Sonho da casa própria fica mais distante para a classe média e aluguel dispara no PaísNúmero de inquilinos cresce, custo de locação aumenta e segmento fica espremido entre juros e dificuldade de compra. Crédito: EstadãoGerando resumoA disparada da inflação da construção civil pegou de surpresa o mercado imobiliário e pode ser mais um complicador para as vendas do setor, que já enfrenta a barreira dos juros elevados. Com a guerra no Oriente Médio, aumentaram os preços das matérias-primas de vários materiais usados para erguer edifícios.PUBLICIDADEEssa alta de custos dos materiais, antes fora do radar das construtoras e incorporadoras, pode pressionar os orçamentos das obras em andamento e levar a uma correção de preços dos imóveis.Isso pode atingir diretamente também os interessados em comprar um apartamento na planta, já que a pressão de custos turbina o índice que corrige o valor das prestações e pode adiar o sonho da casa própria.PublicidadeAté fevereiro, antes do início da guerra, a perspectiva era de que a inflação geral da construção civil em 2026 ficasse próxima da registrada no ano passado.Em 2025, o Índice Nacional da Construção Civil (INCC) - Disponibilidade Interna (DI), apurado no mês fechado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), teve alta de 5,9%. Agora, porém, as projeções para o ano de 2026 estão de um a dois pontos porcentuais acima dessa marca. A consultoria 4intelligence projeta que o INCC-DI encerre 2026 em 8,3%, com alta de 9% nos preços dos materiais e serviços e de 7,5% na mão de obra. No ano passado, a inflação dos materiais e serviços havia sido de 3,8%; e da mão de obra, 9%.PublicidadeSe a estimativa para o INCC-DI deste ano se confirmar, será o maior resultado do indicador desde 2022 (9,3%), observa Fabio Romão, economista sênior da consultoria.Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos de Construção do FGV Ibre, calcula que o INCC feche este ano próximo de 7% e antes da guerra esperava que o indicador acompanhasse a inflação geral do País, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), projetada em 5,30%, de acordo com o mais recente Boletim Focus do Banco Central. “Acho que (o INCC) vai ficar acima do ano passado, mesmo com a desaceleração da mão de obra, por conta do componente materiais e equipamentos.”Alta inesperada de preços dos materiais de construção pressiona orçamento das construtoras Foto: Tiago Queiroz/EstadãoOs materiais e os serviços respondem por mais da metade (58%) do INCC e, no curto prazo, em abril e maio a pressão de preços nesse grupo por causa da guerra ficou nítida. A inflação dos materiais foi de 1,35% em abril e de 1,15% em maio. PublicidadeNas contas de Romão, esses resultados ficaram muito acima da mediana da inflação dos preços dos materiais e serviços dos últimos dez anos, de 0,40% para os meses de abril e de 0,23% para maio. Ana Maria ressalta que a imprevisibilidade da inflação do setor no momento está sendo dada pelos preços dos materiais de construção.Mesmo que o conflito no Oriente Médio cesse definitivamente, Romão acredita que o estrago da guerra nos preços dos materiais de construção está feito. “Pode, de algum modo, ter alguma moderação na evolução desses preços em 2027, agora em 2026 é lógico que está dado”, diz ele.A economista da FGV concorda com Romão. “É difícil que a alta seja devolvida.” Ela acredita que os custos da construção vão continuar evoluindo acima da inflação geral medida pelo IPCA. PublicidadeDescolamento entre a inflação geral e a do setor preocupaPUBLICIDADEO mundo ideal para a incorporação imobiliária é o no qual os custos do setor acompanhem a inflação geral da economia. Isso porque, dessa forma a população que tem o salário corrigido pelo índice geral de inflação consegue manter o seu poder de compra para fazer frente às prestações de um imóvel na planta.O que se vê hoje, no entanto, é um descolamento entre a inflação geral e a inflação do setor. Ao lado da taxa básica de juros elevada, hoje em 14,25% ao ano, esse descolamento é outro obstáculo aos negócios, tanto para as construtoras e incorporadoras quanto para o brasileiro que deseja comprar a casa própria.“Nós temos a expectativa de ter um aumento do INCC maior do que o aumento da inflação, os materiais estão subindo mais que a inflação”, afirma Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP.PublicidadeGuardadas as devidas proporções, Petrucci observa que o momento atual de descolamento entre a inflação geral (IPCA) e o a inflação do setor (INCC) é um pouco parecido com o que aconteceu na pandemia. Em 2021, o IPCA foi de 10,06% e o INCC-DI atingiu 13,84%, uma diferença de quase quatro pontos porcentuais.Para Petrucci, o aumento de custos é “bastante preocupante, mas não a ponto de dar desespero.” Ele observa que o impacto da alta de custos para as construtoras depende do estágio do andamento da obra e da fatia de imóveis vendidos. Quanto mais adiantada a obra estiver e maior for a parcela de imóveis vendidos na planta, mais as construtoras estarão preservadas da elevação abrupta de custos. O economista também não acredita que o aumento no índice de reajuste das parcelas do imóveis vendidos na planta fará o comprador desistir de fechar negócio. Ele argumenta que, em termos absolutos, isto é, em reais, o acréscimo na prestação por conta da correção será pequeno.PublicidadeDe toda forma, nos últimos 12 meses até abril, a velocidade de vendas de imóveis novos na cidade de São Paulo, o principal mercado do País, sobre a oferta, acumula queda de 10,1%, segundo pesquisa do Secovi-SP.A retração é mais acentuada entre as famílias de classe média, com renda mensal entre R$13 mil e R$ 30 mil, muito afetadas pela taxa de juros elevada, diz Petrucci. “Tem uma queda que era anterior a (pressão de custos) e que já vem acontecendo desde o semestre passado.” ‘É uma luz amarela’, diz CEO de incorporadoraCom sete empreendimentos de médio e alto padrões na cidade de São Paulo, Claudio Carvalho, CEO da AW Realty Incorporadora, diz que, apesar da puxada no INCC por causa da alta de preços de materiais, como tubos e conexões de PVC, aço, cimento, argamassa e bloco de concreto, entre outros, não está tendo problemas em suas obras nem necessidade de aumentar preços dos imóveis.PublicidadeA incorporadora já trabalhava com perspectiva de um INCC para este ano de 7%, a 8%, que comporta essa alta recente de custos dos materiais. “A gente aprendeu a colocar sempre um pouquinho de gordura, tanto em relação a inadimplência, quanto em relação a custo de obra”, conta o empresário.No entanto, ele tem visto algumas empresas do setor uma preocupação um pouco maior do que o normal com os custos. São companhias que tinham como referência em seus orçamentos um INCC de 6% para este ano. “Mas, no geral, ainda não é uma luz amarela, a gente tem de acompanhar para ver como é que vai se desenrolar nos próximos meses”, pondera.Ana Castelo diz que em princípio, não tem notícias de que esteja havendo atraso ou paralisação de obras por causa dessa alta inesperada de custos. Mas ela destaca que quem está fazendo obra — construtora, incorporadora ou até pessoa física tocando uma reforma — pode ter o orçamento estourado porque os materiais estão mais caros.PublicidadeEm maio, por exemplo, tubos e conexões de PVC ficaram 2,82% mais caros, depois de terem subido 5,11% em abril, aponta o INCC. A massa de concreto teve alta 1,39% e já tinha aumentado 4,39% mo mês anterior. O cimento Portland comum, outro material básico, subiu 2,51% em maio e tinha sido reajustado em 3,02% em abril.“A construtora ou incorporadora vai repassar o INCC para o valor da obra, mas ela está preocupada, obviamente, com a capacidade de pagamento de quem comprou o imóvel”, observa Ana Maria.No caso dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida, programa habitacional do governo e um dos pilares de crescimento do mercado atualmente, como o valor do imóvel é determinado e não pode ser ajustado, uma alta inesperada de custos comprime ainda mais as margens das construtoras, explica a economista. PublicidadeSaídas para atenuar alta de custosUma das saídas para compatibilizar a alta de custos da construção com os orçamentos traçados pelas construtoras antes da guerra e a capacidade compra dos brasileiros seria diversificar os fornecedores.Essa alternativa, no entanto, na maioria das vezes, não é viável. No caso do aço, exemplifica Carvalho, da AW Realty, só há dois fornecedores, a Gerdau e a Arcelor. “Não tem muita opção, não tem para onde correr.”Leia tambémAlexandre Schwartsman: O Banco Central ainda quer cortar o juro; a realidade, nãoTrabalho intermitente avança e pode ganhar força com a escala 5x2Mercado reduz projeção para inflação, que permanece acima do teto da meta do BCPetrucci, do Secovi-SP, reforça a avaliação de Carvalho. Diz que um dos problemas do País hoje é ter poucos fornecedores para insumos básicos usados na construção, como aço, concreto, tubos, por exemplo.PublicidadePor conta dessas restrições, as empresas do setor tentam inovar os métodos construtivos. “O nosso setor passa por um processo de inovação e de industrialização e acho que cada vez mais as construtoras vão continuar buscando isso. A cada três, quatro, cinco anos, a gente tem o INCC se descolando da inflação”, observa o economista do Secovi-SP. Uso da IA para construir busca menor gastoPara escapar da imprevisibilidade da alta de custos de materiais básicos e das ineficiências de construção civil, estão surgindo alternativas que usam a inteligência artificial para erguer imóveis de forma mais econômica. A construtech GetHome é uma delas.Vinícius Bozzi Nonato (C), CEO da GETHome, Vicente Bosi Nonato (E), Head de Engenharia e Túlio Philipe Vieira (D), Head de IA, executivos da construtech que ajuda a reduzir custos de construção Foto: Alexandre Gonçalves de Araujo/DivulgaçãoA startup que recentemente entrou em operação se propõe a dar previsibilidade de orçamento e de prazo na produção de casas de alto padrão, com uso de IA. “A gente queria dar garantias de quanto o imóvel vai custar e quando ele vai ficar pronto”, diz Vinícius Bozzi Nonato, CEO e um dos fundadores. Na plataforma, o cliente escolhe o projeto da casa e os materiais de acabamento. Com o uso da IA, é feita a cotação dos materiais. E, como a compra é em grande escala, é possível obter preços menores.Conforme Nonato, o custo para erguer a casa fica, em média, 10% abaixo dos imóveis semelhantes feitos por construtoras tradicionais e a execução da obra não passa de 12 meses, a metade da média do setor.