual afirma ter identificado um espaço de raciocínio silencioso no Claude, seu modelo inteligência artificial (IA), e comparou isso ao funcionamento da consciência humana, levantando controvérsia sobre a possibilidade de máquinas terem atingido um status de inteligência similar ao de seres humanos. Embora não afirme que a sua IA seja consciente, a Anthropic usou a palavra “consciência” e suas derivadas mais de 200 vezes no artigo para dizer que detectou uma área que funciona como um “espaço mental silencioso”, onde o modelo pensa sem verbalizar. Como a Anthropic se tornou a principal empresa de IA do mundo: entenda em cinco gráficosAnthropic pede 'botão de pausa' para IA e defende freio no avanço da tecnologia Em outras palavras, os engenheiros identificaram que, além do enorme volume de processamento automático e "inconsciente" que um modelo realiza (como gramática e sintaxe), existe um pequeno conjunto de representações internas que o modelo realiza, mas que nem sempre expressa isso nas respostas. Esse espaço interno de processamento de informação foi batizado de J-space. Esse é um processo matemático, mas que a Anthropic preferiu comparar a um conceito emprestado da neurociência que foi proposto por Bernard Baars chamado de espaço de trabalho global, que está ligado à teoria da consciência. Segundo Baars, o cérebro funciona como um cinema: dezenas de processadores especializados trabalham em paralelo nos bastidores, mas apenas um minúsculo feixe de luz de informação, a cada momento, é transmitido para o mundo. Ou seja, o Claude teria acesso 'consciente' e 'inconsciente' às informações que processa. O artigo afirma que o J-space surgiu de maneira espontânea durante o treinamento do Claude. Em um exemplo citado pela empresa, os cientistas ordenaram o Claude a pensar sobre a ponte Golden Gate, em São Francisco, enquanto copiava uma outra sentença de assunto não relacionado. O modelo executou a tarefa de cópia, mas o J-space foi ocupado por tópicos como “ponte” e “Califórnia”. Durante o funcionamento do J-space, não significa que o modelo está prestes a falar as palavras que ocupam o espaço, mas que os conceitos por trás delas estão disponíveis para serem processados — é um processo paralelo e diferente de quando um modelo gasta mais tempo em uma tarefa, uma técnica conhecida como “cadeia de pensamento” (chain of thought). Segundo a pesquisa, o J-space está localizado nas camadas intermediárias dos modelos, onde a informação é abstrata e persistente — no início, o modelo apenas lê os dados brutos e, no final, ele apenas escolhe a próxima palavra. Ele "transmite" informações para todo o restante do modelo, permitindo que diferentes circuitos leiam e usem esses "pensamentos". Os pesquisadores também dizem que o espaço também se assemelha à memória de curto prazo humana, pois consegue reter apenas 25 conceitos por vez. — Esse estudo mostra que existe mais estrutura nas camadas internas da IA. Eles não são apenas papagaios que repetem uma previsão da próxima palavra. É algo que já dava para imaginar dada a complexidade das tarefas que realizam. Eles demonstram que esses modelos podem ter internamente o que as palavras de saída não mostram — avalia Fabio Cozman, diretor do Centro de Inteligência Artificial da Universidade de São Paulo (USP). A Anthropic afirma que a técnica usada para identificar o J-space, chamada de J-lens, é importante para monitorar o alinhamento do modelo. Ou seja, ser capaz de entender se ele respeita regras e os interesses humanos — é uma maneira de afastar a ideia de que modelo de IAs são caixas pretas, das quais é impossível extrair entendimento sobre seu funcionamento. Pela J-lens, os cientistas encontraram sinais de "pânico", "manipulação" ou "estratégia" em situações onde o modelo estava tentando enganar um usuário ou contornar uma regra, mesmo que a resposta final parecesse educada. Também revelou que o modelo muitas vezes "sabe" que está em um cenário de teste ou simulação (identificando palavras como "fake" ou "fictício" internamente) antes mesmo de começar a falar. E o J-space pode ser alterado a partir de treinamento e feedback humano. — Essa pesquisa faz parte de um tema chamado interpretabilidade dentro da grande área de IA, que busca entender melhor como esses modelos funcionam por dentro. É uma área importante, principalmente porque esses sistemas estão sendo usados em cada vez mais tarefas e, muitas vezes, ainda sabemos pouco sobre como eles chegam a determinadas respostas — afirma Ricardo Marcacini, pesquisador do Laboratório de Inteligência Computacional da USP. Marketing barulhento Embora tecnicamente o estudo indique resultados importantes para a comunidade de IA, a maneira como foi divulgado, especialmente a conexão com consciência humana, rendeu críticas à Anthropic. Ravid Shwartz Ziv, professor da Universidade de Nova York e pesquisador da Meta, disse em suas redes que quase tudo o que a Anthropic divulga por meio de blogs, artigos ou publicações é “marketing” e que a empresa cria modelos realmente bons, mas são “ainda melhores na hora de apresentá-los”. “Este artigo não precisava ser sobre a consciência. Não precisava da teoria do espaço de trabalho global, não precisava do cérebro e não precisava da palavra 'consciente' em lugar algum. Os mesmos experimentos, as mesmas figuras, a mesma ferramenta — tudo isso se sustenta perfeitamente bem como mera interpretabilidade. Alguém optou por enquadrá-lo na neurociência. Essa escolha é o produto, não a ciência”, escreveu ele. É algo parecido com o que pensa Marcacini: — Foi uma escolha ruim, do ponto de vista técnico-científico, e na minha opinião foi proposital. Acho que foi escolhido justamente para chamar atenção, gerar manchetes e fazem o público imaginar que os modelos estão cada vez mais próximos dos seres humanos. O próprio artigo fez ressalva quanto a isso, mas eles sabem que o vai circular mais é a parte mais chamativa. Alines Paes, da Universidade Federal Fluminense (UFF) vai na mesma linha: — É complicado dizer que pode ser algo parecido com consciência ou que tem a ver com o funcionamento do cérebro. O conceito matemático é bem fundamentado e a base faz sentido para como os modelos funcionam, mas acho que o marketing sobre o artigo é mais exagerado que o artigo técnico em si. Ela também lembra que existe um problema de replicabilidade no experimento já que o Claude é um modelo fechado. A Anthropic liberou o código do J-space para alguns pesquisadores testarem em modelos abertos. Neel Nanda, que lidera a equipe de interpretabilidade de modelos de linguagem do Google DeepMind, testou o J-space no Qwen 3.6 27B e encontrou evidência de que o fenômeno surge além do Claude. Mas ele também preferiu se afastar da ideia de consciência propagada pela Anthropic. “Não me sinto qualificado para avaliar se isso é realmente parecido com um espaço de trabalho global, e essa me parece a afirmação menos interessante do artigo. É claro que há algo significativo que o J-space está descobrindo dentro dos modelos, e isso está ampliando nossa compreensão sobre eles e nossa capacidade de torná-los mais seguros, o que é o mais importante, seja ou não análogo a um espaço de trabalho global. Tenho muitas dúvidas sobre que tipo de evidência seria necessária para demonstrar que os modelos têm significado moral ou consciência, e este artigo não me convenceu muito a esse respeito.