A menos de quatro meses das eleições presidenciais, a distribuidora Europa Filmes entrou com o pedido de registro de “Dark Horse” na Agência Nacional de Cinema (Ancine). Este é o primeiro passo para o lançamento comercial nos cinemas brasileiros do polêmico filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Procurada pelo blog, a Ancine informou que a Europa Filmes apresentou no dia 22 de junho o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) para “Dark Horse”, já esclarecendo, portanto, que não se trata de um filme nacional. A notícia vem à tona após uma proposta para lançar o filme no Brasil ter sido recusada pela Paris Filmes, uma das maiores distribuidoras nacionais, com um catálogo que inclui as franquias “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”. A Europa Filmes só pode lançar o filme após o registro ser autorizado pela Ancine e cumprir uma série de outras etapas burocráticas, como a emissão do Certificado de Registro de Título pela própria Ancine e o recebimento da classificação indicativa no Ministério da Justiça. Em média, a análise do pedido de registro de um filme demora em torno de 30 dias, mas no caso de “Dark Horse” o prazo pode ser maior, já que a Ancine ainda aguarda esclarecimentos sobre as filmagens no Brasil, que não teriam sido previamente comunicadas à agência — o que, no limite, pode até levar a um impasse e inviabilizar a estreia do filme nos cinemas. A garantia de uma distribuidora também está longe de encerrar toda a controvérsia em torno de “Dark Horse”, cujo nebuloso financiamento se tornou um dos maiores focos de desgaste para a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, após o site Intercept Brasil divulgar mensagens em que o filho 01 de Bolsonaro cobra dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do longa-metragem. Além da distribuidora, é preciso que as cadeias de cinema se interessem pelo filme. Conforme informou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, as grandes redes querem distância de “Dark Horse”, por temerem que a cinebiografia seja um fiasco de bilheteria, além de acirrar os ânimos entre bolsonaristas e lulistas, transportando a polarização política para as salas de cinema, com riscos de confusão e protestos em shoppings de todo o país. Um trailer oficial divulgado no mês passado indica o tom do filme, que está sendo vendido como uma espécie de thriller político ambientado durante as eleições presidenciais de 2018. O elenco é predominante estrangeiro, capitaneado pelo ator Jim Caviezel, célebre por interpretar Jesus Cristo em “A paixão de Cristo” e estrelar “O conde de Monte Cristo”. Já Michelle Bolsonaro é vivida por Camille Guaty, que já fez participação no seriado "The Good Doctor: O bom doutor”. Os diálogos são em inglês, em uma estratégia para ampliar as chances comerciais do filme no exterior. No material de divulgação, Bolsonaro é chamado de “voz do povo” que “enfrentou o sistema”, “sistema que falhou em silenciá-lo”. A maior parte das cenas envolve a recriação do episódio da facada que o então candidato do PL à Presidência sofreu em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), e a sua recuperação médica. Produtora nunca lançou filme Não apenas o financiamento de “Dark Horse” é cercado de interrogações. Proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior, conforme informou a equipe do blog. Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes. O instituto tem registro na Ancine desde 2020 mas também nunca lançou um filme nem no Brasil nem no exterior. Em ofícios enviados à Go Up em fevereiro e março deste ano – antes, portanto, de virem à tona as mensagens e áudios de Flávio cobrando financiamento de Daniel Vorcaro –, a Superintendência de Fiscalização da Ancine notificou a produtora a “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e destacou que a medida “é uma obrigação” prevista em instrução normativa da agência, em vigor desde 2008, que fixa as balizas para a produção de filmes estrangeiros no território nacional. A Ancine quer esclarecer, entre outras coisas, se a Go Up era a principal produtora de Dark Horse ou se foi apenas contratada por uma empresa estrangeira. Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na Ancine, a quem caberá comunicar a agência e apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso foi feito no caso de “Dark Horse”, o que pode atrasar a análise do pedido de registro do longa-metragem. Fundo obscuro O filme se tornou munição para aliados de Lula – e virou uma dor de cabeça para a campanha do senador bolsonarista, respingando no seu desempenho nas pesquisas de opinião, antes de surgirem as mais recentes revelações de que o líder do governo Lula no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel de R$ 2,45 milhões em Salvador como propina do Master. Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos. Petistas tentaram impedir estreia de filme até eleições Antes mesmo de conseguir uma distribuidora, a estreia de “Dark Horse” já havia sido judicializada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Após a publicação de uma série de reportagens do Intercept Brasil, o grupo Prerrogativas e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), ambos aliados do presidente Lula, acionaram em maio o TSE para pedir a abertura de uma investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, além de impedir o lançamento de “Dark Horse” até o fim das eleições. A alegação era a de que o filme poderia funcionar como “peça de comunicação política de enorme impacto”, além de configurar propaganda eleitoral “dissimulada”, financiada por recursos milionários de “origem suspeita”, com indícios de abuso de poder econômico, uso indevido dos meios de comunicação, caixa 2, doação empresarial indireta e lavagem de dinheiro. No mês passado, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, arquivou o caso por questões processuais, alegando que os autores da ação não tinham legitimidade. Agora, o julgamento que resta a “Dark Horse” é o do público.
Dark Horse: Distribuidora pede registro de filme na Ancine, 1º passo para lançá-lo nos cinemas
Dark Horse: Distribuidora pede registro de filme na Ancine, 1º passo para lançá-lo nos cinemas
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