Além de sobreviver aos recentes terremotos, Grian Serrano também superou ao deslizamento de terra de 1999 que atingiu La Guaira Equipes de resgate do Exército mexicano procuram pessoas presas em prédios desabados após terremotos atingirem La Guaira, Venezuela, no domingo, 28 de junho de 2026 — Foto: AP/Matías Delacroix Poucas pessoas podem dizer que sobreviveram a um desastre natural e a dois terremotos no mesmo local como o empresário venezuelano Grian Serrano. Ele é um dos que sobreviveram milagrosamente ao deslizamento de terra de 1999 e aos dois terremotos que devastaram parte do estado costeiro de La Guaira, no norte da Venezuela, na semana passada. Com hematomas ao redor do olho esquerdo e em diferentes partes do corpo, Serrano, de 46 anos, tenta se recuperar do que ele, seu filho e sua mãe vivenciaram na tarde de 24 de junho. Os três foram soterrados sob uma montanha de escombros e vigas retorcidas quando o prédio de oito andares onde moravam desabou no bairro de classe média litorâneo de Los Corales, em La Guaira, o estado mais atingido pelos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5. “É um milagre de Deus”, o vendedor de carros repete incessantemente enquanto relata como, na escuridão total, conseguiu escapar abrindo caminho entre os escombros com as próprias mãos. Ele então resgatou seu filho de 8 anos e sua mãe de 69 anos com a ajuda de dois transeuntes. Os dois terremotos consecutivos deixaram pelo menos 1.450 mortos, cerca de 3.150 feridos e centenas de edifícios desabados ou danificados, principalmente em La Guaira, embora danos significativos também tenham sido relatados em Caracas, a capital, e nos estados centro-oeste de Carabobo, Miranda, Aragua e Yaracuy. La Guaira — que até 2019 se chamava Vargas — é o segundo menor estado da Venezuela, mas possui importância estratégica por abrigar o principal aeroporto e o segundo maior porto do país, e por estar localizado a cerca de 30 quilômetros ao norte da capital. Sua população de 440.000 habitantes é majoritariamente pobre e vive do turismo, do comércio e das atividades em torno do aeroporto e do porto. Sobrevivendo duas vezes no mesmo lugar Inundação e deslizamento de terra no bairro de Los Corales, no estado de Vargas, ao norte de Caracas, em 19 de dezembro de 1999. — Foto: AP Foto/Ricardo Mazalan Relembrando o terror que sentiu na semana passada, Serrano não consegue deixar de se lembrar do que aconteceu em 15 de dezembro de 1999. Naquela noite, ele acordou assustado com os gritos da governanta da família, que entrou em pânico ao ver como as fortes chuvas dos dias anteriores haviam feito um rio perto do prédio onde moravam, em Los Corales, transbordar. Da janela, ele observou a correnteza do rio arrastar árvores, pedras gigantes e veículos com pessoas dentro, batendo nas janelas e implorando por socorro. Impulsionados pelo instinto de sobrevivência, Serrano, sua mãe, sua irmã e a governanta saíram do apartamento no quarto andar e subiram até o telhado. De lá, viram como o rio havia inundado os andares inferiores do prédio e como árvores enormes começavam a atingir as colunas, levando-os a temer que a estrutura desabasse, como havia acontecido com os prédios vizinhos. Seus medos se dissiparam ao amanhecer, quando a chuva parou e a água começou a baixar. Após dois dias de espera e sem que nenhuma autoridade chegasse para resgatá-los, a família decidiu caminhar pela lama, pedras e escombros até a casa dos avós, em um bairro vizinho. Alguns meses depois, retornaram ao apartamento, que continuava sem eletricidade ou água, e viveram ali por um ano sem esses serviços, até que Los Corales voltasse à normalidade. Na "Tragédia de Vargas", como são popularmente conhecidas as enchentes e deslizamentos de terra que atingiram La Guaira em dezembro de 1999, 782 pessoas morreram, outras 2.000 foram dadas como desaparecidas e cerca de 250.000 moradores foram afetados, relatou à Associated Press o engenheiro Ángel Rangel, ex-diretor da Defesa Civil da Venezuela, que coordenou os esforços de resgate durante o desastre natural. Crueldade da natureza ou violação de normas? Ainda abalado pela devastação causada pelos terremotos, que deixaram 1.719 mortos, Serrano sente que o estado costeiro está marcado por uma “maldição”. “Não é normal que coisas tão horríveis aconteçam no mesmo lugar”, disse ele, que agora está hospedado na casa de um parente em Caracas. Mas Rangel tem uma perspectiva diferente. O engenheiro explicou que os prédios que desabaram em La Guaira estavam em “solos aluviais” formados ao longo de muitos anos pela “erosão de material das cordilheiras”. La Guaira é banhada pelas águas cristalinas do Mar do Caribe e pela Serra de Ávila. “Esses solos são particularmente arriscados para a construção civil”, afirmou o especialista, argumentando que erguer estruturas nessas áreas exige “rigorosa observância das normas de engenharia sismorresistentes” que a Venezuela implementou após o poderoso terremoto de 1967 que atingiu Caracas. Mas muitos dos prédios que desabaram em La Guaira datam da década de 1970, e não se sabe se atendiam aos padrões de resistência sísmica. Rangel explicou que alguns prédios que desabaram na cidade de Catia La Mar, perto do aeroporto internacional, ficavam próximos ao litoral, onde há "solo aluvial muito sensível e solto", o que permitiu que as ondas sísmicas se propagassem facilmente. O litoral norte da Venezuela fica próximo à Falha de San Sebastián e às placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, cuja interação influenciou a intensidade dos dois terremotos da semana passada, explicou o especialista. Após perder sua casa e todos os seus pertences, Serrano admitiu que não sabe o que fará da vida, mas deixou claro que não voltará a morar em La Guaira para não desafiar o destino. "Esta é a segunda vez. Acho que talvez a terceira seja a última vez que vencerei a batalha."
O homem que sobreviveu a dois desastres naturais na Venezuela
Além de sobreviver aos recentes terremotos, Grian Serrano também superou ao deslizamento de terra de 1999 que atingiu La Guaira











