O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fernando Henrique com a Carta de Caminha — Foto: Gustavo Miranda RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 21:18 Fernando Henrique Cardoso completa 95 anos sob legado de estabilidade econômica e modernização do Estado Fernando Henrique Cardoso celebrou 95 anos em 18 de junho, vivendo em Higienópolis, São Paulo, afetado pelo Alzheimer. Reconhecido por seu governo que trouxe estabilidade econômica, FH também é lembrado pela polêmica reeleição e por suas nomeações ao STF. Governou com foco na modernização do Estado e avanços em saúde e educação. Apesar de críticas do PT, seu legado é considerado positivo por muitos, comparado aos governos seguintes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Fernando Henrique Cardoso completou 95 anos no último dia 18. Ele vive em seu apartamento, em Higienópolis, acometido por Alzheimer. A doença tornou-o recluso — anteriormente, era visto com frequência nas ruas do bairro e nos seus restaurantes. Personagem da cidade, às vezes caminhava sem qualquer companhia ou segurança. Até há algum tempo, eu o encontrava às quintas na Sala São Paulo, de cujo conselho foi presidente. Era aplaudido em pé pela plateia quando avistado no camarote. O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo. Mais sua elegância e bom humor. Cometeu erros como qualquer governante, porém acertou mais do que a maioria. Com sua autoridade, poderia ter pisado mais fundo. Bem. Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica; segunda, a desgraça da reeleição. Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros. O personagem FH é resultado de um Brasil pré-1964. Cidadão do mundo, como intelectual teve acesso a ideias e discussões travadas em diferentes universidades europeias e americanas. Exilado pela ditadura militar, trabalhou com sociólogos e economistas, também banidos por seus governos ditatoriais, no Chile de Allende. Ainda antes, na USP, integrou o famoso grupo de estudos sobre Marx montado pelo filósofo José Arthur Giannotti, junto a Francisco Weffort, Paul Singer e Roberto Schwarz. Atenção: os intelectuais acima estudavam Marx não para se tornar marxistas. Buscavam conhecimento. Caso contrário, repetiriam os bolsonaristas quando falam contra Antonio Gramsci: são incapazes de citar qualquer de suas obras. Eleito, FH governou com a esquerda e a direita civilizadas. Seu vice era Marco Maciel, prócer do PFL, dissidência da Arena dos militares. De centro-esquerda, buscou a modernização do Estado, com intenção de superar as amarras getulistas ainda presentes na máquina e na administração. Seu ministro da Saúde, José Serra, deu ao Brasil os remédios genéricos e um dos melhores programas mundiais contra a aids. Paulo Renato, na Educação, obteve a universalização do acesso ao ensino fundamental para crianças entre 7 e 14 anos. Bateu em 97%. A qualidade do período FH demorou a ser reconhecida em virtude da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Alguns dirão se tratar de estratégia política. Talvez. Mas havia ressentimento, ou mesmo inveja, que a frieza da estratégia não explica. Ao chegar à Presidência, Lula forjou a expressão “herança maldita” para qualificar os governos do tucano. Cuspiu no prato que comeria. Pôs na presidência do BC Henrique Meirelles, ex-deputado do PSDB; seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci, seguiu o protocolo econômico de FH; e herdou o Bolsa-Escola, depois transformado em Bolsa Família, ainda a vitrine petista de governo. Economistas se referem ao Lula 1 como sequência disfarçada da gestão tucana. Diante do time que concorre à Presidência neste 2026, a pergunta que vale ouro: onde erramos? Depois de eleger um intelectual, professor universitário, estudioso das questões de dependências econômicas e do racismo, como agora os candidatos só discutem a corrupção Master? FH tinha ideias. E hoje, vale dizer que todos têm um preço? Debelada a inflação, extintos os bancos estatais (sobraram BB, Caixa e BNB, além do BRB), promulgada a Lei de Responsabilidade Fiscal e estabelecido o tripé da política econômica — em resumo, o real como símbolo de estabilidade. A emenda da reeleição tornou-se uma maldição em todas as instâncias de cargos eletivos. O primeiro atingido pelo mau feitiço foi o próprio FH — ele reconheceu tardiamente o erro. Deveria ter ouvido o grande Mário Covas, para quem o Brasil não tinha maturidade — eu diria honestidade — capaz de enfrentar as tentações colocadas na mesa pela possibilidade de reeleição. De novo, o tempo. Os sucessivos Lulas, Dilma e o maléfico Jair Bolsonaro, com seus estilos divisivos de fazer política, deram à gestão de FH um tom de passado idílico. Não havia o “nós contra eles” e reinava — digo que foi um erro — a tolerância com os adversários. O deputado Bolsonaro disse que FH mereceria ser metralhado. (Depois os bolsonaristas reclamam que ninguém se apieda dos soluços do Jair.) Feliz aniversário, presidente. _____________________________ Na minha coluna anterior, associei indevidamente a cidade de Rio das Ostras ao ex-presidente Bolsonaro. Amigos e leitores atentos se sentiram ofendidos. Peço desculpas pela menção inadequada.