O continente mudou de clima mais depressa do que mudou de arquitetura. as pessoas perdem o senso e mergulham nos rios em roupas de baixo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Moradores de Colônia, na Alemanha, tomam banho em mangueiras que jorram água para aliviar o calor do verão — Foto: Ina Fassbender/AFP/25-6-2026 Eu já fui tantas vezes à Amazônia que perdi a conta. Da primeira vez que desembarquei em Manaus, num tempo que o ar-condicionado do recém-inaugurado Hotel Tropical era a grande atração da cidade, descobri que as pernas suam: entre a saída do avião e os últimos degraus da escada (na época, finger era uma ideia futurista) os meus jeans ficaram encharcados. Outra vez, em Parintins, eu estava passeando na hora do almoço e, de repente, tive uma experiência dissociativa: saí do corpo e vi a mim mesma no meio da rua. Em Xapuri o ar-refrigerado da pensão estava quebrado, não havia nem outro quarto nem ventilador disponível e, de puro desespero, molhei o lençol na pia para tentar dormir. O Sudeste da Ásia também não é para amadores. Nunca fui lá no verão, é claro, mas subir os degraus de Angkor Wat, em pleno bafo da selva cambojana, foi um desafio notável. Alguns cantos da Índia, a Tailândia, a Avenida Presidente Vargas no dia em que o meu carro enguiçou no sol de janeiro e o reboque não chegava, Cuiabá numa campanha política. Mas o pior calor que passei na vida, disparado, não foi em nenhum desses lugares; foi em Valência, na Espanha, onde o asfalto derretia e, do nada, uma turista dinamarquesa enorme derreteu também e despencou na minha frente; e em Hamburgo, durante a Copa de 2006, quando fui visitar duas amigas que conhecia da internet. Elas tinham os gatos mais lindos do Fotolog, e uma casa sob medida para enfrentar o clima impiedoso da cidade, com cortinas pesadas, muitos tapetes, móveis que davam abraços de veludo. A janela não abria. Não sei se não abria de verdade, ou se não abria culturalmente, porque a parede era grossa e, naquele vão, havia vasos de plantas, fotos emolduradas, livros empilhados; só que estávamos em julho. O cérebro cozinhava em banho-maria, as ideias não fluíam, tudo rodava. As moradias foram construídas para reter calor, não para expulsá-lo. Eu me lembro disso sempre que o verão morde a Europa nos calcanhares e os europeus morrem feito passarinhos, como se lá isso nunca acontecesse. O continente mudou de clima mais depressa do que mudou de arquitetura. Ninguém tem ar-condicionado, os ventiladores somem das lojas, as pessoas perdem o senso e mergulham nos rios em roupas de baixo (eu vi). Meu Pai passou a vida com medo de correntes de ar: não podíamos deixar portas abertas, sob pena de que um vento malsão pegasse alguém desprevenido. Ele nasceu em Budapeste em 1906 e chegou ao Brasil durante a Segunda Guerra, mas até hoje esse espírito prevalece no continente. Desde os tempos do Metro Copacabana, que despejava ar-refrigerado na calçada para atrair fregueses, o Sul Global glorifica Willis Carrier; a Europa prefere não estragar o visual dos edifícios com aqueles aparelhos horrorosos. No outro dia, quando os termômetros marcaram 41,3 °C na França, fiz um post no Facebook: a gente estranha, afinal. Pois não é que um camarada apareceu do nada para reclamar dos comentários? “Mais fácil se horrorizarem com a França que com os subúrbios da Zona Norte do Rio.” Bloqueei ele de puro tédio, mas deveria ter respondido a verdade: os subúrbios da Zona Norte do Rio vão ser destaque climático no dia em que nevar. Eu, hein.
Europa, 40 graus
O continente mudou de clima mais depressa do que mudou de arquitetura. as pessoas perdem o senso e mergulham nos rios em roupas de baixo












