Gestoras ajustam cenário de oferta e demanda após acordo entre EUA e Irã e reveem carteiras Após meses em que a guerra no Oriente Médio ditou o comportamento do petróleo e dos ativos de risco globais, investidores voltaram agora a concentrar as atenções nos fundamentos do mercado. A retirada do prêmio geopolítico embutido no preço da commodity levou casas a reavaliar a exposição ao setor de óleo e gás, com corretoras mantendo uma postura mais cautelosa em relação a certos papéis e algumas gestoras adotando um viés mais baixista para a alocação, ou até zerando a posição. Na avaliação de profissionais ouvidos pelo Valor, a chance de volta para um cenário superavitário de petróleo, impulsionada pela retomada gradual da produção iraniana, mudanças na composição da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) e alterações logísticas na cadeia da commodity, pode levar o Brent de volta aos níveis observados antes do conflito, perto de US$ 60 por barril. Esse movimento tende a pressionar as ações de petrolíferas no Ibovespa, especialmente Prio e Petrobras, cujas receitas estão atreladas ao desempenho da commodity. Com o avanço das negociações entre EUA e Irã, a Reach Capital se antecipou e zerou a exposição ao setor de petróleo no mercado acionário algumas semanas antes do anúncio do acordo preliminar de paz. O sócio e gestor de renda variável da casa, Henrique Lara, explica que a alocação tinha o objetivo mais tático de se beneficiar das assimetrias entre oferta e demanda da commodity. Agora, porém, o risco-retorno deixou de ser atrativo para manter essas posições. “Voltamos para um cenário pré-guerra, em que o mundo pode enfrentar um pouco de sobreoferta no curto prazo, à medida que os volumes que estavam congelados voltam a fluir”, afirma. Mudanças estruturais na produção, com a saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep+, somada ao interesse do presidente dos EUA, Donald Trump, em manter o petróleo em níveis mais baixos às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, contribuem para esse cenário, na visão do executivo. “Ao mesmo tempo, o Fed [banco central americano], na primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, adotou um tom mais ‘hawkish’ [inclinado ao aperto monetário], indicando que fará mais esforços para reduzir a inflação. Tudo isso, em conjunto, nos faz ficar menos animados com o petróleo”, afirma Lara. “A nossa visão é que US$ 80 por barril do Brent virou um teto”, completa. O co-gestor de renda variável da ARX Investimentos, Alexandre Sant’Anna, também acredita que o mercado de petróleo pode voltar a ficar superavitário, o que poderia trazer os preços da commodity para uma faixa entre US$ 60 e US$ 70. Atento às mudanças nos fundamentos do petróleo, o executivo avalia que o ajuste rápido registrado nas cotações da commodity após o anúncio do acordo preliminar entre EUA e Irã foi justificado. “Tem essa avaliação de que os preços de petróleo voltaram de forma rápida, mas acho que a retomada reflete uma Opep desmantelada, um mercado com maior flexibilidade logística do que se esperava antes, além de um mundo com estoques maiores do que se estimava anteriormente”, diz. A rápida recuperação dos fluxos de petróleo no Golfo Pérsico também reforça a percepção de que o mercado já passou a precificar um cenário de superávit para a commodity, afirma o Goldman Sachs. Segundo o banco, as exportações da região voltaram para 63% dos níveis normais (média móvel de sete dias), refletindo a retomada das travessias pelo Estreito de Ormuz e o aumento do número de navios que passaram a operar novamente com os sistemas de rastreamento (AIS) ligados. Na avaliação do Goldman, a recuperação da oferta ocorre em um momento de demanda mais fraca. As exportações dos Emirados Árabes Unidos já alcançam cerca de 85% dos níveis anteriores ao conflito, enquanto outros produtores também ampliam a oferta. Ao mesmo tempo, as importações chinesas de petróleo seguem em queda e estão 4,5 milhões de barris por dia abaixo do registrado há um ano. Para o banco, a rapidez com que o mercado absorveu o choque de oferta no Oriente Médio reduz a necessidade de um prêmio de risco geopolítico e reforça o cenário de Brent perto de US$ 60 o barril até o fim deste ano. Uma eventual volta dos preços para a faixa entre US$ 60 e US$ 70 poderia fazer com que a ação da Petrobras “perdesse o seu charme”, avalia Sant’Anna. Ele afirma que mantém uma posição pequena na estatal, mas que pode fazer mudanças mais para frente a depender da direção da cotação da commodity. “O nosso viés hoje é mais diminuir Petrobras por causa dos preços de petróleo mais baixos e pela possibilidade de ela entrar com alocação de capital em ativos que achamos pouco interessantes”, observa o executivo. Outra casa que está com uma visão mais cautelosa sobre a Petrobras é a Ativa Investimentos. Entre os fatores que pesam para que a equipe da corretora mantenha uma recomendação neutra para os papéis da petroleira estão o fato de o retorno total esperado, incluindo dividendos, ser relevante, mas insuficiente para justificar uma posição comprada agressiva, além da expectativa de normalização da oferta de petróleo e não de um “superciclo” da commodity. Nas projeções da Ativa, os papéis preferenciais da Petrobras poderiam chegar a R$ 44 nos próximos 12 meses se o preço médio do Brent ficasse em torno de US$ 77 ao longo de todo este ano. Já se o preço médio do óleo bruto girasse próximo de US$ 65 em 2026, o preço-alvo do papel cairia para R$ 35. O fato de a Petrobras ser uma estatal também é visto como um ponto de atenção por Lara, da Reach, que diz preferir Prio à companhia, embora a gestora atualmente não tenha posição em nenhuma das duas empresas. “Prio seria o primeiro nome mais óbvio caso a gente queira voltar a ter posições em petróleo, porque fica menos dependente desse desfecho binário e imprevisível da eleição”, explica. Como a expectativa de uma mudança pró-mercado no cenário político perdeu força, a Reach reduziu a exposição a ações de maior beta, que se beneficiariam de um ambiente mais favorável para o Brasil, e adotou uma postura mais defensiva, priorizando empresas de utilidade pública. Plataforma Maria Quitéria, do tipo FPSO (sistema flutuante de produção, armazenamento e transferência de petróleo, da sigla em inglês) e está equipada com tecnologias para redução de emissões com mais eficiência operacional combinada à redução em cerca de 24% de emissões operacionais de gases de efeito estufa — Foto: Agência Petrobras
Ações de petroleiras perdem apelo com Brent rumo a US$ 60
Gestoras ajustam cenário de oferta e demanda após acordo entre EUA e Irã e reveem carteiras






