Quando uma aeronave bate no prédio mais alto da capital, falta de transparência abre espaço para comparações estapafúrdias 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jornal estatal chinês exposto no centro de Pequim. Ao fundo, o Estádio dos Trabalhadores — Foto: Marcelo Ninio/O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/06/2026 - 19:08 Avião colide com Citic Tower em Pequim, gerando críticas à transparência chinesa Um avião de pequeno porte colidiu com o Citic Tower, o prédio mais alto de Pequim, matando o piloto e ferindo 13 pessoas. O incidente levantou questões sobre o controle aéreo na capital e destacou a falta de transparência das autoridades chinesas, que demoraram quase 24 horas para confirmar o ocorrido. A comparação com o 11 de Setembro, embora exagerada, foi alimentada pela ausência de informações oficiais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O céu não esteve lá muito amigável em Pequim na última semana. Primeiro, o azul cintilante que costuma cobrir a cidade nesta época do ano andou dando lugar a um cinza opaco, sem graça. Pior, na sexta-feira um avião de pequeno porte se chocou contra o prédio mais alto da cidade, levantando duvidas sobre o controle aéreo da capital chinesa, algo que até então passava pela cabeça de poucos numa cidade que é sinônimo de segurança. Quando os rumores começaram a circular entre correspondentes estrangeiros, muitos acharam que era piada de mau gosto. Aos poucos foram surgindo indícios que era para valer, com fotos em redes sociais de destroços voando perto do edifício, que fica no coração do centro financeiro de Pequim. As imagens encorajaram alguns a publicar a notícia, ainda sem muitos detalhes. Até ali, nada de confirmação oficial, que só viria quase 24 horas depois. Na mídia estatal, passou em branco. A maioria dos chineses ignorou o acidente. Quem transitou por ali naquela noite ficou sem entender o motivo por trás do enorme contingente policial perto do prédio, cercado por um cordão de isolamento para evitar a aproximação de correspondentes que tentavam fazer seu trabalho. — Só sei o que aconteceu porque minha mulher leu na imprensa estrangeira — contou um instrutor de educação física no dia seguinte, quando ainda era visível o dano causado no prédio. Inaugurado em 2018, o Citic Tower tornou-se símbolo instantâneo de Pequim. Não só por ser o mais alto da cidade, mas por ficar bem ao lado do prédio mais famoso (infame para muitos, que odeiam seu exibicionismo em forma de U), a sede da TV estatal CCTV. Para chegar a seus 108 andares e 528 metros, a torre que abriga o conglomerado financeiro Citic teve que driblar um veto do governo central da época contra prédios altos. Muitos outros não escaparam da proibição, baixada para deter uma corrida de arranha-céus entre províncias. Quando as autoridades distritais soltaram as primeiras informações, no dia seguinte ao choque, muitos dos que sabiam já tinham feito comparações com o 11 de Setembro, por estapafúrdias que fossem, geradas na falta de informações. Pelo anúncio oficial, o avião esportivo de dois lugares era ocupado apenas pelo piloto, que morreu no impacto, deixando 13 pessoas feridas. Na segunda-feira, o Citic Tower, também conhecido como China Zun devido ao formato inspirado num vaso antigo, estava ainda cercado de carros da polícia. Tanto quanto a surpresa pela possível falha de segurança numa área de espaço aéreo altamente controlado, ficou a sensação bem familiar para os chineses de que o normal é não saber, e o mais prudente é não perguntar. O governo defende seu modelo de comunicação restritivo como antídoto contra o caos do Ocidente, e ataca os jornalistas estrangeiros pela postura crítica. A rivalidade geopolítica alimenta a desconfiança. Na mais recente pesquisa entre correspondentes estrangeiros baseados na China, oito entre dez disseram não contar com condições básicas de acesso a informação. O incidente do avião em Pequim conflui duas políticas dominantes para a liderança chinesa. Uma é colocar a segurança acima de tudo. A outra é tentar manter o controle da narrativa. Mesmo que, para isso, seja preciso ocultar os fatos.