Dados da Polícia Federal obtidos pelo GLOBO por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que nos cinco primeiros meses de 2026 , os registros de apreensão já representam mais do que o dobro de 2025 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Apreensão de canetas emagrecedoras no aeroporto do Galeão, no Rio — Foto: Alexandre Cassiano RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 19:03 Aumento do Contrabando de Canetas Emagrecedoras Preocupa Anvisa no Brasil O contrabando de canetas emagrecedoras, principalmente com princípios ativos como a tirzepatida, cresce no Brasil, com apreensões disparando de 9 em 2024 para 758 em 2026. Grande parte das mercadorias entra via Paraguai, com o Paraná concentrando 37% das ocorrências. A Anvisa alerta para os riscos do uso sem acompanhamento médico e o aumento de efeitos adversos notificados. Operações foram intensificadas para combater o mercado clandestino. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No dia 16 de abril deste ano, após uma perseguição em alta velocidade na rodovia PR-445, perto da cidade de Cambé, no interior do Paraná, a polícia interceptou um veículo com um carregamento clandestino milionário. Entretanto, escondidas entre 880 celulares e 55 notebooks, estavam cerca de 7 mil ampolas de tirzepatida, um dos princípios ativos das canetas emagrecedoras, apreendidas pelos agentes com dois suspeitos. A carga, que também tinha ampolas de anabolizantes, foi avaliada pela Receita Federal em R$ 2 milhões. No processo, que corre na Justiça Federal, o motorista confessou que receberia R$ 5 mil para levar a carga da cidade de Medianeira, no Paraná, que faz fronteira com o Paraguai, até São Paulo. O episódio não é um caso isolado: o mercado clandestino de medicamentos emagrecedores, sobretudo os baseados no GLP1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, vem crescendo em ritmo acelerado no Brasil. Dados da Polícia Federal obtidos pelo GLOBO por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, apenas nos cinco primeiros meses de 2026 , os registros de apreensão já representam mais do que o dobro de 2025. As apreensões passaram de 9 ocorrências em 2024 para 335 em 2025, e já somam 758 neste ano. No período comparável de janeiro a meados de junho, o salto é de 37 para 758 casos em um ano, um aumento de cerca de 20 vezes. Até 2023, não havia qualquer registro do tipo nos sistemas consultados pela corporação. Os dados são acompanhados, também, por um aumento na notificação de efeitos adversos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): em 2023, foram 257 notificações, em 2024, o número subiu para 449 e, em 2025, novamente dobrou, indo para 1.122. A geografia das apreensões aponta para uma rota de entrada bem definida, similar à da apreensão de R$ 2 milhões em Cambé: boa parte das mercadorias saem do Paraguai e entram no Brasil pelo Paraná ou pelo Mato Grosso do Sul, rumo aos centros de consumo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sozinho, o Paraná concentra 37% das ocorrências e mais da metade do volume total apreendido; somado ao Mato Grosso do Sul, o eixo de fronteira com o Paraguai responde por quase metade dos casos e 60% das unidades retidas, padrão que a própria PF associa, em documento, ao contrabando que entra pela tríplice fronteira, em Foz do Iguaçu, e segue por rodovias já usadas pelo tráfico de drogas. Esse fluxo é complementado por transporte aéreo, que permite o deslocamento rápido de cargas menores entre cidades, e por remessas postais internacionais, que ampliam a distribuição via comércio eletrônico. Os criminosos também costumam utilizar técnicas como fracionamento de cargas, ocultação em veículos e uso de “formiguinhas” (transportar a carga por várias pessoas ou em múltiplas viagens com o objetivo de driblar a fiscalização alfandegária). Em abril, a Polícia Federal, com apoio da Anvisa, fez uma operação para reprimir a entrada irregular, a produção clandestina, a falsificação e o comércio ilegal de canetas emagrecedoras. Foram cumpridos 45 mandados de busca e a apreensão e ações de fiscalização em 12 estados. Ao todo, o período entre 2024 e meados de 2026 registra cerca de 175 mil unidades apreendidas. As unidades não são necessariamente canetas, mas incluem ampolas, frascos e outros recipientes. Em março, O GLOBO mostrou que as apreensões somavam R$ 51 milhões de 2024 a fevereiro de 2026. Custo elevado Desde janeiro, a Anvisa já publicou dez ações de proibição de importação de produtos irregulares que contém medicamentos baseados no GLP-1, mas isso não impede o crescimento da ida de brasileiros ao Paraguai. Em alguns casos, a entrada de medicamentos provenientes de países como o Paraguai é autorizada pela Justiça: o GLOBO identificou processos em que brasileiros alegam o custo elevado para justificar a ida até o país vizinho para comprar medicamentos similares, aprovados pela agência sanitária paraguaia. O mesmo acontece nas redes sociais. Influenciadores e farmácias paraguaias fazem propagandas direcionadas a brasileiros com o passo-a-passo para obter o produto. A polêmica ocorre porque, na maioria dos casos, os medicamentos têm o mesmo princípio ativo de produtos já aprovados no Brasil. O GLOBO identificou perfis que explicam como consumidores podem ir para o Paraguai e adquirir os medicamentos, com cuidados para o transporte e como ser autorizado a passar pela alfândega após análise da Anvisa. Por outro lado, anúncios nas redes sociais também garantem a entrega com “frete grátis” para todo o Brasil de medicamentos como o Tirzec e Lipoland, produzidos com o mesmo princípio ativo do Mounjaro, mas que tiveram a importação proibida no Brasil pela Anvisa. Além do aumento da importação clandestina, houve aumento das notificações adversas relacionadas ao uso de canetas emagrecedoras, segundo a Anvisa. Ainda não há dados, porém, que associem essa alta ao aumento da circulação de medicamentos contrabandeados. “Como esses dados (de reações) são declaratórios e dependem da qualidade das informações enviadas por cidadãos ou profissionais de saúde, não é possível estabelecer recortes específicos que permitam identificar casos relacionados a medicamentos obtidos por vias ilegais, produtos industrializados ou manipulados, nem segmentar os dados entre reações adversas, queixas técnicas e desvios de qualidade”, esclareceu a Anvisa. Sem orientação Médico endocrinologista, Carlos Couri afirma que a chegada das canetas emagrecedoras ainda é razoavelmente recente no mercado e, com isso, a pesquisa sobre possíveis efeitos adversos ainda é incipiente. O médico, entretanto, sublinha o perigo do uso de medicamentos contrabandeados. — O ponto principal é que quem usa caneta contrabandeada geralmente não faz com acompanhamento médico. Se a pessoa adquire de forma ilegal, usa de acordo com a vizinha, um vídeo da rede social, ou IA — diz. Couri também destaca que, além das importações clandestinas, vem crescendo no Brasil a produção em larga escala por farmácias de manipulação. Segundo levantamento feito pela Anvisa, a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação de canetas tem sido incompatível com o mercado nacional. No segundo semestre do ano passado foram importados 100kg de insumos, o que seria o bastante para produzir 20 milhões de doses. A Anvisa destaca que classifica as canetas emagrecedoras como sujeitas a retenção de receita médica. “O acompanhamento médico é extremamente importante durante a administração desses medicamentos, pois eles possuem uma série de contraindicações para condições específicas de saúde”, afirma a agência.