O número de mortos em decorrência dos terremotos que atingiram a Venezuela na semana passada subiu para 2.295, enquanto o de feridos chegou a 11.267, informou o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, em pronunciamento divulgado pela emissora estatal Venezolana de Televisión nesta quarta-feira. O parlamentar, que também é irmão da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, acrescentou que 12.841 pessoas foram afetadas pelos terremotos. Mais cedo, Delcy informou em publicação na rede social X que decretou sete dias de luto oficial, a partir da tarde desta quarta-feira, em homenagem às vítimas. "Neste momento de profunda tristeza, abraçamos todos aqueles que sofrem com esta tragédia", escreveu a presidente interina, que assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em janeiro deste ano. Apesar dos números atualizados pelo governo, uma lista não oficial, mas amplamente utilizada para registrar desaparecidos, contabiliza 40.567 nomes. Nesta semana, um representante da Organização das Nações Unidas (ONU) informou que a entidade está adquirindo 10 mil sacos para cadáveres encontrados no território venezuelano, um indicativo de que o número final de vítimas dos tremores de magnitude 7,2 e 7,5 que devastaram o país pode ser muito maior. Enquanto isso, uma sala de aula desativada no país se tornou um abrigo improvisado para as vítimas do incidente e, agora, lembra um verdadeiro formigueiro de atividades, com rádios que entram em funcionamento sem parar e profissionais de saúde que se apresentam para assumir as tarefas do dia. Embora a organização se pareça com um quartel militar comandado por generais, a operação ocorre na Escola República do Panamá, em La Guaira, Estado mais atingido pelos dois terremotos da semana passada. Os responsáveis pela coordenação têm entre 20 e 27 anos. A equipe, formada por cerca de uma dúzia de voluntários ligados à ala jovem do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), desenvolveu um sistema para cadastrar os moradores do abrigo, a maioria dos quais perdeu familiares, a casa ou ambos na tragédia. Os próprios voluntários também ficaram, em grande parte, desabrigados após os terremotos. Eles se revezam em turnos para manter o centro de comando funcionando 24 horas por dia e, assim como os moradores do abrigo, dormem em beliches metálicos fornecidos pelo Ministério do Comércio. O grupo registra cada uma das mais de 350 pessoas acolhidas no abrigo, onde, em média, três famílias ocupam cada sala de aula. O sistema reúne informações como endereço anterior, ferimentos e até quem ainda não almoçou no refeitório. "Somos como o Titanic. Afundamos junto com o navio", disse Daniel Rivas, de 25 anos, enquanto seus colegas consultavam o cadastro em busca de uma pessoa desaparecida procurada por um familiar que aguardava no portão da escola. Os moradores têm acesso a chuveiros, posto de saúde, lavanderia e refeitório. As crianças brincam nos corredores e na quadra de basquete. Segundo a equipe da escola, cada um dos nove abrigos existentes em La Guaira é administrado por um grupo diferente. Yohancy Gil , de 24 anos, e seu marido, Sergio Guanipa, de 30, estão em meio aos escombros enquanto aguardam notícias das equipes de resgate que procuram seus filhos sob os escombros de um prédio que desabou após os terremotos em La Guaira, Venezuela, em 30 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Ricardo Arduengo "Cheios de raiva" "As pessoas estão 50% muito fragilizadas e 50% cheias de raiva, perdidas", disse José Méndez, outro integrante da equipe. "Estão revoltadas por não encontrarem seus familiares, por terem perdido tudo. Mas estamos preparados para ajudar." Todos os voluntários nasceram pouco antes ou logo depois do último grande desastre em La Guaira: os deslizamentos de terra de 1999, que mataram até 30 mil pessoas. Moradores criticam o governo de Delcy Rodríguez pelo que classificam como uma resposta lenta e insuficiente à tragédia. Na terça-feira, a ONG Comitê Internacional de Resgate (IRC) afirmou que "a dimensão da resposta não corresponde à dimensão das necessidades humanitárias". Em uma publicação na rede X, Rodríguez afirmou que as autoridades continuam prestando assistência às vítimas e supervisionando os trabalhos de recuperação. "Sei que muitos venezuelanos sentem dor e frustração. Compartilho profundamente esses sentimentos", escreveu. Próximos passos A equipe do abrigo agora aguarda duas etapas consideradas fundamentais: a visita das autoridades responsáveis pelo registro civil, para emitir novos documentos de identidade às pessoas que os perderam, e a presença de representantes do Ministério da Habitação, que deverão orientar as famílias que perderam suas casas sobre como solicitar ajuda. "Sinto como se o terremoto ainda estivesse dentro de mim", disse a moradora do abrigo Deisy Tapias, de 36 anos, que está no local com dois de seus cinco filhos. "Queria poder voltar para casa." O apartamento onde morava, em uma cidade litorânea próxima, ficou praticamente destruído, embora seu filho de 17 anos tenha conseguido retirar dos escombros os documentos da família e o botijão de gás de cozinha. Tapias afirmou que está disposta a se mudar para outro Estado se essa for a única forma de conseguir uma nova moradia. Sua mãe, Deisy Bermúdez, de 55 anos, teve a casa preservada em uma comunidade vizinha e foi ao abrigo levar roupas e alimentos para a família. "Não suporto abrigos", disse Bermúdez, que perdeu sua casa na tragédia de 1999 e afirmou que nunca recebeu uma das moradias construídas pelo governo para as vítimas daquele desastre. Enquanto as duas conversavam com a Reuters, um caminhão do Exército parou em frente à escola. Soldados ajudaram oito novas famílias, carregando poucas sacolas com seus pertences, a entrar no abrigo, onde foram recebidas pelos voluntários. Segundo a equipe, muitas das pessoas que continuam chegando estavam vivendo ao lado dos escombros e procurando familiares soterrados. Máquinas pesadas são usadas para remover os escombros de um prédio que desabou após os terremotos em La Guaira, Venezuela , em 30 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Ricardo Arduengo