Na semana passada, a OpenAI lançou o ChatGPT 5.6 Sol, o seu novo modelo de fronteira, e, pela primeira vez, uma empresa americana entregou a tecnologia não a quem paga por ela, mas a quem o governo autorizou.PUBLICIDADEAo contrário de todas as versões anteriores, que chegavam aos usuários pagantes no próprio dia do anúncio, o Sol foi liberado apenas para cerca de 20 instituições selecionadas, uma a uma, pelo governo dos EUA.O motivo declarado é a capacidade do modelo em segurança cibernética, que cruzou um limiar de risco interno ainda muito mal definido, e tudo indica que daqui para frente isso não será a exceção, e sim a regra.Leia também A palavra que melhor explica o futuro da inteligência artificial é ‘ainda’IA mostra que Magnus Carlsen não é bom enxadrista e não somos tão inteligentesA origem desse movimento tem várias origens, e uma delas merece atenção. Dario Amodei, presidente da Anthropic, que não é economista, passou os últimos anos defendendo ruidosamente que a IA eliminaria boa parte dos empregos e que a área precisaria da intervenção do Estado. A previsão, porém, envelheceu muito mal. PublicidadeNas ocupações mais expostas à automação, como engenharia de software e radiologia, o que se tem visto é o oposto do prometido, num exemplo claro da velha falácia de imaginar que existe uma quantidade fixa de trabalho no mundo. A consequência dessa nova diretriz do governo dos EUA é que a fronteira da tecnologia vai ficar cada vez mais longe de empresas pequenas e startups, e de países como o Brasil. Já passamos por isso com a tecnologia nuclear, mas a IA é incrivelmente mais útil e mais abrangente.Por enquanto, há uma pequena boa notícia. Pesquisadores e engenheiros brasileiros ainda conseguem acessar bons modelos abertos, muitos deles vindos da China, que se tornaram necessários para quem quer estudar e adaptar modelos sem depender das empresas americanas.Essa janela, porém, também tende a ser temporária. A China dificilmente ficará parada se perceber que seus modelos abertos estão virando a porta de entrada de países que não têm acesso à fronteira americana.Dario Amodei, presidente da Anthropic, passou os últimos anos defendendo ruidosamente que a IA eliminaria boa parte dos empregos e que a área precisaria da intervenção do Estado Foto: reproduçãoO Brasil já protegeu o que era seu, sob o nome de política industrial, até ser convencido de que isso era pecado. Tiramos o bolo do forno e agora vemos os Estados Unidos lamberem os dedos enquanto explicam, de boca cheia, que açúcar faz mal à nossa saúde.PublicidadeA pior posição possível é dependermos integralmente de modelos fechados americanos e, ao mesmo tempo, imaginarmos que os modelos abertos chineses ficarão disponíveis para sempre. Seria trocar uma ingenuidade por outra. A única saída é construir uma infraestrutura própria de pesquisa e de dados, um trabalho de anos que o Brasil vem adiando a cada nova geração de algoritmos que agora nasce trancada.A próxima geração das IAs poderá ter capacidades demais para ficar sem regras, mas também será importante demais para ficar nas mãos de poucos países e empresas.
Opinião | EUA trancaram o novo ChatGPT: a fronteira da inteligência artificial agora tem porteiro
O novo ChatGPT não foi para quem pagou, foi para quem Washington liberou














