Em março, uma falha no sistema de debreagem — o mecanismo de freio da corda — quase tirou a vida de um menino de nove anos. O episódio deveria ter servido de alerta sobre os riscos da atividade antes da tragédia que motivou a conclusão de um inquérito policial nesta semana, mantendo quatro pessoas presas. ➡️ O rope jump é uma modalidade que usa cordas estáticas, sem elasticidade, e após a queda faz um movimento de balanço, como um pêndulo. No bungee jump, modalidade mais conhecida, a corda elástica faz a pessoa cair e quicar para cima e para baixo repetidas vezes. O acidente anterior ocorreu pouco após o garoto de nove anos e uma menina de sete posarem para um vídeo com equipamentos do grupo "Entre Cordas". Luis Gustavo, que trabalhava na equipe e saltou ao mesmo tempo que o menino, relatou o momento da queda. "O garoto foi correndo, eu já fui correndo atrás. Ele pulou e eu pulei dando um mortal logo atrás. Eu não ouvi o garotinho, tipo, gritar o 'uhu', que ele sempre gritava, a gente está feliz e tal. Eu comecei a ouvir algumas pessoas gritando o nome dele e, aí, quando eu olhei para o lado, ele estava no chão", diz Gustavo. O pai do menino também trabalhava no grupo e acompanhou o salto. Ele prestou depoimento à polícia como testemunha. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos provocados pela queda. Um vídeo gravado pelo celular da própria vítima confirmou que ela foi lançada sem o equipamento preso ao corpo. Criança de 9 anos sofreu acidente com mesma equipe 3 meses antes de queda fatal de jovem sem corda em SP — Foto: Reprodução/TV Globo Ocultação de provas e indiciamento Com o encerramento do inquérito nesta semana, a Polícia Civil indiciou quatro pessoas por homicídio com dolo eventual, modalidade em que se assume o risco de matar: Evelyne dos Santos, apontada como chefe da equipe, além de Vitor de Freitas, Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff, que aparecem nas imagens arremessando a jovem da estrutura. Duas pessoas que haviam sido detidas inicialmente tiveram as prisões revogadas e foram soltas. A investigação também apontou um padrão de tentativa de ocultação de provas nos dois casos. Pelo menos três testemunhas disseram ter visto uma pessoa retirar a câmera que estava com Maria Eduarda logo após a queda. O funcionário Luis Gustavo admitiu que recebeu ordens diretas da organizadora para pegar o aparelho. "Ela falou: 'Gustavinho, a gente precisa. Traz a câmera, a gente precisa dessa câmera, a gente precisa apagar o vídeo.' Essas foram as palavras", afirma Gustavo. Uma mensagem de áudio enviada por outra ex-funcionária confirma que Evelyne fez a mesma exigência logo após o acidente com o menino de nove anos em março. Por conta disso, ela também responderá por fraude processual. Questionados sobre a falha, Maicon e Luis Felipe reconheceram em depoimento que a responsabilidade de checar se a corda estava presa ao peito da jovem era deles, mas declararam não saber explicar o motivo de não terem verificado. O relatório policial concluiu que os saltos "eram feitos com significativa desorganização operacional", apontando a "ausência de isolamento adequado da área" e um "elevado número de saltos em reduzido intervalo de tempo, o que potencializa falhas humanas e compromete a segurança". O "Entre Cordas" operava de forma clandestina há mais de um ano, sem registro de empresa formal. A Ponte do Esqueleto pertencia à antiga Rede Ferroviária Federal e está sob custódia da Secretaria do Patrimônio da União. Após a tragédia, o acesso foi bloqueado nos dois extremos com cercas de arame farpado, placas de aviso, valas e montes de terra para impedir a entrada de novos frequentadores. O que dizem as defesas O advogado de Evelyne dos Santos declarou que discorda do indiciamento e que as teses da defesa serão apresentadas no momento oportuno do processo. A defesa de Vitor de Freitas contesta a tipificação do crime como dolo eventual. Os advogados de Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff sustentam a posição de que se trata de um crime culposo, quando não há a intenção ou a assunção do risco de matar. Ouça os podcasts do Fantástico Confira também:
Criança de 9 anos sofreu acidente com mesma equipe 3 meses antes de queda fatal de jovem sem corda em SP | G1
Menino caiu em março após falha em freio de corda. Equipe clandestina também esteve envolvida na queda fatal de Maria Eduarda de Freitas.








