Paula Fernandes chamou atenção dos seguidores ao mostrar, nas redes sociais, mais uma etapa de seu tratamento contra a enxaqueca crônica. A cantora, que convive com a condição há anos, compartilhou o momento em que realiza aplicações de toxina botulínica, procedimento que integra sua rotina de controle da doença e é repetido a cada três meses. "Dia de botox aqui. Só uma picadinha, gente! Uma coisa tão simples e o efeito tão maravilhoso", contou. A exposição do tratamento reacendeu o interesse sobre o uso da toxina botulínica no controle da enxaqueca, especialmente nos casos mais persistentes. Em vez de atuar apenas na musculatura, como ocorre em procedimentos estéticos, a substância tem aplicação neurológica específica quando utilizada para fins médicos. Segundo o neurologista Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC), o efeito está diretamente ligado à forma como a toxina interfere na transmissão da dor. "A explicação está no seu mecanismo de ação, que vai muito além do músculo e atua diretamente no sistema nervoso periférico, bloqueando a liberação de substâncias responsáveis pela sinalização da dor. A toxina botulínica age no neurônio sensitivo, impedindo a liberação de vesículas que transmitem o estímulo doloroso ao cérebro. Quando interrompemos esse processo repetidamente, o cérebro começa a desfazer o caminho da dor que havia aprendido e que culminava na dor. É por isso que, ao longo do tratamento, a frequência das crises diminui", explica. De acordo com o especialista, essa atuação periférica permite reduzir tanto a dor aguda quanto os processos associados à enxaqueca crônica, o que torna o método uma estratégia importante em casos mais complexos. "É exatamente por isso que ela se tornou uma ferramenta importante para 'descronificar' pacientes que convivem há anos com enxaqueca persistente", diz o médico. Paula Fernandes revela tratamento para enxaqueca e médico explica procedimento — Foto: Reprodução Instagram Mesmo com diferentes classificações, como enxaqueca com ou sem aura, migrânea vestibular e cefaleia tensional, o princípio fisiopatológico da doença é semelhante, o que amplia as possibilidades de indicação do tratamento. "Por esse motivo, a toxina botulínica pode ser indicada para diferentes perfis de pacientes. O que muda entre essas classificações são os sintomas predominantes, como tontura, sinais neurológicos ou dor mais tensional. Mas, como a origem da doença é genética e o mecanismo de dor é semelhante, a toxina botulínica pode ser utilizada em todos esses casos", afirma. Apesar de também ser amplamente conhecida pelo uso estético, o objetivo terapêutico é completamente distinto. Na enxaqueca, apenas a toxina botulínica tipo A é utilizada, com foco no bloqueio da atividade nervosa. "Na estética, a ideia é relaxar o músculo. Na enxaqueca, buscamos bloquear o nervo. O efeito estético que pode surgir, especialmente na região da testa, é apenas um efeito colateral do tratamento neurológico", esclarece. O protocolo de aplicação segue diretrizes internacionais conhecidas como PREEMPT, estabelecidas em 2011, que padronizam os pontos de aplicação e a periodicidade das sessões. "Ele determina 31 pontos fixos de aplicação, distribuídos estrategicamente para atingir os nervos envolvidos na dor. Em alguns casos, pontos adicionais podem ser incluídos, conforme a resposta clínica do paciente. A toxina não deve ser aplicada ‘onde dói’. O protocolo é fundamental para garantir eficácia e segurança", reforça. O esquema inicial prevê aplicações trimestrais, que devem ser mantidas por um período mínimo de oito ciclos. A partir da resposta clínica, o intervalo pode ser reavaliado. "Com a estabilização do quadro e o controle das crises, é possível avaliar o espaçamento entre as sessões. O objetivo do tratamento não é tratar a crise, mas impedir que ela aconteça. Quando chegamos à fase de controle, muitos pacientes deixam de precisar de medicamentos para dor", destaca. Paula Fernandes revela tratamento para enxaqueca e médico explica procedimento — Foto: Reprodução Instagram Além do procedimento, o tratamento da enxaqueca envolve ajustes de hábitos e revisão de fatores que podem agravar o quadro. Em casos mais resistentes, outras terapias podem ser associadas. "Tratar enxaqueca não é tomar remédio quando a dor aparece. É fazer com que as crises não aconteçam mais. Quando isso é alcançado, o paciente entra em remissão", afirma o neurologista. "Mas é importante enfatizar que, embora em alguns pacientes a toxina botulínica possa ser suficiente como único tratamento, em casos mais graves, com dor intensa e uso diário de medicamentos, pode ser necessária a associação com terapias mais modernas, como os anticorpos anti-CGRP, disponíveis no Brasil. Essas medicações ajudam a acelerar a melhora e podem ser usadas de forma temporária, até que o paciente alcance um controle mais estável", explica. Considerado seguro, o procedimento não apresenta restrições relevantes em grupos específicos, segundo o médico. "A toxina botulínica, de acordo com o especialista, é um tratamento seguro e não apresenta contraindicações relevantes. Inclusive, pode ser realizado por gestantes e mulheres em fase de amamentação, já que a toxina atua localmente e não tem efeito sistêmico significativo", completa. Ao final, o neurologista reforça que o principal objetivo do tratamento vai além do controle da dor: envolve recuperação da qualidade de vida. "Com o tratamento, buscamos a possibilidade real de recuperar qualidade de vida. Mas é fundamental que a aplicação seja feita por um médico especialista", finaliza.