John Rodgerson, CEO da Azul — Foto: Imagem Valor Econômico relistagem das ações da Azul na Bolsa de Nova York (Nyse) marca o encerramento do processo de reestruturação da companhia e o início de uma nova etapa focada em redução da alavancagem, crescimento sustentável e maior geração de receita por cliente. A afirmação foi feita por John Rodgerson, CEO da aérea, em conversa com o Valor. “Desalavancar ainda mais é a prioridade. Crescer é divertido. Todo mundo quer crescer, mas temos de fazer isso de forma sustentável para garantir que estamos produzindo caixa. Temos choques de demanda, macro e temos de estar preparados”, disse. Com o fim das reestruturações de Azul, Latam e Gol , o setor aéreo brasileiro atravessa agora um momento mais favorável para investimentos. Mas a cautela, disse o executivo, deve guiar os negócios no futuro, sobretudo com um combustível em patamares bastante elevados. “Ninguém gosta de fazer um ‘Chapter 11’ [recuperação judicial nos EUA], mas foi importante para nos limpar da covid-19. Fizemos todo o processo em menos de nove meses e já estamos nos relistando em Nova York”, disse Rodgerson. A tradicional cerimônia de toque de campainha na Nyse ocorre na manhã desta quinta-feira (9). Apesar de um balanço reestruturado, o executivo disse que o setor tem atravessado diversas turbulências, como a própria crise do petróleo com a guerra no Oriente Médio, ainda sem um sinal claro de encerramento. “O que nós queremos é nunca ter que passar por isso de novo”. Rodgerson destacou a chegada do novo CFO na empresa, Antonio Carlos Garcia, que terá o papel de fortalecer o balanço financeiro. Após a reestruturação, a Azul ficou com uma alavancagem abaixo de 2,5 vezes. O objetivo, segundo o executivo, é estar abaixo de duas vezes. A redução da dívida chega juntamente com uma maior cautela na oferta de voos, sobretudo por causa da disparada do petróleo. “É arriscado, neste momento, quando você não sabe qual vai ser seu principal custo amanhã, planejar crescer 15%.” Ontem, o Comando Central americano (Centcom) disse que as Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram novos ataques contra o Irã, horas depois de o presidente Donald Trump dizer que o acordo interino firmado entre Washington e Teerã no mês passado para encerrar a guerra tinha “acabado”. Segundo Rodgerson, os custos elevados e a inflação global mudaram a estratégia das empresas aéreas. No passado, muitas aéreas migraram sua atividade para o modelo “low cost” (baixo custo). Hoje, a tendência é de cada vez mais personalização e serviços adicionais, que se refletem em maiores retornos. Agora, disse, a disputa das aéreas não é mais por “market share” (participação) como no passado. “O brasileiro vai perceber uma diferença na qualidade do serviço. A briga entre as três [aéreas] é pelo cliente de alto valor”, disse. O desafio hoje do setor é a tarifa, que tem crescido e deixado muita gente fora do modal aéreo. O preço cresceu tanto que até o passageiro corporativo começou a buscar alternativas. Dados da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp) apontam para uma migração constante para o braço rodoviário. Em maio, o segmento rodoviário faturou R$ 5,47 milhões com vendas de passagens corporativas, alta de 5,06% em um ano. “A aviação é um produto importado. Combustível é importado, manutenção é importada, ‘leasing’ é importado. Quando o real era dois ou três por dólar, muito mais gente conseguia viajar”, disse. Parte da estratégia da Azul é aproveitar também as parcerias com outras empresas para alavancar os negócios. Hoje, disse, a Azul é mais do que uma companhia aérea. “Nós somos uma empresa de logística, uma empresa de fidelidade, uma empresa de mídia e de manutenção”, disse, ao apontar parcerias com Amazon, Shopee, Itaú, Eletromidia e Disney. Um passo importante no futuro da Azul é a conclusão do investimento da American Airlines na brasileira. O tema está nas mãos da Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Dentro do processo de “Chapter 11” da Azul, American e United decidiram aportar US$ 100 milhões cada na aérea brasileira. O aporte da United, que já era uma acionista da Azul, recebeu o aval do Cade em fevereiro passado. Agora, a SG escrutina o investimento da American. A Abra, controladora da Gol e da Avianca, fez duras críticas ao plano da American. Entre as principais críticas, diz que, com o investimento, a American terá poderes semelhantes a um controlador na Azul, sobretudo diante da criação do comitê estratégico da aérea, que tem representantes da American e também da United Airlines. Inicialmente, a SG havia recusado a entrada da Abra como terceira interessada no processo que avalia o aporte. Na semana passada, entretanto, a SG mudou de ideia. Como terceiro interessado, a Abra ganha o poder de questionar no Tribunal do Cade a decisão da SG caso ela aponte para uma aprovação do negócio. *O repórter viajou a convite da Azul