Chip teria sido projetado para inferência, uma etapa da computação em IA na qual um modelo já treinado gera respostas para os usuários, e não para o treinamento de novos modelos A startup chinesa DeepSeek está desenvolvendo seu próprio chip de inteligência artificial, segundo três pessoas familiarizadas com o assunto, em um movimento que pode reduzir sua dependência dos chips da Nvidia e da Huawei, dos quais a empresa depende para treinar e executar seus modelos, populares em todo o mundo. Segundo as fontes, o chip foi projetado para inferência — etapa da computação em inteligência artificial na qual um modelo já treinado gera respostas para os usuários — e não para o treinamento de novos modelos. Se for bem-sucedida, a expansão da DeepSeek para o desenvolvimento de semicondutores representará uma importante mudança estratégica para uma empresa amplamente considerada na China como a principal referência nacional em inteligência artificial, podendo aumentar os desafios enfrentados pela gigante chinesa de tecnologia Huawei. A DeepSeek ganhou fama mundial há mais de um ano, após lançar dois modelos de inteligência artificial altamente eficientes que se tornaram virais em todo o mundo, surpreendendo muitos profissionais do Vale do Silício e de Washington. A empresa é conhecida há muito tempo por priorizar avanços em modelos de inteligência artificial, em vez de focar na comercialização de sua tecnologia. Embora os produtos da Huawei ainda estejam muito atrás dos chips mais avançados da Nvidia, a proibição dos Estados Unidos à exportação desses chips para a China ajudou a Huawei a conquistar cerca de metade do mercado doméstico de chips de inteligência artificial, estimado em US$ 50 bilhões, fornecendo produtos para a DeepSeek e diversos outros líderes do setor. No entanto, o domínio da Huawei nesse mercado já começa a enfraquecer, à medida que rivais tecnológicos como Alibaba e Baidu desenvolvem seus próprios chips de inteligência artificial e conquistam participação de mercado. Segundo as três fontes, o esforço da DeepSeek para entrar nessa corrida ainda está em estágio inicial. A empresa está buscando parceiros externos e mantendo conversas com empresas de projeto de chips, fabricantes de semicondutores e fabricantes de memória. De acordo com uma das fontes, esse trabalho começou há cerca de um ano. A empresa, sediada em Hangzhou, também intensificou nos últimos meses a contratação de engenheiros especializados em projeto de chips, mas esse recrutamento vem sendo realizado de forma discreta, sem anúncios em plataformas públicas de vagas, afirmaram duas das fontes. As três pessoas pediram anonimato porque as informações ainda não são públicas. Apesar de ter se tornado um símbolo das ambições chinesas em inteligência artificial, a DeepSeek mantém um perfil discreto. A empresa não respondeu a um pedido de comentário. Com um chip próprio, a DeepSeek se juntaria a outros desenvolvedores globais de inteligência artificial que buscam maior controle sobre o hardware utilizado por seus modelos e menor dependência da Nvidia. No mês passado, a OpenAI apresentou o Jalapeno, seu primeiro chip próprio para inferência, desenvolvido em parceria com a Broadcom. Já a Anthropic avalia desenvolver seus próprios chips de inteligência artificial, informou a Reuters em abril. Para a DeepSeek, essa iniciativa também tem uma dimensão estratégica adicional. Os controles de exportação dos Estados Unidos impedem empresas chinesas de comprar os chips mais avançados da Nvidia, enquanto Pequim vem pressionando suas empresas de tecnologia a desenvolver alternativas nacionais. Em uma rara entrevista concedida em 2024 a um veículo de comunicação chinês, o fundador da DeepSeek, Liang Wenfeng, afirmou que os controles sobre a exportação de chips representam um desafio para a empresa. A DeepSeek utiliza tanto chips da Nvidia quanto da Huawei. A empresa informou que o modelo fundamental que serviu de base para o R1 — modelo de raciocínio cujo desempenho de baixo custo desencadeou uma forte queda nas ações de tecnologia dos Estados Unidos em janeiro de 2025 — foi treinado utilizando o H800, da Nvidia, um chip desenvolvido para o mercado chinês que Washington proibiu no fim de 2023. Desde então, a empresa passou a depender cada vez mais da Huawei. Em abril, lançou seu modelo V4 adaptado para os chips Ascend da Huawei, e a fabricante chinesa informou que seus processadores foram utilizados em parte do treinamento do V4-Flash, uma versão mais leve do modelo. Segundo a Reuters, os pedidos pelos chips Ascend 950 da Huawei dispararam entre conglomerados chineses de tecnologia após esse lançamento. Um chip de inferência da DeepSeek teria como alvo o segmento de crescimento mais acelerado da demanda por computação em inteligência artificial. À medida que as aplicações de IA se expandem, uma parcela cada vez maior da capacidade computacional do setor deixa de ser destinada ao treinamento de modelos e passa a ser utilizada para executá-los, o que depende de chips especializados, que podem ser mais baratos e consumir menos energia do que as unidades de processamento gráfico (GPUs) de uso geral. No entanto, não há garantia de sucesso. Projetar um chip competitivo para inteligência artificial normalmente exige anos de desenvolvimento e investimentos significativos. A fabricação também representa um obstáculo, já que os Estados Unidos proíbem empresas chinesas de projeto de chips de acessar as fundições de semicondutores mais avançadas do exterior. Além disso, outras restrições impostas por Washington reduziram o acesso da China às memórias de alta largura de banda (HBM, na sigla em inglês), um componente essencial para chips de inferência em inteligência artificial. O desenvolvimento do chip também coincide com a primeira abertura da DeepSeek para receber capital externo. Segundo informou a Reuters em junho, a empresa estava prestes a captar US$ 7 bilhões em sua primeira rodada de financiamento, em uma operação que a avaliaria entre US$ 52 bilhões e US$ 59 bilhões, revertendo uma estratégia de vários anos de rejeição a investimentos externos. Deepseek — Foto: Bloomberg