Sem água nem luvas, e apenas com álcool em gel, paramédica auxiliou parto iluminada por lanternas de celulares que ainda tinham bateria 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Bebê nasce entre escombros de duplo terremoto que abalou a Venezuela — Foto: Paula Ramon/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/07/2026 - 01:38 Mulher dá à luz em campo de beisebol após terremotos na Venezuela Em meio ao caos causado por dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 na Venezuela, Eliana García deu à luz em um campo de beisebol. Grávida de 38 semanas e com cesariana marcada, Eliana entrou em trabalho de parto sem recursos médicos adequados. Com a ajuda de uma paramédica e a luz de celulares, ela teve um menino, Gael Jesus. A tragédia dos tremores deixou mais de 3.600 mortos e parte da família de Eliana desaparecida. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os médicos haviam dito a Eliana García que seu primeiro filho teria de nascer por cesariana. Mas, quando as contrações começaram antes do previsto enquanto ela se abrigava com a família do violento terremoto duplo que sacudiu a Venezuela, não lhe restou alternativa senão dar à luz. Grávida de 38 semanas, Eliana correu para um campo de beisebol na tarde de 24 de junho, quando dois fortes terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o estado de La Guaira, na costa venezuelana. Ali, ela e dezenas de pessoas buscaram refúgio para evitar as ruas ladeadas por prédios que desabavam como um pesado efeito dominó, quando a jovem de 19 anos sentiu um líquido escorrer entre suas pernas. Os médicos haviam dito à mãe de primeira viagem que ela não poderia ter um parto normal por possuir a pelve estreita. Uma cesariana estava marcada para a semana seguinte, mas as contrações começaram. "Sentia uma vontade enorme de fazer xixi. Mas eu fazia força e fazia força, e, como não saía nada, entendi que o bebê estava vindo", contou García à AFP em um abrigo. Eliana García deu à luz seu primeiro filho entre escombros de duplo terremoto que abalou a Venezuela — Foto: Paula Ramon/AFP Ela foi deitada sobre o único lençol que conseguiram retirar em meio à correria, em um gesto instintivo de proteção por causa do estágio avançado da gravidez. Era a madrugada de 25 de junho. No escuro e descalça, sua cunhada, Julia Di Giuseppe, saiu em busca de ajuda. Ao redor delas, a cidade costeira que, em circunstâncias normais, estaria celebrando a festa de São João, era um cenário de gritos, choros, socorristas escalando os escombros para resgatar pessoas presas em edifícios e motocicletas ziguezagueando entre os destroços. Sem água nem luz Ninguém atendeu aos pedidos de socorro de Julia, que voltou ao campo de beisebol a tempo de ouvir que sua cunhada estava dando à luz. "Foi então que implorei a uma paramédica que estava procurando seus familiares entre os escombros, e ela resolveu ajudar", conta a mulher de 37 anos. Sem água nem luvas, e apenas com álcool em gel, a paramédica auxiliou o parto iluminada pelas lanternas dos celulares que ainda tinham bateria. Eliana, cercada por dezenas de pessoas que esqueceram por alguns segundos seus próprios dramas, começou a fazer força, em meio às réplicas do terremoto duplo. O bebê, um menino para surpresa da família, que esperava uma menina, nasceu, mas não chorou. Uma salva de aplausos o teria feito chorar, ou pelo menos é assim que Julia se recorda. "Ali não tínhamos como cortar o cordão umbilical, e as pessoas começaram a tirar os elásticos de cabelo, amarramos o cordão em duas extremidades e, com bastante álcool, conseguimos cortá-lo com uma tesourinha de unhas." Imagens de satélite mostram antes e depois de área mais devastada por terremotos na Venezuela 1 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 2 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 4 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 5 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 6 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade Governo interino declarou a região do estado de La Guaira como 'zona de desastre' García não se lembra de mais nada a partir daquele momento. Seus familiares a carregaram como puderam: primeiro nos braços, depois em uma carroça motorizada e, por fim, em uma ambulância que a levou a um hospital público. Sobrecarregados pelos feridos dos terremotos, os médicos a atenderam, mas não havia vacinas para imunizar o bebê. Toda a família foi transferida para uma escola pública que serve de abrigo em La Guaira, a região costeira mais atingida pelo terremoto duplo, que já soma mais de 3.600 mortos, segundo números oficiais. Julia cai em prantos ao olhar para o bebê enquanto a mãe o amamenta: "Salvamos ele, mas perdemos nossas duas sobrinhas." As meninas, de 14 e 11 anos, foram encontradas entre os escombros do conjunto habitacional onde moravam. Desfiguradas por toneladas de concreto, o pai as reconheceu apenas pela pulseira prateada que a mais velha usava no braço. A mãe das meninas, que é irmã de Eliana, e um sobrinho continuam desaparecidos, algo que não dá paz à família. Eliana já havia escolhido o nome daquela que acreditava ser sua primeira filha. Mas, caso as previsões estivessem erradas e nascesse um menino, pretendia chamá-lo de Daniel Eduardo. "Mas minha irmã sempre dizia para eu colocar Gael", diz a jovem. "Então, por causa dela, decidi chamá-lo de Gael Jesus. É a minha maneira de mantê-la aqui."