Instituições financeiras reforçam o rastreamento e a prevenção em tempo real para recuperar recursos Fernanda Garibaldi, diretora-executiva da Zetta — Foto: divulgação O Pix processa, em média, 218 milhões de transações por dia no Brasil e já se tornou a principal infraestrutura de pagamentos do país. Nesse universo, as regras de bloqueio cautelar por até 72 horas e o Mecanismo Especial de Devolução (MED), criados pelo Banco Central, vêm ampliando as chances de recuperar recursos desviados em golpes. Embora o sistema registre apenas sete ocorrências a cada 100 mil operações, segundo a Zetta, associação que representa grandes fintechs, a sofisticação dos crimes digitais impõe novos desafios às instituições financeiras. A resposta do Banco Central à evolução dos golpes tem sido aprimorar os mecanismos de recuperação. Em fevereiro, passou a ser obrigatória a adoção do MED 2.0, que ampliou o rastreamento dos recursos entre múltiplas contas e padronizou o fluxo de comunicação entre as instituições financeiras. A atualização ocorre em um momento de maior demanda pela ferramenta. Segundo o estudo "Golpes com Pix", da Silverguard, os pedidos relacionados ao MED praticamente dobraram entre 2023 e 2024, passando de 2,5 milhões para quase 5 milhões de ocorrências. Apesar da evolução, o sucesso do mecanismo ainda depende da rapidez da comunicação do golpe. O mesmo levantamento mostra que 68% das vítimas desconheciam a existência do MED e apenas 5% sabiam como acioná-lo. "As fragilidades não estão no sistema das empresas financeiras, mas na engenharia social dos golpistas", afirma Fernanda Garibaldi, diretora-executiva da Zetta. Segundo ela, o avanço desse tipo de crime exige investimentos crescentes em inteligência artificial, biometria comportamental e educação financeira para reduzir a vulnerabilidade dos usuários. Na visão de Danilo Roque, responsável pelas práticas de tecnologia, inovação e proteção de dados do FAS Advogados, as mudanças implementadas pelo Banco Central ampliaram a capacidade de resposta das instituições financeiras. "Eles criaram uma camada institucional de reação rápida", afirma. Segundo ele, as medidas reduziram a atratividade das chamadas contas-laranja e fortaleceram o rastreamento dos recursos desviados, embora sua efetividade continue condicionada à rapidez da comunicação da vítima, à capacidade tecnológica das instituições financeiras e à existência de saldo nas contas por onde o dinheiro transitou. Com a migração dos criminosos para golpes baseados em manipulação psicológica, cresce também a necessidade de tornar os sistemas de prevenção mais inteligentes. Como a própria vítima autoriza a transferência utilizando senha e biometria legítimas, os bancos passaram a investir em modelos capazes de identificar sinais de risco antes da conclusão da operação. Inteligência artificial, machine learning, biometria comportamental e análise de padrões transacionais monitoram, em tempo real, fatores como dispositivo utilizado, horário, localização, frequência das operações e relacionamento entre contas para identificar comportamentos incompatíveis com o histórico do cliente. Na avaliação de Roque, o desafio é aumentar a capacidade de detecção sem comprometer a experiência do usuário. “Controles excessivamente rígidos podem aumentar os falsos positivos, bloquear operações legítimas e afetar desde pequenos comerciantes até pagamentos urgentes”, diz. A tendência é que as instituições utilizem modelos cada vez mais sofisticados para aplicar camadas adicionais de autenticação apenas quando houver sinais concretos de risco. Outro movimento que ganha força no setor é o compartilhamento de informações entre instituições financeiras para ampliar a capacidade de identificar padrões de fraude. Segundo a diretora-executiva da Zetta, o uso do open finance e de bases compartilhadas de inteligência tende a tornar mais eficiente a identificação de contas utilizadas por organizações criminosas e reduzir o tempo de resposta às tentativas de golpe. "O combate a redes criminosas é mais eficaz de forma sistêmica do que isolada", afirma. O desafio tende a crescer à medida que criminosos incorporam inteligência artificial, deepfakes e outras ferramentas para tornar os golpes mais sofisticados. Para Daniel Pisano, cofundador e CGO da Payloop, a evolução do sistema financeiro dependerá menos da criação de novas barreiras e mais da construção de meios de pagamento capazes de nascer mais seguros. Um exemplo é o Pix Automático, que opera com autorização prévia, contraparte conhecida e padrões previsíveis de cobrança, facilitando a identificação de desvios. "A segurança deixa de ser apenas reação ao golpe e passa a fazer parte da própria arquitetura dos meios de pagamento", afirma.