O preço do petróleo disparou nesta quarta-feira (8) após os Estados Unidos realizarem uma nova série de ataques contra o Irã, sofrerem o revide e anunciarem que o cessar-fogo está suspenso. Também há uma incerteza se o estreito de Ormuz voltará a ser bloqueado, o que impactaria o fornecimento de petróleo. Na máxima do dia, o barril Brent, referência mundial, atingiu US$ 80,59 por volta das 12h45 (horário de Brasília), disparando 8,67% em relação ao dia anterior. O Brent encerrou o dia com alta de 7,17%, a US$ 79,48, consolidando o fechamento mais alto desde 22 de junho. Já o petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, era negociado a US$ 73,52 ao fechamento, uma alta de 4,37%. A disparada do petróleo foi resultado do retorno dos temores de uma escalada do conflito no Oriente Médio após novos ataques realizados contra navios-tanques na região. Nesta manhã, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o acordo de cessar-fogo entre seu país e o Irã "acabou" com os ataques retaliatórios da teocracia contra alvos americanos em países do golfo Pérsico. Trump fez novas críticas ao regime iraniano. "Até onde sei, é só uma perda de tempo lidar com eles [iranianos]. Eles são mentirosos, há algo errado com eles. Eles são loucos. Até onde sei, acabou [o acordo]", disse o americano ao lado do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, durante a cúpula da aliança militar ocidental em Ancara (Turquia). Trump disse também que ainda poderá negociar. "Eu vou falar com nossos negociadores. Eles querem negociar, são boas pessoas, [os enviados americanos] Steve Witkoff, Jared Kushner, mas eles têm de falar comigo", completou. O retorno das tensões também impactou os mercados ao redor do mundo. No Brasil, o dólar fechou em leve queda de 0,11% nesta quarta-feira (8), cotado a R$ 5,146. Na Bolsa, as incertezas em relação ao estreito de Ormuz deu impulso às petroleiras, com a Petrobras avançando mais de 3% e Petrorecôncavo, 6%. Não foi o suficiente, porém, para amortecer a queda das demais ações do Ibovespa, que fechou com perdas de 0,79%, a 170.653 pontos. Vale pesou no índice, com recuo de 4,6%. Em Wall Street, o índice S&P 500 recuou 0,3% e o Nasdaq subiu 0,2%. Já o Dow Jones perdeu 1,09%. "O mercado volta a demonstrar forte preocupação com a oferta global de petróleo, especialmente diante da incerteza em relação às exportações provenientes do Golfo Pérsico. Há uma probabilidade elevada de redução dos volumes escoados pela região, o que teria impacto direto sobre o equilíbrio entre oferta e demanda, principalmente na Ásia e na Europa", diz Bruno Cordeiro, analista de mercado da Stonex. Já os juros futuros avançaram, refletindo a possibilidade de novas pressões inflacionárias sobre a economia brasileira que forçariam a manutenção da Selic em patamares elevados. A queda maior nas Bolsas ocorreu na Ásia, com os investidores também impactados pelas dúvidas se a valorização das empresas ligadas ao setor de inteligência artificial atingiram o seu ápice. A Bolsa de Seul voltou a liderar as perdas ao despencar 5,35%, seguido por Hong Kong (-2,99%) e Tóquio (-2,11%). Na China, o índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, retrocedeu 0,77%, enquanto o índice SSEC, de Xangai, perdeu 0,49%. Na Europa, o Euro STOXX 600, referência na União Europeia, fechou em queda de 1,8%, a 634,91 pontos, seu nível mais baixo em uma semana. A tendência foi seguida em Frankfurt (-2,23%), Londres (-1,66%), Paris (-2,18%), Madri (-2,73%) e Milão (-1,22%). Na terça-feira, três navios-tanques foram atingidos por bombardeios que os EUA atribuíram ao Irã, que não assumiu a autoria. Entre a noite de terça e a manhã desta quarta, o Centcom (Comando Central dos EUA) divulgou que fez "ataques poderosos contra o Irã" e teria atingido 80 supostos alvos militares iranianos. A Guarda Revolucionária do Irã informou que respondeu com mísseis e drones em 85 supostas instalações militares americanas em países aliados como Bahrein e Kuwait. Mohammad Bagher Ghalibaf, principal negociador do Irã com os EUA, acusou a Casa Branca de "violações graves" do acordo, incluindo a reinstalação de sanções ao petróleo e o lançamento de ataques militares contra o sul do Irã. "A era do bullying e da extorsão acabou. Não leva a lugar nenhum. Não vamos ceder", comentou Ghalibaf em uma publicação no X (ex-Twitter). Apesar dos ataques das duas partes, empresas de dados de navegação afirmaram que algumas embarcações continuaram a atravessar o estreito de Hormuz como um petroleiro da ExxonMobil e pertencente à empresa de navegação japonesa NYK e um navio porta-contêineres da empresa francesa CMA CGM. Um dia antes, os ataques a navios levaram a Casa Branca a revogar uma licença concedida ao Irã para vender petróleo. A nova escalada do conflito interrompeu a frágil trégua entre Washington e Teerã, em vigor desde o final de junho, e puxaram os preços do petróleo para cima. Após os novos ataques, autoridades marítimas elevaram o nível de risco para embarcações que transitam pela via navegável para "grave". Embora o tráfego pelo estreito tenha se recuperado na última semana, ele continua irregular, variando entre um terço e um quinto dos níveis anteriores à guerra. A decisão de Washington de revogar a licença veio acompanhada de uma advertência ao Irã de que suas ações no estreito eram "totalmente inaceitáveis" e teriam consequências. A Casa Branca concedeu a licença em junho, flexibilizando sanções que duravam décadas como parte de um acordo para reabrir o estreito. Com isso, os investidores voltaram a temer pelo fluxo do petróleo e por uma nova interrupção no tráfego em Ormuz. "Qualquer sugestão de que as negociações tenham fracassado aumenta o risco de novas interrupções no fornecimento ou de sanções mais rigorosas", afirmou Daniela Hathorn, analista da corretora Capital.com.