Homem é resgatado com vida após passar mais de 100 horas preso sob escombros na VenezuelaSegundo a presidente interina do país, o resgate de Aaron Levi Cantillo durou 43 horas. Crédito: @delcyrodriguezv via XYelsa Rojas morava há pouco mais de uma década no segundo andar de um prédio em La Guaira, no litoral da Venezuela. O conjunto foi construído pelo Estado e levava o nome de Hugo Chávez – embora os vizinhos o chamassem de Los Cocos, em referência à praia ao lado.PUBLICIDADENa quarta-feira passada, o prédio caiu. Yelsa acredita que todo mundo do segundo andar morreu.O prédio dela só existia por causa de outra tragédia natural, que traumatizou a Venezuela em 1999, quando as chuvas despencaram sobre esse mesmo pedaço de litoral. Na ocasião, a montanha desabou em rios de lama que varreram bairros inteiros até o mar. Morreram de 10 e 30 mil pessoas – ninguém sabe o número exato até hoje. Foi a pior tragédia natural da história venezuelana até então.Protesto de moradores obriga militares a participar de resgate após terremotos na VenezuelaA resposta de Chávez foi tirar os pobres das encostas perigosas e botar todo mundo em prédio novo. Um deles era o que morava Yelsa Rojas.Na semana passada, dois tremores de magnitude 7,2 e 7,5, com 39 segundos de diferença entre um e outro, atingiram a Venezuela. Já são mais de 1.700 mortos confirmados. A ONU acredita que é “assustadoramente plausível” que haja até 50 mil desaparecidos debaixo dos escombros.PublicidadeMas o terremoto é só a última ponta dessa história.O grande quadro é o de um Estado que passou mais de uma década se desfazendo por dentro, até não conseguir contar os próprios mortos ou resgatar a própria gente.Moradores de Caracas consolam vizinho após terremoto Foto: AP Photo/Ariana CubillosA primeira tentação é explicar os mortos pela pobreza. Dois em cada três venezuelanos moram em construção informal, levantada sem engenheiro e sem fiscalização. Era de esperar que os barrios desabassem. Só que não foram só eles.Em Caracas, a trinta quilômetros do litoral, caíram prédios formais, projetados, registrados, aprovados pela prefeitura. Uma torre de 14 andares num dos bairros mais caros da cidade. Um edifício corporativo de um banco. Um prédio de 22 andares que veio abaixo com muita gente dentro.Como é que um prédio desses cai? Muitos foram construídos sobre um térreo aberto, vazado, só com pilotis e garagem embaixo. Quando o chão treme, esse térreo cede primeiro e o resto do prédio despenca sobre ele, laje sobre laje, como um sanduíche que alguém amassa.PublicidadeOutros eram de concreto velho, dos anos 50 e 60, sem o aço de reforço que se usa hoje, e nunca passaram por nenhuma obra que os preparasse para um abalo.PUBLICIDADEE os prédios novos, os que o próprio Estado entregou? O Colégio de Engenheiros da Venezuela já disse o que houve com eles. Dinheiro público que entrava por uma porta e sumia por outra, em subcontratação atrás de subcontratação, até sobrar concreto fraco e aço sem a flexibilidade que um tremor exige. Obra sem inspeção, sem estudo de solo.Hoje, menos de 1/4 das construções da Venezuela respeita norma antissísmica. Num país que sabe, há décadas, estar sentado em cima do encontro de duas placas tectônicas.E há uma geografia que torna tudo pior, e que ninguém pode alegar desconhecer. La Guaira é uma tira estreita de terra espremida entre o mar e uma montanha que cai quase em pé sobre a costa. O solo é mole, do tipo que amplifica a sacudida em vez de absorvê-la. Foi por ali que a lama desceu em 1999. Foi ali que outro terremoto já tinha arrasado a região em 1812.A enchente e o tremor entram sempre pela mesma porta: aquela tira de terra onde se amontoa um monte de gente. O litoral nunca foi pego de surpresa. O perigo está registrado no mapa e na história. Faltou quem se preparasse para ele.PublicidadeQuando o tremor passou, o governo informou que 855 prédios tinham sido danificados. Mas o número é muito maior. Pesquisadores da Universidade de Oregon, cruzando radar de satélite europeu, contaram 58 mil edifícios danificados ou destruídos. Entre um número e outro há um abismo.Um governo que erra por essa margem já não tem como saber o tamanho do que aconteceu no seu próprio território. E isso não é exatamente uma novidade. Faz quase dez anos que a Venezuela não publica nem boletim epidemiológico. O Estado venezuelano parou de contar os próprios doentes muito antes de precisar contar os próprios mortos.E ainda há a ação nos escombros.As primeiras 72 horas depois de um terremoto são as que decidem quem sai vivo. A chance de sobreviver soterrado cai de 90% no primeiro dia para 20% ou 30% no terceiro. Cada hora conta. E foi nessa janela que o Estado venezuelano sumiu.Leia tambémTrump fechou um acordo bilionário de mineração no Cazaquistão e seus filhos podem lucrar com eleComo Trump evoca o século 19 para estimular o expansionismo americanoDe George Washington a Trump: EUA fazem 250 anos com herança da independência sob teste de estresseQuem cavou foram os vizinhos. De pá, de corda, de macaco hidráulico, na mão, porque faltava máquina pesada do poder público. Quando agentes oficiais chegaram a alguns prédios, há relatos de que tiraram foto das ruínas e foram embora.PublicidadePior: o governo atrapalhou o socorro que vinha da própria população. O ministro do Interior militarizou La Guaira e passou a exigir que voluntário, médico e parente se cadastrassem num ginásio em Caracas e tirassem um código QR antes de poder descer até a costa. O cadastro travava. Gente chegava de madrugada e era mandada voltar às oito da manhã. Pai querendo cavar atrás de filho ficava parado numa fila, esperando autorização do Estado para ajudar.Não precisava ser assim.Em 2010, o Chile foi sacudido por um tremor de magnitude 8,8 – ainda mais forte que o venezuelano – e enterrou 525 pessoas. No mesmo ano, um tremor menor, de 7,0, matou centenas de milhares no Haiti. A magnitude maior estava no Chile, mas os mortos foram enterrados no Haiti.O Chile e o México passaram as décadas seguintes aos seus piores terremotos montando essa estrutura. A Venezuela passou as mesmas décadas desmontando a sua, peça por peça.Por isso, o número de mortos da Venezuela não é só geologia. É também o saldo de uma economia que encolheu 75% entre 2013 e 2021, a maior contração em tempo de paz já registrada no mundo. De uma hiperinflação que passou de um milhão por cento. De um êxodo de quase 8 milhões de pessoas, quase um em cada quatro venezuelanos, que fizeram as malas e foram embora.PublicidadeQuando um país passa dez anos se desmontando, ele perde algo bem mais importante que PIB. Perde engenheiro, que vira refugiado. Perde a burocracia que fiscaliza a obra e a logística que organiza um resgate. Perde a capacidade de atuar na hora em que o chão se abre.O terremoto que o mundo assistiu, atônito, nos últimos dias não criou essa fragilidade. Ele só está cobrando a conta. E dá até para medir o tamanho. A ONU estimou os danos diretos em algo próximo de 6,7 bilhões de dólares – o equivalente a 6% de tudo o que a Venezuela produz num ano inteiro, apagado em 39 segundos.O litoral de La Guaira já tinha passado por essa lição, e a esqueceu.Em 1999, depois dos deslizamentos, Chávez recusou a ajuda dos Estados Unidos. Engenheiros e fuzileiros americanos já estavam num navio, a caminho da costa. Ele mandou voltar, em nome da “soberania”. A reconstrução prometida se perdeu na disputa política, e muitos prédios que sobreviveram à lama nunca foram reforçados. Muitos deles caíram agora.O fato é que placa tectônica se move dois centímetros por ano e não obedece a qualquer governo. O terremoto não quebrou a Venezuela. Mostrou, para quem ainda não tinha visto, um país que já estava quebrado muito antes do chão começar a tremer.Publicidade
Opinião | Como um terremoto ajuda a explicar a falência do chavismo
Ditadura transformou a Venezuela em um Estado que passou mais de uma década se desfazendo por dentro












