Por Anna Luiza Santiago 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jeniffer Nascimento — Foto: Caio Oviedo Jeniffer Nascimento emendou, em menos de dois meses, os trabalhos nas novelas “Êta mundo melhor!” e “Quem ama cuida”. Depois de viver Dita, a mocinha da trama das 18h, ela agora interpreta Nancy, uma das aliadas da protagonista da história das 21h, Adriana (Leticia Colin): — Tive dois meses imprescindíveis entre uma novela e outra. Vim de uma protagonista, de um volume de cenas gigantesco, de um trabalho intenso. Estava bem cansada, mas só precisava de um mês de férias. Depois dele, já pensava no que faria. Foi um tempo ótimo para poder me despedir da Dita, que é uma personagem com um sotaque muito específico. Ela tinha um corpo e um jeito de se comunicar muito desenhados. A transição para Nancy colocou a atriz diante de uma responsabilidade social diferente de seus trabalhos anteriores na televisão: — A Nancy é um grande desafio: uma mulher com uma carga completamente diferente da Dita e mais real. Mergulhei 100% nesta personagem a partir do momento em que me despedi da Dita. Acho que é a primeira vez que uma novela fala sobre a história de uma mulher que foi presa porque agiu em legítima defesa para se salvar de um feminicídio. Queria tratar isso com muita responsabilidade. Escolhi ser artista porque acho que a arte tem o poder de transformar e trazer reflexões. Jeniffer diz que a investigação prática guiou as escolhas estéticas para o visual das personagens, com unhas pintadas e cabelos arrumados. A atriz defende a escolha como uma representação fiel da dinâmica interna descrita pelas ex-detentas: — Nós masculinizamos muito as mulheres do presídio. A dignidade delas é tirada. Elas usam roupas de homens porque o sistema compra, em larga escala, vestimentas masculinas. Quando vão presas, raramente podem entrar com sutiã, porque pode vir a ser usado como uma arma. Lá dentro, como elas me contaram, “você vale o que tem”. Se recebe visitas e essa visita te leva o “jumbo”, que são os suprimentos, você usa aquilo como moeda de troca e tem como pagar serviços (de beleza). A nossa bolha acha que não, mas elas buscam um mínimo de dignidade dentro daquele sistema desumano. Ela pontua que a manutenção desses detalhes estéticos funcionou como uma demarcação de poder e sobrevivência de uma mulher negra e vaidosa dentro do confinamento: — A Nancy não escolheu se envolver em uma atitude criminosa. Ela reagiu a uma tentativa de feminicídio. Trazer a Nancy de unhas pintadas dentro do presídio representa poder. Na segunda fase, teremos ela de cabelo solto e luminoso, o que representa uma liberdade dupla. Além de estar saindo da cadeia, é a primeira vez que ela se vê livre da relação tóxica que era o casamento dela. Uma mulher, quando recomeça saindo de uma relação completamente abusiva, também recupera a individualidade. O convite para integrar o elenco de “Quem ama cuida” também representou a quebra de um ciclo profissional de mais de uma década, avalia Jeniffer: — Em 12 anos na Globo, nunca havia feito uma novela das 21h. Sempre almejei fazer. É a trama com mais alcance no país. É uma personagem com uma carga dramática completamente diferente. Por muito tempo, estive em uma caixa na televisão de um certo humor. Antes da Dita, fiz muitas melhores amigas da protagonista com um teor cômico. A Nancy tem um lugar dramático que quero que o público conheça. Ela vem como uma reafirmação de que também sei passear por outros gêneros. A atriz reconhece que o retorno ao papel de coadjuvante gerou questionamentos internos iniciais após ter experimentado o posto de protagonista na produção anterior: — Confesso que, num primeiro momento, o meu ego questionou o lugar. Passei muitos anos da minha carreira tentando ter uma chance de ser protagonista, como aconteceu com a Dita. No papel seguinte, voltei a ser a melhor amiga da protagonista. Concluí que a história e a missão eram muito maiores do que o ego. Vi, com a Nancy, uma oportunidade de contar uma boa história e fazer algo relevante para a sociedade. A bagagem emocional para o papel foi transformada pela experiência pessoal da atriz fora das telas. Mãe de Lara, de 2 anos, Jeniffer identifica a maternidade como divisor de águas: — Quando escolhi esta profissão, entendi que havia muitos lugares que não eram pensados para pessoas como eu. Para conseguir estar nesses espaços, precisei ser excepcional e correr muito. Durante muito tempo, quando chegava aos lugares, pedia licença para existir por saber que era a primeira mulher preta a ocupá-lo. A Jeniffer depois da maternidade parou de pedir licença. A partir do momento em que gerei um ser humano, apropriei-me da minha força feminina. Sempre tive o sonho da maternidade, e a vejo como transformadora. Existia a Jeniffer antes de ter filho e existe a Jeniffer depois. Digo até que virei uma melhor atriz após me tornar mãe, porque passei a ter uma capacidade de empatia surreal. Jeniffer, que terminou o casamento de 11 anos com o ator Jean Amorim em 2025, encara a fase de solitude como um resgate da individualidade e dos desejos: — É um momento de muita inteireza, de entender o tamanho da minha potência. O racismo traz muitas questões à nossa autoestima. Hoje, consigo ver claramente minhas virtudes. Ao sair de uma relação, isso acaba potencializando o movimento de voltar a olhar para si. As escolhas são movidas pelo que você deseja, não mais coletivas. É o período mais longo que passo solteira desde os meus 18 anos. Passei a curtir minha solitude, a viajar sozinha e resgatar coisas que amava, como visitar museus. Garanti o protagonismo da minha própria história.
Jeniffer Nascimento diz que deixou ego de lado ao topar fazer coadjuvante em novela e fala de solteirice: 'Movida pelo desejo'
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