O mais prolífico colega colunista desta Folha, Hélio Schwartsman, já falou aqui sobre o "viés cognitivo inscrito em nossos cérebros" que nos leva a "vibrar com as defesas do Vozinha", o goleiro de Cabo Verde que, nesta sexta (3), novamente deve ser a figura mais apoiada e amada —ou odiada, caso entregue o ouro para a Argentina— no Brasil e talvez em todo o Sul Global que acompanha a Copa do Mundo.

Esse "desejo meio metafísico de reequilibrar os pratos da balança da justiça universal", como diz Hélio, já devidamente tipificado como "underdog effect" (efeito azarão), é vivido com certa permanência por quem, como eu, torce em regime 24/7, na esfera doméstica, por um "underdog" —no meu caso, a venerável Associação Portuguesa de Desportos.

Há um problema de ordem lógica, talvez mesmo uma falácia lógica, em torcer para o mesmo underdog de sempre, uma vez que fazer isso significa desejar que o azarão ganhe títulos —no plural.

Ao ganhar títulos, o underdog torna-se necessariamente cachorro grande, evanesce como categoria filosófica.

É claro que, numa Copa do Mundo, a coisa é um pouco diferente: de quatro em quatro anos pode-se escolher o azarão da vez. Até hoje, os países africanos figuram como eternas promessas para levar o caneco. Há uma profusão deles, portanto, para escolher.