Autoridades americanas temiam que qualquer tentativa israelense de assassinar ministro das Relações Exteriores ou presidente do Parlamento iraniano inviabilizaria negociações de paz 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi (primeira fila, à esquerda) e o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf,(primeira fila, ao centro) chegam para reunião na Suíça, em junho — Foto: Urs Flueeler/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 10:22 EUA Alertam Irã sobre Planos de Israel para Sabotar Negociações de Paz Os EUA alertaram o Irã sobre possíveis tentativas de Israel de assassinar negociadores iranianos, como Mohammad Bagher Ghalibaf e Abbas Araghchi, para sabotar as negociações de paz. Durante uma reunião em Islamabad, a comitiva iraniana enfrentou ameaças de ataques israelenses, com caças paquistaneses escoltando-os. As tensões destacam divergências entre os objetivos dos EUA e Israel, que busca mudanças no regime iraniano. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando o presidente do Parlamento do Irã e principal negociador do regime teocrático no diálogo com os EUA, Mohammad Bagher Ghalibaf, preparava-se para uma reunião em Islamabad com o vice-presidente americano, JD Vance, em abril, autoridades de segurança do país temiam que Israel aproveitasse a ocasião para assassinar a ele ou ao ministro de Relações Exteriores Abbas Araghchi, a fim de inviabilizar as negociações de paz. Teerã então solicitou garantias a Washington por meio de mediadores, de que não seria realizada qualquer operação clandestina contra a delegação iraniana. Caças do Paquistão escoltaram a comitiva da nação persa, com mais de 70 integrantes, a partir da fronteira até Islamabad. Na volta para casa, porém, surgiu uma nova ameaça. Fontes iranianas dizem que quando a delegação retornava, a aeronave que levava Ghalibaf recebeu um alerta de inteligência, indicando que Israel planejava derrubar o avião, e que dois caças inimigos teriam entrado no espaço aéreo do país pela fronteira oeste, próxima ao Iraque. Um pouso de emergência foi realizado na cidade de Mashhad, o aeroporto iraniano mais próximo da fronteira com o Paquistão. A delegação concluiu o retorno para Teerã por via terrestre — um trajeto de aproximadamente oito horas. O relato, confirmado por fontes iranianas, incluindo o assessor sênior de Ghalibaf e integrante da comitiva que viajou a Islamabad, Mahdi Mohammadi, revelam a que ponto chegaram às tensões durante o processo de negociações. Autoridades nos EUA também compartilharam preocupações de que Israel tentasse eliminar os principais negociadores iranianos durante as negociações, sobretudo Araghchi e Ghalibaf. Em certa altura, Washington teria interferido. Temendo que uma tentativa israelense de assassinato comprometesse as negociações, autoridades do governo americano teriam pedido a países da região que alertassem o Irã sobre a possibilidade de Israel atacar os dois dirigentes, disseram fontes americanas ouvidas pelo New York Times. Autoridades americanas reconheceram que, durante a fase mais intensa da guerra, Araghchi e Ghalibaf, poderiam ter sido considerados alvos legítimos para Israel, que buscava derrubar o governo linha-dura de Teerã, por serem altos integrantes do governo iraniano. Mas, após o início efetivo das negociações em abril, Washington passou a crer que qualquer tentativa de matar esses líderes encerraria as conversas e reacenderia o conflito. A guerra começou em 28 de fevereiro com um ataque israelense que matou o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, e outras autoridades de primeiro escalão, com base, em parte, em informações de inteligência fornecidas pelos EUA. Enquanto os ataques americanos se concentravam na Marinha iraniana e em suas forças de mísseis, Israel priorizou atingir a liderança política e militar logo na fase inicial da guerra, buscando eliminar o maior número possível de autoridades. Uma fotografia divulgada pelo governo do Paquistão mostra a delegação iraniana liderada pelo presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf (o segundo da direita para a esquerda), e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi (o segundo da esquerda para a direita). Eles foram recebidos pelo chefe do exército paquistanês, Asim Munir (à esquerda), e pelo ministro das Relações Exteriores, Ishaq Dar (à direita), em Islamabad, Paquistão, na sexta-feira — Foto: Ministério das Relações Exteriores do Paquistão/Reuters/via The New York Times Isso incluiu a morte de líderes considerados potencialmente mais pragmáticos, com os quais o governo Trump esperava negociar, como Ali Larijani, principal autoridade de segurança nacional do Irã, e Kamal Kharazi, ex-ministro das Relações Exteriores. Ambos participavam das negociações com os EUA quando foram mortos em ataques aéreos israelenses. As suspeitas do governo Trump sobre um possível plano israelense para matar os dois principais negociadores mostram como os objetivos de guerra dos EUA e de Israel, inicialmente muito próximos, rapidamente passaram a divergir de forma significativa. Enquanto Washington buscava um acordo de paz, a liderança do Estado judeu demonstrava ceticismo desde a primeira suspensão das hostilidades. Araghchi e Ghalibaf têm sido os principais responsáveis por negociar com diversos países da região para alcançar um cessar-fogo e, posteriormente, uma paz mais duradoura com os EUA. Em junho, os adversários chegaram a um acordo inicial que buscava reabrir o Estreito de Ormuz e estabelecer as bases para negociações posteriores sobre o programa nuclear de Teerã. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu é recebido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca em abril de 2025 — Foto: Eric Lee/NYT Autoridades e comentaristas em Israel consideraram esse acerto prévio um desastre, pois ele não atendia aos objetivos de guerra do país: promover uma mudança de regime no Irã, destruir as forças aliadas a Teerã na região e enfraquecer significativamente o programa de mísseis do rival. Autoridades israelenses também temiam que o acordo injetasse bilhões de dólares na economia iraniana, permitindo que o país se reconstruísse rapidamente após a guerra sem impor restrições significativas às suas ambições nucleares. Uma porta-voz da Embaixada de Israel em Washington recusou-se a comentar. Questionado sobre os supostos planos israelenses e sobre o alerta enviado por meio de mediadores ao Irã, um funcionário americano observou que as conversas entre delegações dos EUA e do Irã continuam e que Steve Witkoff, enviado especial, e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, tiveram reuniões produtivas no Catar. Segundo essa autoridade, o presidente Trump deseja que o processo de paz "siga seu curso". O Wall Street Journal informou em março que Israel havia incluído Araghchi e Ghalibaf em uma lista de alvos, mas os retirou temporariamente enquanto os EUA discutiam o início das negociações com o Irã. Um funcionário americano e outra autoridade do Oriente Médio afirmaram que o governo Trump soube, por volta dessa época, que pelo menos Ghalibaf constava dessa lista de alvos israelense e pediu a Israel que evitasse qualquer ação contra ele. Ghalibaf escapou por pouco da morte tanto durante a guerra de 12 dias, em junho de 2025, quanto novamente no conflito deste ano, quando Israel atacou uma reunião secreta de altos integrantes do governo realizada em um bunker sob uma montanha, segundo três autoridades iranianas de alto escalão e declarações públicas de autoridades. Em ambos os episódios, Ghalibaf foi resgatado dos escombros, disseram essas fontes. — Hoje, o senhor Ghalibaf, o senhor Araghchi e outros membros da equipe de negociação colocaram suas vidas em risco, plenamente conscientes das graves ameaças à sua segurança. Isso é um verdadeiro sacrifício, e não uma manobra política — declarou o parlamentar Mohsen Zanganeh à imprensa local no fim de abril, após a reunião em Islamabad. Mesmo com as ameaças e o episódio na volta do Paquistão em abril, as autoridades continuaram a viajar e engajar no processo de negociação. No fim de maio, Ghalibaf e Araghchi foram ao Catar para novas tratativas e, em junho, seguiram para a Suíça, onde participaram de um segundo encontro com Vance e uma delegação americana.