Em testemunho inédito, ex-presidente narra manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha O ex-presidente Wenceslau Braz, que governou entre 1914 e 1918, em retrato de 1909 — Foto: Arquivo Público Mineiro RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/06/2026 - 11:34 Ex-presidente Wenceslau Braz expõe escândalos orçamentários da República Velha Em um depoimento inédito, Wenceslau Braz, ex-presidente do Brasil, revela em suas memórias as manobras orçamentárias do Congresso durante a República Velha. Eleito sem oposição em 1914, graças à política do café com leite, Braz enfrentou dificuldades financeiras e turbulências como a Primeira Guerra Mundial. Suas memórias, guardadas por 60 anos, destacam a política de compadrio e escândalos orçamentários, lançando luz sobre um período conturbado da história brasileira. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914, a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder. “Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se. As memórias póstumas logam luz sobre o nono presidente brasileiro, que era ridicularizado pela imprensa e descrito como azarado e indeciso. No texto, “Seu Lalau” se apresenta como um político de pouca ambição, mas com alma de estadista. “Assumi o cargo sem compromissos senão aqueles que a honra e o patriotismo impõem”, assegura. Ele descreve a rotina no Catete como uma vida de sacrifícios. “É de ver-se quanto trabalhei, que esforço supremo empreguei para cumprir o penoso dever! Dia e noite dediquei-me ao serviço público, despreocupado de mim e de minha família”, valoriza. Wenceslau foi vice do antecessor, o marechal Hermes da Fonseca. Com medo de ser visto como traíra, prometeu ficar longe do Rio para evitar “intrigas e mexericos”. “Toda oposição aspira atirar o vice-presidente contra o presidente”, explica. Eleito chefe de governo, ele diz ter encontrado uma calamidade nas finanças. “Fiquei estarrecido! Sem dinheiro, sem crédito, quase sem renda e devendo os cabelos da cabeça, eis a situação!”, exclama. Passou a tesourar gastos, incluindo os do palácio. “Minhas filhas ou andavam de bond ou de taxis pagos pelo meu bolso”, orgulha-se. O mineiro viveu tempos turbulentos. Seu mandato coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola e a Greve Geral de 1917. Ele não escreve uma linha sobre o levante operário, que mandou reprimir com violência. Ao narrar a vida de industrial após deixar a política, diz que tratava os trabalhadores “como amigos, quase como filhos”. A entrada na política se deu pela via do familismo. O “venerando pai”, Francisco Braz, era chefe conservador no interior de Minas. “Fui político, muito político desde meus 12 anos”, escreve Wenceslau. Aos 24, ele se elegeu deputado estadual graças à máquina operada pelo clã. “Prestígio no estado não tenho, nem poderia ter”, admitiu a um amigo. Sua cidade natal, São Caetano da Vargem Grande, viraria Brazópolis em homenagem ao patriarca. O ex-presidente rascunhou as memórias num caderno de capa dura, “para conhecimento de meus descendentes.” O documento ficou guardado por seis décadas, até que os herdeiros autorizaram a publicação sob o título “Esboço de minha vida política”. No posfácio, o historiador Francisco Alambert observa que o ex-presidente, “certamente sem se dar conta, descreve o passo a passo da política de compadrio, favorecimento e concentração de poder” que marcou a Primeira República. O Brasil mudou muito, mas não mudou em tudo. Ao relembrar embates com o Congresso, Wenceslau critica as “caudas orçamentárias”, antepassadas do orçamento secreto. “Não se pode imaginar os escândalos que houve”, afirma. O ex-presidente diz que os parlamentares criavam dificuldades para emplacar emendas pouco republicanas, que causavam “verdadeiras sangrias no pobre Tesouro”. “Despesas sumptuárias, favores pessoais, eram por essa forma aprovados”, conta.
'Não se pode imaginar os escândalos': o Brasil que não passou nas memórias de Wenceslau Braz
Em testemunho inédito, ex-presidente narra manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha








