Segunda maior força consumidora do país, Nordeste sente ímpacto de crédito caro e inflação alta Com gastos estimados de R$ 1,511 trilhão este ano, equivalentes a 18,6% do montante nacional, o Nordeste é a segunda maior força de consumo do país, de acordo com o estudo IPC Maps 2025, da IPC Marketing. O cenário, contudo, seria melhor se o comércio registrasse resultados positivos, o que não vem ocorrendo. O varejo caiu em todos os Estados da região em abril, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE. Mesmo resultado foi revelado pelo Índice Cielo de Varejo Ampliado: queda de 4,7% (descontada a inflação) no mês sobre abril de 2025, a maior queda entre as cinco regiões. Levantamento sobre aberturas e fechamentos de lojas de shopping centers da Cortex, empresa de IA para Go-to-Market, evidencia o cenário crítico que o comércio nordestino enfrenta. “No último trimestre de 2025, o Nordeste respondia por 12,5% de todos os fechamentos registrados no país”, afirma Fernando Pereira, advisor manager da Cortex. “No acumulado do primeiro trimestre de 2026 a região concentrou 18,3% das perdas nacionais”. Luiz Alberto Marinho, fundador da LAM-Leading on Advanced Mallscape, alerta, porém, que é preciso segmentar o varejo para analisar os resultados, uma vez que há um descolamento da realidade segundo as classes sociais. “A maior fragilidade está nas marcas mais populares e nos pequenos negócios, que sofrem impacto direto do endividamento das famílias e dificuldade no acesso ao crédito. Quem vende para as classes mais altas não sofre tanto”, diz Marinho. “É um engano dizer que são hábitos de consumo diferentes; o que varia é a capacidade de consumir por conta do bolso”. A fotografia do setor aponta perda de ritmo em um ambiente marcado por inflação, maior comprometimento da renda das famílias, aumento do endividamento e taxas altas de juros. “O crédito é a mola propulsora do varejo. Quando o acesso se torna mais difícil, o impacto não demora a aparecer”, afirma Hugo Casasanta, CEO da Casa do Celular, com mais de 450 lojas, 280 delas no Nordeste. “De janeiro a maio crescemos 30% em unidades em relação ao mesmo período de 2025, mas a retração média do faturamento por loja foi de 5%”, diz o executivo. A fim de manter a previsão de crescimento traçada para este ano com foco em centros mais populares, Casasanta investe em estudos aprofundados de cidades com maior potencial de consumo e análise de comportamento do consumidor. “Em 2026, as melhores oportunidades no Nordeste se apresentaram em Pernambuco e Bahia”, revela. Com faturamento anual estimado de R$ 1 bilhão, mais de 40% gerados na região, a Casa do Celular projeta abrir 60 novas lojas - 35 no Nordeste - até dezembro. Para André Pivetti, fundador da First Class Home, especializada em cama e banho, mais do que em qualquer outra época, o varejo precisa trabalhar a ida do consumidor à loja mais de uma vez. “Lançamos uma média de quatro novos produtos por mês e alardeamos com campanhas personalizadas, ações de CRM e até live shops”, conta. “Ao mexer as peças do tabuleiro de maneira intencional alcançamos resultados positivos mês a mês, com aumento no faturamento entre 4% e 6% quando comparado a 2025”. Lançamos uma média de quatro novos produtos por mês e alardeamos com campanhas personalizadas” O Nordeste abriga 60 das 250 lojas da rede e responde por mais de 30% do faturamento, que esse ano deverá alcançar R$ 540 milhões. “É um mercado importante, que tem suas peculiaridades culturais e climáticas. Quem não respeita essa cartilha não vinga”, adverte Pivetti. Com renda concentrada e boa parte dos consumidores sentindo de maneira mais intensa as pressões do endividamento e da inflação, a região exige ganhos de eficiência contínuos e parcerias bem alinhadas com fornecedores. A rede de farmácias Pague Menos, cujo negócio está 60% concentrado na região (1.292 lojas), tem colhido bons resultados com foco em gente e promoções mais assertivas. No primeiro trimestre, a receita bruta cresceu 14,4% sobre igual período de 2025, para R$ 4,1 bilhões, ampliando a participação de mercado para 6,7%. “Os resultados evidenciam o ciclo contínuo de expansão com disciplina operacional e ganhos de eficiência, avançando em categorias estratégicas como GLP-1 [diabetes tipo2 e obesidade], com aumento de 153% nas vendas, e de cuidado contínuo”, diz Walace Siffert, VP comercial. “Além de medicamentos genéricos, cujas vendas na região respondem por 12,7% do total comercializado”. Na outra ponta, o bom desempenho de marcas de luxo também é real. Focada no público A e B+, as redes de calçados e moda masculina Noha e Tchau registraram crescimento em 2025 e projetam aumentar o número de lojas e o faturamento em 2026. “Investimos na experiência do cliente na loja, na curadoria e consultoria de moda, na qualidade do produto e do serviço, a fim de atender um público exigente”, diz o sócio Simon Carrazzone. No total são 25 lojas, entre Tchau e Noha na região, com vendas mensais que variam de R$ 1,3 milhão a R$ 2 milhões. Arede espera abrir até 2027 mais 8 unidades, 6 delas no Nordeste.