México e Estados Unidos vêm travando uma disputa cada vez mais parelha para ser a maior força futebolística do lado de lá das Américas, e o mata-mata da Copa do Mundo de 2026 é o novo capítulo desta rivalidade. A seleção mexicana deve encarar hoje o Equador, às 22h (de Brasília), no Estádio Azteca, com ao menos cinco jogadores de clubes do país na escalação. Do outro lado, o meia equatoriano Vite e o atacante Enner Valencia – que pode perder a posição de titular -- também representam a Liga MX. Este jogo, no entanto, é uma exceção: entre as equipes que seguem no Mundial, são os jogadores da MLS, a liga norte-americana, que predominam em campo. Neste mata-mata, 30 jogadores de diferentes seleções atuam em clubes da MLS. O campeonato dos EUA só cedeu menos atletas do que as ligas europeias mais tradicionais: Inglaterra, Alemanha, Espanha, França e Itália. Já o futebol mexicano tem menos jogadores (18) do que o americano entre as melhores seleções da Copa, algo que ainda não havia ocorrido nas edições em que os dois países chegaram ao mata-mata — segundo as listas de convocados que são divulgadas pela Fifa, desde 2010, antes do início do torneio. Em 2014, por exemplo, 18 jogadores de clubes mexicanos estavam em seleções que passaram da fase de grupos, contra 12 que atuavam em clubes dos EUA. Qual liga tem mais jogadores no mata-mata da Copa? Liga / Ano 2010 2014 2018* 2022* 2026 Estados Unidos 4 12 4 13 30 México 21 18 15 1 18 O campeonato dos EUA já havia superado o número de convocados da liga mexicana em 2022. Considerando todas as seleções que disputaram a fase de grupos naquela edição, 27 nomes de clubes da MLS atuaram no Mundial do Catar, contra 23 do futebol mexicano. Mesmo em 2018, na Rússia, quando os EUA não se classificaram, a MLS teve 17 convocados, pouco menos dos que os 23 jogadores daquela edição que estavam em clubes da Liga MX. O dado é apenas um dos vários indícios de que o crescimento do futebol nos EUA vem abalando antigas hierarquias na Concacaf, a confederação que representa as Américas Central e do Norte. No futebol de seleções, o México ainda é o maior campeão da tradicional Copa Ouro, mas a recém-criada Liga das Nações da Concacaf tem três conquistas norte-americanas e só uma mexicana em quatro edições. Convocados de clubes dos EUA e do México em Copas Liga / Ano 2010 2014 2018* 2022 2026 Estados Unidos 7 17 17 27 44 México 21 25 23 23 26 Mais sintomático ainda, alguns dos jovens talentos que caíram nas graças do México nesta Copa fizeram quase toda a sua formação esportiva nos EUA. O meia Brian Gutiérrez, de 22 anos e titular no início da fase de grupos, nasceu nos arredores de Chicago e chegou a jogar nas seleções de base dos Estados Unidos; no ano passado, optou por defender o México, onde nasceram seus pais, e passou a jogar no Chivas Guadalajara. Outro caso é o do meia Obed Vargas, de 20 anos, reserva constantemente acionado pela seleção mexicana. Hoje no Atlético de Madrid (ESP), Vargas nasceu no Alasca e fez parte do elenco do Seattle Sounders que se tornou, em 2022, apenas o terceiro clube americano a conquistar a Liga dos Campeões da Concacaf – LA Galaxy e DC United também venceram o torneio, mas com outro formato, no início dos anos 2000. Em 2026, a competição -- rebatizada de Copa dos Campeões da Concacaf – teve, pela primeira vez, quatro clubes americanos enfrentando quatro mexicanos nas quartas de final. Houve a possibilidade inédita, mas não concretizada, de que apenas times da MLS disputassem o caneco a partir das semifinais. O futebol mexicano historicamente domina nesse torneio. A talentosa geração mexicana da Copa de 2026 conta também com Gilberto Mora, de 17 anos, mexicano “da gema”: revelado pelo Tijuana, ele ganhou a posição de titular e recebeu elogios do técnico Javier Aguirre, que o apontou como possível cobrador de pênaltis da seleção. -- Tenho um grupo de jovens solidários. Estão preparadíssimos. É uma geração de mexicanos que a bola não queima no pé, que o cenário não os assusta – afirmou Aguirre após a vitória sobre a Tchéquia na semana passada. Do outro lado da fronteira, o goleiro Freese, o zagueiro Ream e o lateral-esquerdo Robinson são os titulares da seleção dos EUA que atuam na MLS. Mais do que ceder jogadores para a própria seleção, a liga norte-americana – que já teve a fama de abrigar atletas renomados em fim de carreira – hoje reúne jogadores relevantes para outras seleções. São os casos de James Rodríguez, craque da Colômbia e do Minnesotta United; de Stephen Eustáquio, jogador do Los Angeles F.C. e autor do gol da vitória do Canadá sobre a África do Sul, no domingo; e, claro, de Lionel Messi, hoje o maior artilheiro da história das Copas, atuando pelo Inter Miami. O argentino Mauricio Pochettino, treinador da seleção dos EUA, fez questão de elogiar os clubes da MLS após a vitória americana sobre a Austrália. O lateral-direito Freeman, hoje no Villarreal (ESP) e autor do gol que selou a classificação ao mata-mata, só chegou à seleção, segundo Pochettino, pelo trabalho desenvolvido no Orlando City, onde atuava até o início deste ano. -- Construímos uma relação de confiança com os clubes da MLS, e isso nos ajudou a tomar decisões. Freeman é um exemplo de como esse trabalho do nosso estafe e dos clubes merece crédito. Ele tem o potencial de ser um dos melhores jogadores de sua posição no mundo – elogiou Pochettino. Até hoje, EUA e México jamais foram além das quartas de final de uma Copa do Mundo. A seleção americana ostenta a terceira colocação do Mundial de 1930, mas em um formato com menos seleções, em que passou da fase de grupos e foi eliminada no primeiro jogo de mata-mata. Os melhores momentos de Brasil x Japão Os mexicanos chegaram duas vezes às quartas de final, em 1970 e 1986, justamente nas duas Copas que disputaram em casa. Nesta última, o hoje treinador Javier Aguirre era meio-campista da seleção mexicana, e atuou na derrota nos pênaltis para a Alemanha. Em 2002, quando os EUA atingiram as quartas de final, Aguirre também estava envolvido, mas como treinador do México. Os países vizinhos se enfrentaram nas oitavas de final, e a seleção americana conseguiu uma inesperada vitória por 2 a 0 -- placar que, até hoje, gera provocação de torcedores dos EUA, que costumam gritar "dos a cero" em partidas contra os mexicanos. Em busca de uma façanha Nesta edição, os EUA começaram com atuações animadoras sob o comando de Pochettino, mas a derrota para a Turquia na última rodada da fase de grupos gerou questionamentos da imprensa que irritaram o treinador. Pochettino usou um tom sarcático, na entrevista coletiva após a partida, para falar que "ninguém nos parabenizou por terminar em primeiro" no grupo. Aguirre e a seleção mexicana, por sua vez, chegam ao mata-mata em clima de lua de mel com a torcida. O México, pela primeira vez, teve 100% de aproveitamento na fase de grupos. Ignorando as rivalidades continentais, o Equador busca igualar hoje seu melhor desempenho em Copas, obtido em 2006, quando chegou às oitavas. Para isso, precisa derrotar a seleção da casa no Estádio Azteca, onde o México jamais foi derrotado em Mundiais. Depois de uma vitória épica sobre a Alemanha para avançar da fase de grupos, o técnico Sebastian Beccacece sinalizou que pode tirar o zerado atacante Enner Valencia da formação inicial do Equador. Na segunda-feira, Valencia transmitiu a faixa de capitão para o volante Moisés Caicedo.
Crescimento do futebol nos EUA abre novo capítulo da rivalidade com o México na Copa de 2026
Liga norte-americana passa a ter mais convocados do que a mexicana no mata-mata. Com talentos da MLS, equipe de Javier Aguirre encara o Equador, hoje, pela segunda fase















