Com cerca de 53 milhões de beneficiários de planos de assistência médica (84% em planos coletivos, principalmente empresariais) e aproximadamente 36 milhões em planos odontológicos, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as operadoras vêm lutando em várias frentes. Uma delas é reter e atrair clientes em um mercado cada vez mais competitivo. Outra é equilibrar receita e despesas diante de custos crescentes. BradSaúde (resultado da consolidação dos negócios de saúde do grupo Bradesco — Bradesco Saúde, Odontoprev e Atlântica Hospitais, anunciada em fevereiro passado), Hapvida, Amil, SulAmérica e Unimed-BH usam alternativas diversas para enfrentar as dificuldades setoriais, como oferta de produtos mais focados nas demandas da clientela, uso de inteligência artificial (IA) para reduzir desperdícios, fraudes e despesas assistenciais, expansão de rede própria e incentivos a prestadores de serviço. No caso da BradSaúde, a integração amplia sinergias de negócios e fortalece a capacidade financeira, diz o CEO, Carlos Marinelli. Isso porque traz maior escala, integração de dados, otimização da relação com prestadores, entre outras vantagens. “Crescimento, rentabilidade e criação de produtos integrados são prioridades estratégicas para os próximos anos”, diz o executivo. Para ele, há oportunidades para crescer tanto em praças já com presença da empresa como em mercados onde a BradSaúde ainda não está consolidada. Carlos Marinelli, CEO da BradSaúde: Crescimento, rentabilidade e criação de produtos integrados — Foto: Foto: Maria Tereza Correia/Valor No segmento de planos de saúde e odontológicos, que somam 13,4 milhões de beneficiários, o objetivo é ampliar e diversificar o portfólio, dando prioridade às pequenas e médias empresas (PMEs). No ano passado, a operadora lançou um plano de saúde empresarial em São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul e em 2026 no Paraná. Goiás passou a ter, desde 2025, um plano regional com rede específica para o Estado. A expansão da operação hospitalar é outra frente relevante da BradSaúde. Para os próximos anos, estão previstas novas unidades e fortalecimento de parcerias com Rede D’Or, Grupo Santa, Albert Einstein e Mater Dei. No primeiro trimestre de 2026, a BradSaúde ganhou 52 mil vidas em saúde e 141 mil nos planos odontológicos, fechando o período com receita de R$ 13,4 bilhões. A Hapvida, que vem sofrendo com perda de beneficiários — foram 45 mil em saúde, nos primeiros três meses de 2026 em comparação ao trimestre final de 2025 —, vem apostando em uma retomada de carteira disciplinada, com foco em rentabilidade. Uma aliada para isso é a rede própria, que cresceu de 815 unidades (hospitais, pronto-atendimentos, clínicas e diagnóstico) para 839 entre março de 2025 e março passado. A ideia agora é aumentar a ocupação e produtividade dos ativos já abertos, reduzir duplicidades com a rede credenciada e calibrar produtos mais adequados por praça, já que a verticalização é pilar do modelo integrado da Hapvida. “A companhia investe na rede própria para manter o custo assistencial sob controle e sustentar crescimento comercial disciplinado”, diz Alain Benvenuti, vice-presidente comercial e de relacionamento da Hapvida. A oferta de planos premium em São Paulo, que dão mais liberdade e flexibilidade para a escolha de médicos e hospitais, também está no cardápio de estratégias. No combate à alta dos custos e da sinistralidade, a Hapvida tem apostado em IA e gestão de dados para reduzir desperdícios e aumentar previsibilidade, revisão de protocolos e reforço de auditoria médica. A operadora fechou o primeiro trimestre de 2026 com 8,7 milhões de beneficiários em saúde (principalmente em planos coletivos empresariais) e 7,2 milhões em odontologia — 15,9 milhões. O lucro líquido ajustado ficou em R$ 244 milhões, 41,1% menor do que o anotado nos primeiros três meses do ano passado. Outra gigante do setor, a Amil, colhe resultados de um movimento iniciado em 2025, quando criou uma vice-presidência de clientes e revisou processos e investimentos. “Começamos 2026 com nossa melhor retenção histórica”, diz Renato Manso, CEO da Amil. No primeiro bimestre deste ano, a operadora conquistou 43 mil novas vidas em planos médicos. “Começamos 2026 com nossa melhor retenção histórica”, diz Renato Manso, CEO da Amil — Foto: Divulgação/Amil Com cerca de seis milhões de beneficiários (3,3 milhões em planos médicos e 2,7 milhões nos odontológicos), a Amil pretende ampliar sua atuação em São Paulo — capital e interior —, em Minas Gerais, em regiões de crescimento do agronegócio no Centro-Oeste e em alguns mercados do Sul e do Nordeste. “No Rio de Janeiro, vamos trabalhar para ampliar a liderança no mercado local”, destaca Manso. Para 2026, um dos objetivos é a expansão na área empresarial — os planos coletivos respondem por 88% da carteira médico-hospitalar. Ampliar a atuação no segmento de alta renda, com os produtos da linha Amil Black, lançados no começo de 2026, também faz parte do foco. Bons acordos com a rede credenciada, que possibilitam a customização dos planos, é uma das soluções da operadora para alcançar objetivos. Graças a eles, uma linha de produtos — um deles regional e outros com atendimento nacional — ofertada a partir de novembro de 2024 representou 80% das vendas em 2025. De olho na clientela de PMEs, vista com grande potencial de crescimento, a SulAmérica Saúde & Odonto, fechou o primeiro trimestre com alta de 11,4% em beneficiários, alcançando cerca de seis milhões — mais da metade em planos médicos —, em comparação ao mesmo período do ano passado. A carteira é dominada pelos planos empresariais. “Continuamos fortes no segmento corporativo, com destaque para pequenas e médias empresas. Identificamos que o cliente PME busca soluções mais flexíveis”, observa Raquel Reis, CEO da operadora. “Nossa principal abordagem é adaptar o portfólio às características locais”, diz Raquel Reis, CEO da SulAmerica — Foto: Foto: Ana Paula Paiva/Valor A SulAmérica desenha produtos, desde o plano de entrada até os produtos premium, com base nessa demanda de flexibilidade no modelo de contratação. Ela permite escolhas em tipo de acomodação, coparticipação e reembolso. A percepção do que o mercado está pedindo é conseguida por meio de relacionamento próximo aos clientes, iniciativa importante para entender diferentes realidades regionais e necessidades de contratação. Há produtos que combinam cobertura nacional e rede regionalizada mais eficiente e outros voltados para quem deseja exclusividade. Nesse caso, há consultores dedicados para agendamento de exames e consultas, acesso a médicos renomados e salas VIPs nos melhores hospitais do país. Também oferece checkup anual completo, vacinas inclusas, seguro-viagem internacional de até US$ 300 mil e uma central de relacionamento disponível 24 horas todos os dias. “Nossa principal abordagem é adaptar o portfólio às características locais e fortalecer a nossa presença em praças estratégicas”, diz Reis. A SulAmérica está se expandindo nos Estados do Rio de Janeiro, Pará e Goiás e ainda em Aracaju (SE) e Triângulo Mineiro. Em Minas Gerais, a Unimed-BH ancora sua perspectiva de crescimento na expansão e qualificação da rede assistencial e na inovação. Com 1,63 milhão de clientes no fim do primeiro trimestre deste ano, a operadora tem o segmento empresarial — que ocupa 87% da carteira — como uma das molas propulsoras desse intuito. De acordo com o presidente da Unimed-BH, Frederico Peret, a verticalização e o investimento em uma rede própria são uma estratégia importante para se manter sustentável. Hoje, a cooperativa conta com 18 unidades próprias, que complementam a atuação da rede prestadora. “Dessa forma, conseguimos ter mais controle e gestão dos custos”, destaca o executivo. Neste ano, um novo hospital em Contagem será aberto. Outro em Nova Lima deve começar a funcionar em 2027. Segundo Peret, a Unimed-BH, que vem oferecendo planos sob medida, com diferentes modelos de coparticipação e redes regionalizadas, tem a inovação como aliada para reter e atrair clientes. Disponibiliza atendimentos on-line de urgência, teleconsultas eletivas, saúde mental e telemonitoramento — acompanhamento remoto — para pediatria, gestantes e pós-alta da atenção domiciliar. Há também um algoritmo de IA, disponível no aplicativo da operadora, para indicar ao cliente a melhor opção de atendimento, de acordo com os sintomas e riscos em saúde. A tecnologia ajuda ainda a reduzir desperdícios de recursos durante a jornada do paciente. Já os médicos cooperados participam de um programa de eficiência e recebem remuneração variável que considera indicadores específicos, com metas compartilhadas entre os cooperados. A sinistralidade, indicador do desempenho operacional das operadoras, registrou em 2025 a menor taxa desde 2020, ano do início da pandemia de covid-19. Segundo a ANS, ficou em 81,7%, 2,1 pontos percentuais a menos do que em 2024, graças à recomposição das mensalidades, que superou a variação das despesas assistenciais, tendência observada desde 2023. Lígia Bahia, professora de saúde coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que a estratégia de competição focada na oferta de produtos regionalizados, adotada por muitas operadoras, oferece ao cliente redes credenciadas restritas. Segundo ela, a iniciativa trouxe expansão rápida e taxas de retorno elevadas. “E os resultados, dimensionados pelas receitas, entre outros parâmetros, sinalizam um mercado ativo, criativo e atraente aos investidores”, diz ela. No entanto, lembra, para os usuários, há pontos de preocupação, como aumento das mensalidades, direcionamento de clientes, elevação e uso disseminado de coparticipações, postergação e negação de coberturas. “Itens que são ferramentas poderosas de racionamento de acesso”, diz. A garantia da sustentabilidade financeira é o maior desafio das operadoras em 2026, avalia a coordenadora do FGV Saúde, Laura Schiesari. Ela vê tendência de desaceleração dos reajustes (dos planos coletivos), que caíram de 10,76% (média de 2025) para 9,9% nos primeiros dois meses de 2026. “Como a escalada prejudica a capacidade de pagamento, o repasse excessivo deixou de ser sustentável”, afirma. Após o impacto da covid-19, que afetou os resultados das operadoras, houve intensificação da eficiência operacional, comenta Vinicius Brum, VP da unidade da Falconi especializada em saúde e farma. “Aumentou também o controle e o combate às fraudes, com uso mais intensivo de tecnologia, análise de dados e inteligência artificial”, diz. Ligia Bahia, professora UFRJ: Regionalização traz expansão, mas oferece redes credenciadas restritas — Foto: Foto: Leo Pinheiro/Valor
Em busca de equilíbrio financeiro, operadoras investem em tecnologia, expansão de rede própria e produtos que os clientes querem
A estratégia pede um relacionamento próximo aos clientes, iniciativa importante para entender diferentes realidades regionais e necessidades de contratação








