O mercado de clínicas populares e cartões de desconto em saúde está em ascensão. Esse segmento cresceu oferecendo consultas, exames e outros atendimentos a preços reduzidos, em um modelo de negócio que não concorre diretamente com os planos e seguros regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e busca atender quem ainda está fora da saúde suplementar. A diferença entre esses produtos está na natureza jurídica e econômica. Os planos e seguros de saúde abrangem cobertura assistencial regulada, enquanto os cartões de desconto funcionam como instrumentos de acesso a preços reduzidos em consultas, exames, medicamentos — e ainda se discute sobre a necessidade de sua regulamentação. É um mercado pulverizado, com empresas nacionais, redes regionais, plataformas digitais, programas de benefícios e cartões vinculados a clínicas, laboratórios e farmácias. Parte das empresas que iniciaram suas atividades com clínicas populares passou a oferecer programas próprios de assinatura ou cartões de desconto. É o caso do Cartão de Todos, dr.consulta e Atend Já. Sem dados oficiais, estimativas do setor apontam entre 40 milhões e 60 milhões de brasileiros atendidos no ano de 2025. A Associação Nacional das Empresas de Benefícios e Atenção Primária e Secundária (Anebaps), por exemplo, congrega nove empresas com foco em atenção primária e secundária. Presentes em 18 Estados, com 144 clínicas, mais de quatro mil profissionais de saúde, essas empresas atendem por ano quase quatro milhões de pacientes únicos. No setor, algumas empresas combinam rede própria de clínicas com programas de assinatura; outras apostam em franquias ou redes credenciadas. Já um levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Saúde (Abecs) — que representa companhias que atuam com cartões de desconto — mostra que 250 empresas oferecem esse tipo de serviço, com oito milhões de aderentes e atendimento de 16 milhões a 20 milhões de pessoas por ano. Desse volume, 180 são associadas da Abecs, com perfil de pequeno e médio porte e operação regional. "Somos, hoje, um ecossistema de bens e serviços essenciais, sobretudo para as classes C e D”, resume Aquiles Vilar, vice-presidente da Cartão de Todos — Foto: Foto: Divulgação Pioneiro no segmento, o Cartão de Todos nasceu em 2001, em Ipatinga (MG), com foco exclusivo em saúde. “A partir de 2008, começamos a abraçar outras ofertas de desconto, como lazer e educação, e nos transformamos no que somos hoje, um ecossistema de bens e serviços essenciais, sobretudo para as classes C e D”, resume Aquiles Vilar, vice-presidente da Cartão de Todos, que tem uma mensalidade única de R$ 33,40, com acesso a toda a rede de benefícios, incluindo odontologia. Em 2008, a companhia separou a operação do cartão de desconto e dos serviços médicos e, em 2016, criou a marca AmorSaúde. Hoje, atende cerca de sete milhões de famílias (20 milhões de usuários) e opera mais de 500 clínicas em todo o país, com meta de alcançar mil até 2028, segundo Beatriz Brisotti, CEO da AmorSaúde. A dr.consulta nasceu como startup e opera com mais de 30 centros médicos. Com cerca de 1.400 profissionais de saúde, a empresa atua em mais de 60 especialidades e oferece aproximadamente três mil tipos de exames. “Mais de quatro milhões de pacientes já utilizaram nossos serviços”, diz Massanori Shibata Jr., CEO da dr.consulta e presidente da Anebaps. “Mais de quatro milhões de pacientes já utilizaram nossos serviços”, diz Massanori Shibata Jr., CEO da dr.consulta e presidente da Anebaps — Foto: Foto: Luis Gustavo Benedito/Divulgação O grupo iniciou a expansão nacional por meio da telemedicina, um benefício individual com mensalidade de R$ 9,90. Hoje, a companhia realiza cerca de 300 mil atendimentos mensais, dos quais quase 20% já acontecem remotamente. A dr.consulta também possui serviços de assinatura, com mensalidades a partir de R$ 34,90 e R$ 39,80, incluindo opções com cobertura odontológica. A Atend Já, criada em 2016 em Londrina (PR), está em 22 Estados, com mais de 150 franquias comercializadas, 80 unidades em funcionamento, rede de aproximadamente 800 médicos e mais de quatro milhões de atendimentos acumulados. Em 2025, a empresa faturou R$ 25 milhões e, neste ano, projeta receita de R$ 35 milhões. Além das consultas, exames laboratoriais e de imagem, medicina do trabalho e financiamento de cirurgias, a empresa lançou em 2025 o próprio cartão de benefícios, com taxa de adesão de R$ 50 e mensalidade de R$ 59,90 para até cinco dependentes. Há consenso de que as clínicas populares e os cartões de desconto surgiram para atender um vazio do serviço de saúde, ocupando espaço entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e os planos de saúde. “Hoje, 75% da população não possui planos privados”, diz Rafael Grizzo, CEO e fundador da Atend Já. No entanto, nem todos enxergam esse modelo como solução para ampliar o acesso à saúde. Para Lucas Andrietta, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), as clínicas populares podem reduzir o tempo de espera para consultas e exames, mas não substituem políticas públicas nem aliviam a pressão sobre o SUS. “Esse tipo de gasto direto das pessoas tem baixo grau de resolutividade, aprofunda desigualdades de acesso e não substitui nem alivia o SUS.” Como esses serviços cresceram em um vácuo normativo, a discussão sobre a regulação desse mercado retorna de tempos em tempos. Em abril, por exemplo, a ANS criou um comitê interno para estudar esses mercados e seus aspectos técnicos, assistenciais, jurídicos, econômicos, sociais e regulatórios. O tema voltou à pauta da ANS após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reconheceu a competência da agência para regulamentar e fiscalizar os cartões de descontos em serviços de saúde. “A agência vai avaliar a elaboração de normas que garantam os direitos dos consumidores, a transparência das informações, a clareza na oferta dos serviços e a redução do risco de práticas que induzam o consumidor a confundir esses produtos com planos de saúde”, informa a ANS. Além do comitê interno, a agência abriu uma consulta pública para coletar informações sobre os cartões de desconto e as clínicas populares. Andrietta, da USP, vê com ceticismo a decisão da ANS: “A ideia difusa de ‘regular o setor’ pode parecer bem-vinda em abstrato, mas nunca foram apresentados argumentos técnicos, assistenciais ou econômicos, que demonstrem qualquer mudança na maneira como os serviços são prestados ou qualquer benefício para a população”. Ele entende que as clínicas já estão sujeitas à regulação sanitária, como qualquer estabelecimento de saúde. Para Aline Gonçalves Lourenço, sócia do escritório Bhering Cabral Advogados, a regulamentação é relevante porque esse mercado cresceu em uma zona de baixa clareza regulatória. “O ponto essencial é evitar que o consumidor acredite estar contratando um plano de saúde, quando, na verdade, contratou apenas um programa de descontos”, destaca. Ela alerta que o risco maior está na comunicação comercial ambígua, quando o produto é vendido com aparência de cobertura, mas juridicamente oferece apenas desconto. Ela considera que a regulação deve trazer previsibilidade às empresas, padronização mínima de informações e necessidade de adequação de contratos, publicidade, rede parceira, critérios de preço e canais de atendimento. A Abecs é favorável às normas. “Nós entendemos que essa regulação é absolutamente salutar e que esse mercado precisa ser regulado o mais rapidamente possível”, diz Breno Carley Santos, presidente da entidade. Shibata Jr., presidente da Anebaps, considera a iniciativa da ANS positiva. Ele defende, no entanto, que o processo não seja restritivo nem comprometa o acesso de milhões de brasileiros que utilizam esses serviços como alternativa aos planos tradicionais. “Uma regulação inadequada pode prejudicar principalmente consumidores que contratam o serviço de forma direta.” Outros têm dúvidas se há necessidade de regulamentar o setor. É o caso de Vilar, da Cartão de Todos. “A intervenção do Estado só se justifica quando há falhas de mercado que comprometam o interesse público, cenário que não está claro neste momento.”
Expansão das clínicas populares e dos cartões de desconto levanta discussão sobre regulamentação desse mercado
Essas modalidades de atendimento, como Cartão de Todos e dr.consulta, funcionam como instrumentos de acesso a preços reduzidos em consultas, exames, medicamentos, mas ainda se discute sobre se devem ou não ser reguladas









