Quinze concursos públicos no Estado do Rio já definiram suas bancas organizadoras e somam 4.383 vagas confirmadas, segundo levantamento do Gran Concursos . As oportunidades vão do nível fundamental ao superior, com salários de R$ 2.500 (Câmara de Nilópolis) a R$ 26,9 mil (delegado da Polícia Civil). Mesmo que a maioria desses certames ainda não tenha edital publicado — as exceções são os processos seletivos da Secretaria Municipal de Educação de Saquarema e da Câmara Municipal de Nilópolis —, especialistas apontam a definição da banca organizadora como o momento ideal para iniciar os estudos. Vale frisar que três seleções com banca definida ainda não tiveram a definição do número de vagas. Os maiores volumes estão na Prefeitura de Saquarema, com 1.794 vagas — dessas, 526 ainda esperam a publicação do edital — para áreas de educação, saúde e operacional, organizadas pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam); e no Corpo de Bombeiros, com 1.500 chances temporárias em áreas técnicas, a cargo do Instituto AOCP. A principal recomendação dos especialistas é unânime: não esperar o edital. — Estudar antes da publicação do edital faz o candidato ganhar um diferencial competitivo em relação ao seu concorrente — orienta Diego Fontes, diretor de Mentoria do Gran Concursos. Quais disciplinas priorizar O ponto de partida é escolher uma área de atuação e se aprofundar nas disciplinas específicas daquela carreira. Tentar conciliar estudos para segmentos muito distintos — policial e fiscal, por exemplo — dispersa o esforço e compromete o resultado. Diego Fontes, diretor de Mentoria do Gran Concurso, orienta que estudantes evitem estudar para duas áreas distintas ao mesmo tempo — Foto: Divulgação/Gran Concursos — Não adianta querer conciliar um concurso de carreira policial com um concurso de área fiscal, porque são disciplinas muito distintas. Quando o candidato escolhe uma área, com o tempo ele vai ficando afiado, vai melhorando o repertório naquelas disciplinas que sempre caem — explica Diego Fontes. Em relação às disciplinas básicas, Lucas Lemos, professor da mesma instituição, explica que há um tripé de matérias que aparece na maior parte dos concursos, independentemente da área: — As três matérias iniciais são inegociáveis: Língua portuguesa, Direito Constitucional e Direito Administrativo. Depois vem raciocínio lógico e matemática. Além disso, informática se destaca como um grande diferencial. O especialista alerta que a Língua Portuguesa, presente em todos os certames, costuma ser a disciplina mais subestimada: — Muitos não valorizam porque acham que já estudaram a vida inteira. Mas o português de concurso é completamente diferente. O que eu tenho mais visto são alunos irem muito bem nos conhecimentos específicos e não irem bem nos conhecimentos básicos, com peso grande em língua portuguesa. O que estudar em cada área Com base nos concursos do levantamento, os especialistas orientam o que priorizar em cada segmento. Para quem mira carreiras policiais — como delegado da Polícia Civil ou guarda municipal de São Gonçalo —, Diego Fontes, do Gran Concursos, indica: — As carreiras policiais geralmente cobram mais Direito Penal e Processo Penal. Já para a área de educação, que concentra boa parte das 1.794 vagas de Saquarema, o foco muda. — Língua Portuguesa e Informática têm caído muito em concursos para professores. Já Matemática não cai nos conhecimentos básicos — destaca o professor Lucas Lemos. Para concursos legislativos, como a Câmara de Nilópolis, o perfil também é específico: regimento interno, Direito Administrativo e conhecimentos da instituição costumam ter peso maior. Na área administrativa — Seplag, SES, Teatro Municipal —, além do tripé básico, entra Administração Pública como conhecimento específico. Começo de estudos antecipado Renata dos Santos, de 48 anos, não esperou o edital sair para começar a se preparar. Com foco na área de controle, ela estuda para o concurso do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) — que ainda não tem banca definida — e acompanha oportunidades em órgãos com perfil semelhante, como o TCM e Controladorias. Renata dos Santos, de 48 anos, foi aprovada em concurso da Alerj e aguarda a classificação final — Foto: Arquivo pessoal — A ideia é que, quando o edital sair, o tempo seja para revisões e esclarecimentos pontuais, e não de começar do zero — explica. A rotina, porém, está longe de ser simples. Sem emprego no momento e mãe de dois filhos, Renata estuda sem horário fixo, aproveitando qualquer janela que aparece. — Tem dias que consigo estudar pela manhã, outros à noite ou início da madrugada. Mas nunca deixo de estudar, nem que eu faça apenas questões. Sempre de segunda a segunda — conta. — Além do fato das contas não fecharem, o que gera muita preocupação e prejudica o foco, divido o tempo de estudos com a rotina da casa. Alguns dias são exaustivos. A estratégia já deu certo em outro concurso. Renata foi aprovada nas provas objetiva e discursiva do certame da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e aguarda a classificação final. Entenda os métodos das bancas Cada banca organizadora tem um estilo de prova. Victor Tanaka, especialista do Estratégia Educacional, alerta para um erro comum entre concurseiros: — É pensar que vale a pena fazer questões de várias bancas ao mesmo tempo. Depois que a banca é definida, isso não costuma ser a melhor estratégia. Cada banca tem um estilo próprio de elaborar as provas, uma forma específica de cobrar o conteúdo e certas características que acabam se repetindo — afirma. A mais temida, segundo o especialista, é a Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pelos concursos da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários, Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro (Agetransp) e Polícia Civil (peritos e piloto policial). — Em provas da FGV, você tem que interpretar o enunciado com muito cuidado porque tem muita pegadinha. Se coloco a FGV e a Cesgranrio lado a lado, são bancas totalmente diferentes uma da outra — compara Lucas Lemos. O professor Lucas Lemos, do Gran Concursos, aponta as características das bancas escolhidas pelos órgãos públicos do Rio — Foto: Divulgação/Gran Concursos A Cesgranrio, que organizará o concurso de delegado da Polícia Civil, tem perfil oposto: perguntas claras, sem armadilhas, com foco em gramática e análise textual na prova de português. — A Cesgranrio não tem pegadinha. É papo reto: ela faz a pergunta de forma clara e você tem que dar a resposta — descreve Lemos. Segundo o especialista, o Instituto Assessoria em Organização de Concursos Públicos (AOCP), organizadora do concurso dos Bombeiros (1.500 vagas temporárias), produz provas com textos longos. Já o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), responsável pelas 1.794 vagas de Saquarema, trabalha com interpretação literal e costuma testar o candidato com pequenas alterações no texto da norma. — A banca vai fazer a pergunta de forma muito literal. Se mudar, pega uma palavra e altera. Às vezes troca lá: é prescindível, troca por imprescindível — exemplifica Lucas Lemos. O professor também destaca que, quando o candidato esgotar o banco da sua banca, pode buscar organizadoras com perfil semelhante: a Idecan é próxima do Ibam e a Instituto Americano de Desenvolvimento (Iades) se assemelha à AOCP. A Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (Vunesp), muito comum em São Paulo, também pode servir de base complementar. Bancos de questões online, como o Gran Questões e o QConcursos, permitem filtrar por banca, disciplina, assunto e ano. Estratégia bem-sucedida O servidor Keni Wilson Mattos, de 40 anos, transformou horas de ônibus e trabalho braçal em tempo de estudo. Ele trabalhava como jardineiro quando decidiu prestar concurso, em 2018. No ano seguinte, foi aprovado na Defensoria Pública na primeira tentativa. O servidor Keni Wilson Mattos, de 40 anos, já passou para quatro concursos aproveitando o conhecimento de estudos anteriores — Foto: Arquivo pessoal A rotina, no entanto, era pesada. Keni saía de casa às 6h, pegava o ônibus e escutava os áudios das aulas do dia anterior. — Eu trabalhava com a roçadeira, botava o abafador e o fonezinho por baixo. Ficava ouvindo a aula o dia inteiro — conta. — Quando chegava à noite, tirava dez minutinhos para revisar a aula do dia anterior e depois começava o estudo do dia. Além da Defensoria, ele foi convocado pela Prefeitura de São João da Barra, passou na Caixa Econômica Federal e, mais recentemente, no Ministério Público da União (MPU). A virada de chave, segundo ele, foi perceber que as matérias se conectavam entre os concursos. — Como as matérias eram parecidas, aproveitei o conhecimento — ensina. Inteligência artificial como aliada Para leis estaduais ou municipais específicas que nunca caíram em prova, Diego Fontes recomenda o uso de inteligência artificial, especialmente o NotebookLM, do Google. — Você sobe a lei, orienta a IA a criar questões com as características daquela banca e resolve. É útil sobretudo para legislações específicas, que não têm questões anteriores — explica. Segundo o diretor de Mentorias do Gran Concursos, a ferramenta permite que o candidato insira a lei como fonte e peça à IA que gere questões no estilo da organizadora, com baixo risco de "alucinação", já que a IA se baseia apenas no documento fornecido. — Você pode ainda pedir que a IA gere flashcards (cartões de estudo interativos), mapas mentais e resumos — conta Fontes. Mais seleções à vista Além dos 15 concursos com banca definida, ao menos seis seleções no estado estão em fase de comissão formada, um estágio anterior que já sinaliza que o certame vai acontecer. A comissão formada é constituída quando o órgão já tem autorização legal e orçamento aprovado para realizar o concurso. Um grupo de servidores internos é designado para elaborar o projeto básico do edital — definindo número de vagas, setores contemplados, salários e etapas do processo seletivo — antes de contratar a banca organizadora. — A comissão tem a visão interna do órgão: sabe onde falta gente, quais setores precisam de reforço. É um passo intermediário importante, um indicador de que o trem está andando — explica Diego Fontes. Estão nessa fase a Procuradoria-Geral do Estado (PGE-RJ), o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ), o TCE-RJ e dois certames da Polícia Militar (PMERJ) — para oficial e soldado. Já a Emater e o Procon Niterói foram liberados para abrir seleções de novos servidores e, por esse motivo, podem formar comissões. Para o concurseiro, a comissão formada é um sinal de que há tempo para iniciar uma preparação de base, especialmente se o concurso anterior do mesmo órgão servir de referência para as disciplinas cobradas. Ano eleitoral não impede certames Com tantos certames em andamento, uma dúvida frequente entre candidatos é se o calendário eleitoral de 2026 pode travar o processo. O professor Victor Tanaka, do Estratégia Educacional, explica as regras para concursos públicos durante período eleitoral — Foto: Divulgação/Estratégia Educacional — O calendário eleitoral não impede concursos. A limitação é de nomeações no Executivo e no Legislativo — esclarece Victor Tanaka, do Estratégia Educacional. A restrição, prevista na Lei das Eleições, começou no último sábado (dia 4) e vai até a posse dos eleitos, em janeiro de 2027. Mas há exceções: podem ser nomeados os aprovados em concursos homologados até 4 de julho. — O fator mais importante é a homologação do concurso, ou seja, a publicação oficial que confirma o encerramento de todas as etapas e valida o resultado. Se o concurso foi homologado antes do início desse período, as nomeações podem ocorrer normalmente — explica Victor. Já órgãos do Judiciário, Ministério Público e Tribunais de Contas podem fazer nomeações a qualquer momento.