Considerado como potencial vitrine eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o programa que prevê renegociar dívidas de autônomos que estão pagando em dia só foi lançado após consulta aos bancos públicos. A preocupação no Palácio do Planalto era que a resistência das instituições privadas ao Desenrola Adimplentes pudesse frustrar a iniciativa, que é uma aposta do petista para melhorar sua imagem frente ao público-alvo da medida. A medida só foi anunciada após informações de que as estatais teriam interesse em participar. O programa permite que até R$ 15 mil em dívidas no crédito pessoal sem garantia de trabalhadores informais sejam renegociadas com juros de até 1,99% ao mês. Atualmente, essas operações têm taxa média de cerca de 7%. É necessário ainda que o cliente tenha ao menos quatro parcelas já quitadas e que os pagamentos estejam em dia ou tenham atraso inferior a 90 dias. A expectativa do governo é de atender entre 200 mil e 500 mil pessoas. Para aumentar as chances de o Desenrola Adimplentes ser bem-sucedido, o Ministério da Fazenda incluiu no pacote a cobertura das primeiras perdas da carteira (devido a eventuais calotes nos empréstimos renegociados) pela Fundo Garantidor de Operações (FGO), com 100% de garantia por operação, e disponibilizou R$ 3 bilhões para servir como fonte parcial de recursos para os novos financiamentos. Além disso, o programa permite a portabilidade, ou seja, que qualquer banco participante renegocie as dívidas elegíveis, não só aquelas originadas na instituição. Tanto o funding público quanto a portabilidade são novidades desta fase do Desenrola e não estão previstos na iniciativa destinada a pessoas com dívidas em atraso, lançada em maio. Entretanto, desde a formulação da política, bancos privados indicaram que não tinham interesse em participar. O argumento é que o público elegível é muito limitado e não justificaria o esforço operacional, ainda mais considerando que o público está pagando em dia ou com atraso inferior a 90 dias. Quando a inadimplência supera esse prazo, os bancos são obrigados a reservar mais recursos para eventuais perdas nas operações de crédito, o que prejudica a rentabilidade. Mesmo assim, o governo decidiu bancar a medida porque os bancos públicos apontaram que, dentro da política de crédito de cada instituição, faria sentido renegociar parte da carteira. No entendimento do governo e das instituições estatais, com o funding público e a garantia do FGO, vale a pena rever alguns contratos em uma modalidade que tem juros muito elevados, para preservar bons clientes. No lançamento do Desenrola Adimplentes, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, informou que, de início, a renegociação poderia ser buscada na Caixa e no Banco do Brasil, os únicos bancos que tinham sinalizado adesão à proposta. Na prática, mesmo que só Banco do Brasil e Caixa participem, clientes com dívidas em outros bancos podem migrar para as instituições públicas, ampliando o impacto da medida. Um executivo do setor bancário observa que o governo acabou "empurrando" a iniciativa "goela abaixo" dos bancos públicos diante das indicações de que os privados não entrariam. Os interlocutores do mercado privado, no entanto, minimizam o efeito que a portabilidade pode ter diante da complexidade do processo. Os bancos participantes teriam que ter informações precisas sobre cada operação, como o saldo devedor e as condições, para conseguir fazer a renegociação. Nesse sentido, entre integrantes do mercado, o que prevalece é a percepção de que o efeito do programa deve ser pequeno. Nos bancos públicos, por sua vez, a avaliação é de que o "roubo" de clientes irá acontecer, mas só quando for vantajoso para as instituições. Questionado, o secretário de Reformas Econômicas da Fazenda, Régis Dudena, diz que nenhum banco, nem público, nem privado, será forçado a renegociar as dívidas. Mas ele acredita que a concorrência possibilitada pela portabilidade deve incentivar instituições que estão confortáveis com a situação atual a participar. O objetivo da política, diz Dudena, é "achatar" as taxas de quem paga muito e conseguir mantê-los na adimplência. — Uma coisa é você dizer: "Olha, o banco está disposto a avaliar". Até aqui, eu acho que ter uma estatal nos ajuda. Por isso que este governo acha que em alguns casos ter uma estatal pode ser benéfico. Mas se a linha de crédito vai ser implementada na vida real, na operação pessoa por pessoa, isso é análise de cada instituição financeira. Ela vai levar em consideração a sua política, seu apetite a risco, não vai ter uma ingerência — afirmou ele. Outras medidas Essa não é a primeira vez que o governo conta com a participação dos bancos públicos nas medidas consideradas bandeiras eleitorais de Lula. São exemplos os programas para compras de motos para entregadores e carros para taxistas ou motoristas de aplicativo e o próprio Desenrola para inadimplentes. Nessas outras iniciativas, porém, parte das instituições privadas também se interessou e participa dos programas. Como mostrou o colunista Fábio Graner, o saldo de crédito dos bancos públicos já cresce em ritmo mais alto em 2026 até maio (último dado do BC) em relação aos privados, 3,1% contra 1,8%. Em nota, o Banco do Brasil afirma que reconhece a relevância das medidas anunciadas para estímulo à adimplência e que conduz ajustes para operacionalizar a linha, observando as avaliações técnicas e políticas operacionais para concessão de crédito da instituição. "O Banco do Brasil reafirma seu compromisso com a oferta responsável de crédito, alinhada às suas políticas internas, e o apoio aos clientes na gestão de suas finanças", diz o BB. A Caixa não se manifestou. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) diz, em nota, que a possibilidade de "roubar" operações no Desenrola Adimplentes "não altera significativamente a dinâmica concorrencial já existente no mercado de crédito". Na avaliação da associação, deve funcionar de maneira similar à portabilidade tradicional. "Cabe destacar que a decisão de migrar a operação permanece condicionada ao interesse do cliente e à aprovação da instituição que concederá o novo crédito", afirmou. Já a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) disse enxergar que o potencial de adesão das instituições financeiras tende a ser mais limitado do que o Desenrola para inadimplentes. "Nesse contexto, a participação será uma decisão de cada banco associado, observadas as condições da nova linha, as políticas de crédito da instituição, suas estratégias de negócio e critérios próprios de avaliação de risco."
Governo usa bancos públicos para driblar resistência de instituições privadas à vitrine eleitoral de Lula
Até o momento, só Caixa e Banco do Brasil indicaram que vão aderir ao Desenrola para autônomos que estão com os pagamentos das dívidas em dia








